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Fraude da Volkswagen é um trauma para a empresa – e para o orgulho alemão

Montadora que simboliza a eficiência do país vai enfrentar multas bilionárias, crise de imagem e o risco de se transformar em um 'pária' nos EUA

Por Da Redação - 22 set 2015, 09h12

Eficiência é uma virtude tão valorizada na Alemanha que ela se transformou em sinônimo do país. Na terra em que a eficiência é quase um gentílico, a Volkswagen é um orgulho nacional. Isso ajuda explicar a comoção que um escândalo envolvendo a empresa representa para os alemães. E a comoção está em vigor.

Desde a última sexta-feira, o orgulho nacional do país-eficiência está no centro de um escândalo que contrasta com seu status. A Volkswagen admitiu que usou um sistema que adultera a emissão de gases poluentes de carros movidos a diesel vendidos nos Estados Unidos para receber um selo ecológico das autoridades americanas. Nos testes, o carro tinha baixa emissão de poluentes, mas depois, nas ruas, o volume de poluentes era maior que o dos testes. São 482 000 veículos – das marcas Volkswagen e Audi – equipados com o sistema fraudulento no mercado americano.

“Desastre” e “hecatombe” foram duas das expressões usadas pela imprensa alemã nos últimos dias para se referir ao episódio. Nesta segunda, a empresa perdeu 20 bilhões de euros em valor de mercado nos primeiros momentos pós-abertura da Bolsa de Frankfurt. As ações da montadora fecharam em baixa de 17,14%, sua maior queda para um só dia na história.

A fraude ainda pode fazer a empresa levar multas que chegariam a 18 bilhões de dólares, além de possíveis ações na Justiça movidas por consumidores. “O caso terá consequências financeiras consideráveis para o grupo, que ainda não podem ser calculadas”, disse à agência AFP o analista do setor automobilístico Ferdinand Dudenhöffer. “Isso sem contar o prejuízo para a imagem e a credibilidade da Volkswagen em todo o mundo.”

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Força no mundo, fraqueza nos EUA – O caso ocorre em um momento em que a empresa tentava se afirmar nos Estados Unidos. No primeiro semestre, ela superou a Toytota e se transformou na maior montadora do mundo – uma meta que a companhia pretendia alcançar em 2018. Mas, nos EUA, a força não era a mesma. Em 2014, ela foi apenas a oitava no ranking, com fatia de 3,6%. A maior parte das vendas da montadora ocorre na Europa, com 41,2%, seguida pelo mercado chinês, com 34,5%. Os Estados Unidos respondem por 9,4% das vendas da companhia.

Com os carros movidos a diesel – os mesmos em que o sistema fraudulento foi instalado -, apresentados como potentes e pouco poluentes, a Volkswagen esperava compensar suas carências nos EUA. “A montadora já enfrentava um momento difícil” no mercado americano, diz Frank Schwope, analista do banco Nord/LB. A aposta da empresa era duplicar suas vendas anuais das marcas Audi e Volkswagen nos próximos três anos, graças sobretudo a uma nova SUV urbana, projetada especialmente para o mercado americano.

Ao reconhecer a fraude, a empresa suspendeu as vendas de seus modelos a diesel de quatro cilindros das marcas VW e Audi, que representavam 23% de suas venda no país. No domingo, o presidente da montadora, Martin Winterkorn, pediu desculpas. “Pessoalmente, lamento muito que tenhamos traído a confiança de nossos clientes e do público”, declarou.

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A Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês), responsável pela investigação que descobriu a fraude, já começou a investigar também outras montadoras que atuam nos Estados Unidos. O governo alemão, por sua vez, pediu às montadoras que demonstrem a veracidade de seus dados sobre de emissões de poluentes. A ideia é “investigar se houve manipulações semelhantes na Alemanha ou na Europa”.

“A Volkswagen corre o risco de se transformar em um pária para o governo americano – e, quem sabe, também para os consumidores do país”, disse Max Waburton, analista da Bernstein, citado pela agência Bloomberg.

Antes do escândalo, a previsão era que o mandato de Winterkorn seria prolongado até o final de 2018 na reunião do conselho da empresa marcada para o dia 25 de setembro. Isso confirmaria a vitória do executivo, de 68 anos, no duelo de bastidores travada com seu ex-mentor e homem forte da empresa, Ferdinand Piëch.

Agora, a recondução de Winterkorn já não parece fato consumado – ele é o chefe da divisão de desenvolvimento da marca Volkswagen. “O conselho não pode se fazer de desentendido. A Volkswagen precisa de um retomada, que na minha opinião não pode ser feita com Winterkorn”, diz o analista Ferdinand Dudenhöffer.

Gigante com história – A montadora alemã foi fundada em 1936 por Ferdinand Porsche para fabricar um “carro do povo” (“Volkswagen”), em um pedido feito por Adolf Hitler. Foi assim que nasceu o popular Fusca. Depois da Segunda Guerra Mundial, o grupo fabricou outro veículo mítico, a Kombi. Na sequência, a empresa começou a se expandir por meio de aquisições.

Em todo o mundo, a empresa tem cerca de 590 000 funcionários e um volume de negócios de 200 bilhões de euros, movidos pelas 12 marcas que a montadora comercializa. Seu acionista majoritário (50,7%) é a holding Porsche SE. Ela é controlada em sua totalidade pelas famílias Porsche e Piëch, herdeiras do inventor do Fusca, Ferdinand Porsche. O estado da Baixa Saxônia possui 20%, o que lhe confere um direito de veto sobre as decisões estratégicas.

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(Com AFP)

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