Fofinhos e lucrativos: Pets movimentam um negócio de R$ 78 bilhões no Brasil
Purina e outras empresas investem em alimentos, saúde e serviços para disputar um setor em expansão
Eles não trabalham, não pagam boletos e nunca se oferecem para dividir as despesas da casa. Ainda assim, os 63 milhões de cães e 33 milhões de gatos do Brasil impulsionam um mercado que já movimenta mais de 78 bilhões de reais por ano. Segundo a Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação (Abempet), a população somada de cães e gatos equivale a cerca de três vezes a de crianças de até 12 anos no país. Com muita gente disposta a agradar aos bichos, o setor deixou para trás a velha dobradinha formada por ração e consultas veterinárias. Hoje, seu cardápio inclui alimentos mais sofisticados, remédios, planos de saúde, seguros, tratamentos estéticos e soluções voltadas à longevidade. A mudança também alterou a maneira como as empresas disputam o dinheiro dos tutores. Em vez de depender apenas da venda de itens básicos, elas ampliam o portfólio para atender às necessidades cada vez mais específicas e conquistar uma fatia maior do orçamento familiar. No universo pet, porém, há uma peculiaridade: quem manifesta a necessidade não escolhe o produto nem passa o cartão. Cães e gatos obviamente não decidem qual ração comprar ou quanto desembolsar em uma consulta, mas aprenderam como poucos a convencer seus tutores de que merecem sempre o melhor.
O interesse das empresas não decorre apenas do número de animais. Alimentação, higiene e medicamentos são despesas permanentes, às quais se somam consultas, exames e outros serviços ao longo de toda a vida do pet. Para as empresas, isso representa uma demanda contínua, pouco dependente de compras ocasionais, e a possibilidade de ampliar a receita com produtos mais caros e atendimentos especializados. O setor, por isso, atrai investimentos em fábricas, automação, tecnologia e redes de atendimento. Como se não bastasse, a indústria brasileira também se prepara para abastecer outros países. “Estamos ampliando a capacidade, incorporando tecnologia, adotando digitalização e preparando a operação brasileira para acompanhar o crescimento dessa indústria e, cada vez mais, atender também outros mercados a partir daqui”, afirma Rodrigo Maingue, diretor-executivo no Brasil da Nestlé Purina, a divisão de alimentos para cães e gatos do grupo suíço Nestlé.
A variedade de produtos ajuda a explicar o interesse da companhia pelo mercado brasileiro. O portfólio vai de marcas populares, como Dog Chow, Cat Chow, Friskies e Felix, a linhas de maior valor agregado, como Pro Plan, que oferece fórmulas voltadas a diferentes idades, portes e necessidades de saúde. A antiga escolha entre comprar uma ração mais barata ou mais cara deu lugar a uma prateleira muito mais segmentada, com alimentos secos e úmidos desenvolvidos para filhotes, animais idosos, controle de peso, sensibilidades digestivas e outras condições particulares de cada bicho. Para a indústria, cada nova categoria abre uma oportunidade de elevar o valor das vendas e acompanhar o animal durante diferentes fases da vida.
A ambição de transformar o Brasil em uma base de produção para outros países já ganha forma no chão de fábrica da empresa. Na unidade da Nestlé Purina em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, visitada por VEJA NEGÓCIOS, os ingredientes percorrem uma operação altamente automatizada até se transformarem em alimentos para cães e gatos. A fábrica produz mais de 170 000 toneladas por ano, abastece o mercado brasileiro e outros dez países e recebe 50 milhões de reais em investimentos anuais. Os aportes somaram 830 milhões nos últimos anos. De 2017 a 2021, foram destinados 700 milhões de reais à unidade. De 2022 em diante, outros 130 milhões de reais financiaram uma nova linha automatizada de alimentos secos. Os recursos não servem apenas para ampliar as instalações. A empresa incorpora equipamentos e sistemas para elevar a eficiência, aumentar a capacidade e produzir diferentes formulações de acordo com as necessidades de cada mercado. Quanto maior a variedade de produtos e destinos, mais flexível precisa ser a operação para acompanhar as mudanças da demanda.
Profissionais do setor também farejam oportunidades quando o assunto é a saúde dos bichinhos. O avanço da medicina veterinária, com novas especialidades, exames, cirurgias e tratamentos, ampliou o que pode ser oferecido aos animais e elevou o custo de atendimentos mais complexos. Ao mesmo tempo, os planos de saúde veterinários ainda alcançam apenas 1% da população pet brasileira, segundo estimativa do Grupo +Pet. A baixa penetração revela um segmento em que a maior parte das despesas continua sendo paga diretamente pelos tutores, criando espaço para modelos capazes de transformar contas imprevisíveis em pagamentos recorrentes. O +Pet reúne 35 000 clientes, mas pretende ampliar essa base em 50% até dezembro e multiplicá-la por oito até 2030. A estratégia combina planos de saúde com uma rede própria de clínicas, hospitais e outros serviços, permitindo à companhia atuar em diferentes etapas do cuidado e capturar uma parcela maior desse gasto. “O pet passou a ocupar outro lugar dentro da família e a medicina veterinária teve de evoluir para acompanhar a mudança”, diz Pablo Teixeira, presidente do Grupo +Pet.
O amadurecimento do mercado também acelera o movimento de concentração no setor. O Grupo Petz Cobasi, formado pela combinação das duas companhias, concluída em janeiro deste ano, atende 6,8 milhões de clientes únicos e vem ampliando sua atuação para além da venda de rações e acessórios. São 159 clínicas e consultórios, quinze hospitais e 320 centros de estética, em uma estrutura que combina varejo, serviços e canais digitais. No primeiro trimestre de 2026, o grupo chegou a quase 1 milhão de assinantes, alta de 10% em relação ao mesmo período do ano anterior. Os resultados mais recentes mostram o tamanho do negócio: no segundo trimestre, a receita líquida alcançou 1,7 bilhão de reais, avanço de 8%, enquanto o lucro líquido ajustado aumentou 8%, para 70 milhões de reais. Com a fusão, o grupo estima gerar até 260 milhões de reais por ano em ganhos de eficiência com a integração das duas empresas, principalmente pela redução de custos e pelo compartilhamento de estruturas e operações. “A combinação das duas companhias amplia nossa capacidade de atender o tutor em diferentes momentos, integrando produtos e serviços e criando uma operação mais completa”, afirma Rafael Siqueira, diretor do Grupo Petz Cobasi.
A próxima fronteira do mercado pet brasileiro está no exterior. As exportações avançaram 12% em 2025 e alcançaram 650 milhões de dólares, impulsionadas pela abertura de destinos como o México. Além de reduzir a dependência do consumo doméstico, as vendas internacionais permitem às empresas aproveitar melhor a capacidade das fábricas e diluir custos fixos. A América Latina aparece como caminho natural devido à proximidade geográfica e às facilidades de distribuição. Números superlativos como esses mostram a transformação de um setor que, até pouco tempo atrás, se concentrava em produtos básicos e no atendimento local, mas agora reúne indústria, varejo, medicina veterinária, seguros e tecnologia. Conquistar espaço no exterior será um osso duro de roer, mas as empresas brasileiras já começaram a mostrar as garras.
Publicado em VEJA, setembro de 2026, edição VEJA Negócios nº 30







