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Fokker 100 fará seu último voo comercial no Brasil nesta terça

Avianca será responsável pela decolagem de despedida; modelo foi um dos protagonistas da aviação regional do país nos últimos vinte anos

Por Bianca Alvarenga 24 nov 2015, 10h42

A aeronave mais usada nos voos regionais do Brasil durante os anos 90 faz sua despedida nesta terça-feira. O Fokker 28 MK-0100, chamado popularmente de Fokker 100 ou MK28, foi fabricado pela holandesa Fokker até 1997, quando a empresa faliu. O modelo é considerado um dos protagonistas da aviação regional do Brasil nos últimos vinte anos. As aeronaves chegaram a representar mais da metade da frota da TAM, no fim da década de 90, e metade da frota da Avianca (então Ocean Air), na década passada.

A Avianca fará nesta terça um voo simbólico de despedida da última aeronave do modelo que a empresa ainda possui, encerrando um ciclo de 25 anos de história do Fokker 100 no Brasil. O avião sairá de Congonhas, fará um voo curto nos arredores da capital paulista e voltará ao mesmo aeroporto. Até então, esse Fokker 100 era utilizado como modelo de reserva na ponte aérea Rio-São Paulo e na rota que liga o Rio de Janeiro a Brasília. Novos modelos da europeia Airbus, o A320, foram encomendados para substituir os oito Fokker-100 que foram desativados gradualmente pela Avianca desde o ano passado.

Até 1990, as companhias aéreas brasileiras operavam com pequenos aviões turboélice em voos de curta distância e em aeroportos com pista de extensão reduzida, caso de Congonhas, em São Paulo, e do Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Na época, as grandes aeronaves eram direcionadas aos aeroportos maiores, por questões de segurança. O Fokker 100 mostrou-se promissor por quebrar as barreiras tecnológicas então existentes. Além de conseguir aterrissar e decolar em pistas relativamente pequenas, ele oferecia quase o dobro de assentos (em torno de 120 lugares) em relação às aeronaves de voos regionais e era mais simples de pilotar, principalmente por causa do glass cockpit, com a substituição dos relógios de painel por telas. O modelo foi batizado de águia holandesa, por suas qualidades de voo.

A TAM chegou a ter 50 aeronaves Fokker 100, o que fez dela na época a dona da segunda maior frota dessa aeronave no mundo, perdendo somente para a American Airlines, com 75 aviões. A estratégia de aposta em voos regionais foi o principal fator responsável pelo crescimento da TAM no Brasil nos anos 90. Com isso, o Fokker 100 foi considerada a melhor escolha de custo-benefício para o avanço da companhia aérea.

“Havia uma demanda crescente nas rotas regionais, mas as aeronaves existentes ofereciam entre 50 e 80 lugares somente. O Fokker 100 foi o responsável por aumentar a oferta de assentos e por fortalecer rotas estratégicas, como entre Congonhas e Brasília. Foi por causa dele que a TAM deixou de ser uma companhia regional para se tornar uma companhia internacional”, diz Ruy Amparo, vice-presidente de operações e manutenção da TAM. Ainda comandada pelo comandante Rolim Amaro, há mais de duas décadas, a TAM resolveu adotar a arriscada estratégia de adquirir aeronaves que até então nunca haviam voado no Brasil, em meio ao cenário de instabilidade cambial. A aposta era a de fortalecer o aeroporto de Congonhas, forte em rotas de negócios.

Acidentes abalam hegemonia – A hegemonia da aeronave na TAM foi abalada por um trágico acidente no dia 31 de outubro de 1996. Um Fokker 100 partiu do aeroporto de Congonhas em uma quinta-feira pela manhã e caiu menos de dois quilômetros depois, no bairro do Jabaquara, matando 99 pessoas (incluindo passageiros, tripulantes e pessoas que estavam em solo). Foi o pior acidente de um Fokker 100 registrado na história. As investigações apontaram que houve uma falha mecânica, seguida por erro humano. Nove meses depois, a explosão de uma bomba na traseira de outro Fokker 100 abriu um buraco na fuselagem, que sugou um passageiro para fora e causou uma morte.

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Em 1999, um acidente causado pelo desprendimento de uma peça da turbina vitimou outra passageira. Além dessas três ocorrências, o Fokker registrou outros quatro incidentes no Brasil, todos sem mortes. No mundo, houve 34 acidentes com esse modelo de aeronave, dos quais sete com vítimas fatais. Segundo especialistas, esse é um número baixo para um avião tão utilizado. Quando a demanda nas rotas do Fokker 100 voltou a crescer, a TAM começou a substituí-los gradualmente por modelos da Airbus. A companhia voou pela última vez com a aeronave holandesa no fim de 2007.

A Ocean Air (hoje Avianca) tomou o caminho contrário e, em 2006, comprou catorze Fokker 100 que pertenciam à American Airlines. Os aviões, que já tinham sido utilizados pela companhia americana, foram rebatizados de MK28, para tentar desvinculá-las do estigma de aeronave vulnerável a acidentes. O histórico do MK 28 na Avianca é positivo: foram 230.000 horas de voo, transportando mais de 12 milhões de passageiros, sem acidentes com vítimas. A incorporação das aeronaves contribuiu para a padronização da frota, o que reduziu os custos de manutenção e com treinamento. Os pilotos recebiam um curso único, nos Estados Unidos, oferecido pela antiga dona dos aviões. Foi o primeiro passo do processo de reestruturação da Ocean Air, cujo objetivo era reequilibrar as contas e melhorar o serviço a bordo.

Em 2012, a Avianca decidiu aposentar as aeronaves, mas o projeto só começou a sair do papel no ano passado. “A demanda crescente impediu que fizéssemos isso antes. Embora o Fokker 100 tenha sido muito importante para o nosso crescimento, a operação deixou de ser competitiva”, diz José Efromovich, presidente da Avianca. A empresa fez a opção pelo A320, da Airbus, para substituir o MK28. O plano de renovação de frota da Avianca prevê o uso de 41 aeronaves desse modelo, que é considerado mais moderno por especialistas: ele é capaz de transportar de 150 a 180 passageiros, de acordo com a configuração de assentos escolhida, e gasta menos combustível do que o MK28.

Dos 283 exemplares do Fokker 100 produzidos desde que o modelo foi lançado, no fim dos anos 80, cerca de 150 continuam em atividade, em mais de 30 companhias aéreas no mundo. Com a despedida da última aeronave da Avianca, nenhum outro Fokker 100 sobrevoará o Brasil em voos regulares. A Avianca está negociando a venda de seis aviões que desativou no último ano, mas não revela quem é o possível comprador. Caso seja uma companhia aérea da América Latina, é possível que a águia holandesa tenha a chance de uma sobrevida no Brasil.

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