FGV mostra forte alta da inflação ao produtor e tendência de piora em meio à guerra no Irã
Pressão sobre matérias-primas e combustíveis contamina preços ao consumidor, enquanto efeitos da guerra ainda não foram totalmente repassados
A Fundação Getulio Vargas (FGV) apontou uma aceleração expressiva da inflação ao produtor até o início de abril, em um cenário marcado pelos efeitos da guerra no Oriente Médio. O Índice Geral de Preços 10 (IGP-10) — que é composto pela inflação ao produtor, ao consumidor e para o setor de construção — subiu 2,94% no mês, revertendo a queda de 0,24% observada em março. Com o resultado, o indicador acumula alta de 2,57% no ano.
O principal vetor da alta foi o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), que avançou 3,81% no período, após recuo de 0,39% no mês anterior. Parte desse movimento foi diretamente associada ao cenário internacional. “A expressiva alta nos preços ao produtor decorre dos desdobramentos da guerra no Oriente Médio”, diz o economista do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) da FGV, Matheus Dias.
Dias avalia que o processo inflacionário ainda não se esgotou. “Ainda não temos um repasse completo de todos os efeitos da guerra”, disse. “Os efeitos (da guerra) ainda estão em curso. A expectativa é que tenhamos uma aceleração (da inflação) nos próximos meses, tanto para preços ao produtor quanto ao consumidor”.
Segundo Dias, o choque não se limita ao setor energético. “Seus efeitos extrapolam os derivados de petróleo e atingem insumos relevantes de diversos setores, como o ácido sulfúrico e os adubos ou fertilizantes”, disse. Esses itens tiveram aumentos expressivos em abril, de 29% e 6,8%, respectivamente, ampliando a pressão sobre custos industriais e agrícolas.
Entre os itens que mais pressionaram positivamente o IPA, destacam-se leite in natura (com inflação de 6,40%), adubos ou fertilizantes (6,88%), ovos (12,40%), minério de ferro (3,21%) e bovinos (2,99%). O conjunto evidencia tanto o impacto do cenário externo quanto fatores domésticos, especialmente ligados à agropecuária.
Preços ao consumidor
No varejo, a inflação ao consumidor também ganhou força. O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) subiu 0,88% em abril, após variação de 0,03% em março, com alta disseminada em sete das oito classes de despesa, especialmente transportes e alimentação.
Os principais impactos no IPC vieram de gasolina (6,38%), tomate (21,99%), leite longa vida (8,10%), serviços bancários (1,73%) e tarifa de eletricidade residencial (0,85%). Os preços ao consumidor, acompanhando a tendência observada no IPA e também foram impactados pelo conflito, com destaque para a gasolina como principal influência.
Inflação da construção
Em abril, o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) avançou 0,88%, acima dos 0,29% de março, com aceleração do grupo de materiais e equipamentos (de 0,28% para 0,98%) e dos serviços (de 0,25% para 0,83%). Para a FGV, o cenário sugere continuidade das pressões inflacionárias no curto prazo, sobretudo enquanto persistirem as tensões geopolíticas e seus impactos sobre cadeias globais.






