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Forbes comprova: mulheres ricas (quase) não existem

Em lista de mais de 1.600 bilionários publicada nesta segunda-feira, apenas 16 mulheres construíram sozinhas a própria fortuna

Por Ana Clara Costa - 3 mar 2014, 22h46

Durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, a presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, demonstrou frustração ao ponderar que os avanços para reduzir as desigualdades entre homens e mulheres são notáveis, mas não são suficientes para conduzi-las a postos de liderança em empresas e instituições mundo afora. Também em Davos, a diretora de operações do Facebook, Sheryl Sandberg, compartilhou do mesmo sentimento de Lagarde ao afirmar que apesar de as mulheres obterem diplomas em compasso semelhante ao dos homens, sua ascensão profissional é estancada pela vida pessoal e medo de prosperar.

Em outro evento internacional em 2013, na cidade suíça de St Gallen, a ex-ministra das Finanças da França chegou a pedir que as mulheres enveredassem com mais afinco para o mundo econômico, afirmando que isso daria mais segurança e estabilidade à economia global. As súplicas de Lagarde, contudo, ainda são em vão. A lista de bilionários da Forbes, divulgada nesta segunda-feira, pode ser considerada um apanhado de cifras sem grande importância. Mas é um exemplo e tanto que a participação feminina ainda é incipiente – e que as mulheres realmente “ricas” (e bem-sucedidas) são estatisticamente raridade.

Os números são autoexplicativos. Entre 1.645 bilionários, apenas 172 são mulheres e somente 16 (o equivalente a 1% do total) delas construíram a própria fortuna às custas de seu trabalho – e não por herança ou um divórcio bilionário. Das dezesseis ricaças, sete são americanas, quatro são chinesas, duas são britânicas – e há ainda uma russa, uma natural de Hong Kong e outra de Macau para fechar a curta lista. No Brasil, dos 65 bilionários mostrados pela Forbes, 14 são mulheres – todas herdeiras de pais, maridos ou ex-maridos. Nenhuma delas está no comando das empresas que herdaram.

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A Forbes celebrou o fato de, entre 268 novos nomes na lista de 2014, 42 serem mulheres – um recorde, segundo a publicação. O porcentual de 172 bilionárias sobre um total de 1.645 (ou 10,4%) também é inédito, aponta a revista. Contudo, até a Forbes reconhece que o “progresso é pequeno” e afirma que apenas 32 mulheres tiveram algum papel na construção de suas fortunas – sendo 16, individualmente, e o restante, ao ajudar seus cônjuges.

No caso dos 1.473 bilionários do sexo masculino, dois terços construíram suas fortunas do zero, diz a Forbes. Entre os dez mais ricos do mundo, apenas Jim e Christy Walton, herdeiros do Walmart, não levantaram seu patrimônio do nada. Jim Herdou do pai, Sam Walton, a maior rede de supermercados do mundo. Enquanto Christy é a viúva de John Walton, irmão de Jim. Bill Gates, filho de um bem-sucedido advogado de Seattle, criou a Microsoft com o dinheiro de suas próprias economias e as de seu sócio, Paul Allen. O mexicano Carlos Slim, filho de um casal de pequenos comerciantes, usou sua mesada para comprar suas primeiras ações aos 12 anos. Já Larry Ellison, criador da Oracle, foi entregue para adoção ainda criança, abandonou os estudos por diversas vezes e ficou, durante sua juventude, trabalhando informalmente como técnico nos primórdios da informática. Quando fundou a Oracle, tinha 33 anos.

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Aos 44 anos, Sheryl Sandberg, do Facebook, conseguiu chegar ao 1.540º lugar da lista da Forbes sem ter, de fato, qualquer participação na fundação da companhia e tampouco ter escrito uma linha de programação. Seu patrimônio de 1,05 bilhão de dólares foi alcançado “por acaso”, avalia a revista, graças à valorização de 130% das ações do Facebook nos últimos 12 meses – situação que está muito longe de representar um demérito para Sheryl, que detém nada menos que 12 milhões de papéis da companhia.

A presença de Sheryl na lista representa, de certa forma, uma vitória simbólica – mais que financeira. Ao constatar as dificuldades das mulheres em ascender a postos de comando, a executiva do Facebook passou a ocupar o papel de porta-voz dos direitos femininos à carreira profissional. No ano passado, criou a rede social Lean In, que estimula o protagonismo feminino na sociedade. Também em 2013 Sheryl lançou o livro Faça Acontecer (Companhia das Letras) – uma espécie de autoajuda para mulheres no trabalho, com exemplos de situações vividas ou presenciadas por ela.

Felizmente, em seu livro, os números referentes à ascensão feminina são mais animadores que a amostra contida na lista da Forbes. Infelizmente, ainda estão distantes do ideal para sociedades que ostentam feitos como o alcance da igualdade de gênero. Ela cita que não há país no mundo com mais de 5% de suas empresas sob o comando feminino – mesmo as mulheres representando 50% da população mundial. Na América Latina, o porcentual é inferior a 2%. “A questão é que mulheres têm de ser ouvidas no poder, no corpo executivo de uma empresa, em governos. Vemos muito mais homens do que mulheres nessas mesas”, afirmou Sheryl em entrevista a VEJA, no ano passado.

As donas dos próprios bilhões
Ranking Nome Fortuna em US$ bilhões
2014 2013
325º Diane Hendricks – EUA 4,6 4,4
520º Judy Faulkner – EUA 3,1 2,3
580º Oprah Winfrey – EUA 2,9 2,8
869º Meg Whitman – EUA 2 1,9
988º Chu Lam You – Hong Kong 1,8 1,9
1092º Denise Coates – Grã-Bretanha 1,6
1210º Lei Jufang – China 1,4 1,13
1372º Xiu Li Hawken – Grã-Bretanha 1,2 1,5
1540º Sheryl Sandberg – EUA 1,05
1540º Cheung Yan – China 1,05 1,1
1540º Wang Laichun – China 1,05 0,86
1565º Tory Burch – EUA 1
1565º Elena Baturina – Rússia 1 1,1
1565º Sarah Blakely – EUA 1
1565 Liu Xiaomeng – Macau 1
1565º Lam Fong Ngo – China 1
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