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Fed se tornou um grande hedge fund, diz Nobel da Economia

Thomas Sargent, PhD em Harvard e ganhador do Nobel em 2011, afirma que banco central teve sua função alterada após o início dos estímulos

Por Ana Clara Costa 30 ago 2013, 16h07

A política de estímulos desenhada pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) para resgatar a economia dos Estados Unidos do buraco ainda não se provou efetiva – e, além disso, transformou o Fed num imenso hedge fund. A afirmação foi feita pelo vencedor do Nobel de Economia Thomas Sargent, PhD em Harvard e professor da Universidade de Nova York.

Segundo Sargent, o fato de o banco central americano atuar no mercado financeiro comprando títulos de bancos como forma de injetar liquidez nas instituições e, assim, estimular o crédito, o transforma num fundo de investimentos. Os hedge funds são fundos que investem em ativos de risco e atuam no mercado de derivativos. “Antes, a atuação do Fed era muito limitada, quase que essencialmente regulatória. Agora, ele imprime dinheiro para comprar ativos arriscados. Quem faz isso são os hedge funds. O Fed é, hoje, o maior hedge fund dos Estados Unidos”, afirmou Sargent ao site de VEJA durante o 6˚ Congresso de Mercados Financeiro e de Capitais da BM&FBovespa.

Para o economista, que tem uma opinião cética em relação aos efeitos positivos da política de estímulos aplicada nos EUA, ainda não se pode afirmar que o crescimento da economia americana em 2013 se deve ao sucesso do programa de compra de títulos. “Eu simplesmente não sei se o crescimento se deve a isso. E creio que ninguém deve saber ao certo, ainda”, afirmou. O banco central americano injeta mensalmente 85 bilhões de dólares na economia por meio da compra de papéis no mercado financeiro. “O Fed está comprando ativos que ninguém mais está comprando e ainda afirma que não é arriscado”, diz Sargent, com certo ar de indignação.

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Uma mudança de cadeiras na autoridade monetária americana deve acontecer em breve – o anuncio do novo nome deverá ser feito pelo presidente Barack Obama ainda em setembro. Mas Sargent, que ganhou o Nobel pelas pesquisas que desenvolveu sobre causa e efeito na Macroeconomia, acredita que, independentemente do novo chefe do órgão, pouca coisa mudará. “Uma vez, perguntaram a mesma coisa a Milton Friedman (economista que aconselhou diversos presidentes dos EUA e ganhador do Nobel). Ele disse que para qualquer um que entrasse, pouca coisa mudaria. Fico com a mesma resposta”, afirma o economista.

Uma das mudanças esperadas por alguns economistas americanos para o novo presidente do Fed é uma maior preocupação em retomar o nível de emprego. Em entrevista ao site de VEJA, o professor de Harvard, Kenneth Rogoff, disse que o próximo chefe do banco central deveria se preocupar mais com o mercado de trabalho do que com a inflação. Nos Estados Unidos, diferentemente do Brasil, a autoridade monetária também acompanha o desenvolvimento do nível de emprego. Contudo, Sargent se mostrou pessimista quanto a uma possível mudança. “A função do Fed é olhar para o emprego, mas ele sempre olhou apenas para a inflação. (Alan) Greenspan (chairman do Fed antes de Ben Bernanke) sempre dizia em seus discursos no Congresso que a inflação sob controle dava segurança ao empresariado e, com isso, o setor podia investir mais e criar mais vagas. Mas isso é demagogia. A inflação sempre foi a única preocupação”.

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