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Família Diniz deixa o controle do Pão de Açúcar após 65 anos

Abilio Diniz e Jean-Charles Naouri, presidente do Casino, assinaram um contrato que põe fim à turbulenta parceria. A decisão encerra um longo período de disputa societária entre os empresários brasileiro e francês

Por Ana Clara Costa 6 set 2013, 19h05

O empresário Abilio Diniz e o francês Jean-Charles Naouri, presidente do Casino, colocaram um ponto final na disputa pelo controle do Grupo Pão de Açúcar (GPA). Nesta sexta-feira, Diniz comunicou o seu afastamento da presidência do Conselho de Administração da rede varejista fundada por seu pai, Valentim Diniz, como antecipou a coluna do site de VEJA Radar on-line.

A disputa societária mais ruidosa dos últimos anos no Brasil não terminou com um aperto de mãos e uma garrafa de vinho francês. Após uma longa troca de acusações, Diniz e Naouri só se encontraram no escritório de advocacia para assinar os papéis e encerrar a parceria. O desfecho foi costurado em poucos meses pelos negociadores David de Rothschild (herdeiro da família de banqueiros franceses) e William Ury, da Harvard Business School. Foi o fim oficial de uma era – a dissociação do nome Diniz do Pão de Açúcar. Todos os sorrisos (ou a falta deles) ficaram restritos às quatro paredes. “Graças a Deus, tudo o que faço, procuro fazer com elegância”, cutucou Abilio.

“Esse é um momento importante na história de negócios no Brasil, sendo que há exatamente 65 anos, em 7 de setembro de 1948, a família Diniz fundava o Grupo Pão de Açúcar, a maior empresa de distribuição do Brasil”, divulgou a empresa por meio de nota enviada à imprensa.

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Pelo acordo, todos os processos abertos contra Abilio nas cortes de arbitragem foram encerrados. A cláusula de não competição, que impedia o empresário de trabalhar em outras redes varejistas, também foi retirada. O filho do fundador do Pão de Açúcar continuará como acionista minoritário da empresa, mas suas ações ordinárias (que dão direito a voto no Conselho) serão convertidas em preferenciais (sem direito a voto). Toda a transação foi feita por meio da Wilkes, a holding criada pelo Casino e pelos Diniz para controlar o Pão de Açúcar. O Casino detém 65,6% das ações com direito a voto do GPA. Abilio é acionista minoritário, com 5% de ações preferenciais do GPA, mas com participação de 48% em ações ordinárias da Wilkes. É essa fatia que será convertida em preferencial. O acordo de acionistas firmado com o Casino em 2006 também previa que, independentemente da participação acionária, o empresário brasileiro se manteria sempre como presidente do conselho do GPA. Agora, tal cláusula perde a validade.

Naouri esbravejou quando Abilio decidiu, com o apoio do fundo Tarpon, entrar no controle da BRF, justamente porque ele acumularia a função de presidente do conselho das duas empresas. Agora, isso deixa de ser um problema para o francês, já que ele assumirá o Conselho de Administração, como sócio majoritário. “O acordo assinado com o senhor Abilio Diniz é bom para todas as partes; é um bom acordo para o Grupo Casino, para o senhor Abilio Diniz e, especialmente, para o Grupo Pão de Açúcar”, assina Naouri em comunicado oficial.

Abilio Diniz contou que há cerca de dois anos decidiu que não queria mais ser sócio de Naouri. Daquele momento até a assinatura do fim da sociedade nesta sexta-feira, ele tentou de tudo para se manter no comando e afastar o francês – inclusive um acordo com o grupo Carrefour, que manteria Abilio como sócio controlador. O presidente do Casino contra-atacou: depois de negar uma associação com o Carrefour, seu maior concorrente na França, e processar Abilio na Câmara Internacional de Arbitragem, o francês passou a comprar milhares de ações doa empresa varejista diretamente no mercado, aumentando sua munição societária para as disputas com o brasileiro. Nesse longo e lento processo, Diniz percebeu que para se afastar de Naouri teria que sair da empresa fundada por seu pai. Teria se arrependido de alguma passagem? “Não me arrependo de nada. Não tenho do que me arrepender. A gente tem que fazer o que a gente quer, e eu fiz”, respondeu.

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Desde que entrou na presidência do Conselho da BRF, Abilio tem chacoalhado o dia-a-dia da companhia – inclusive com a nomeação de seu braço-direito Claudio Galeazzi como diretor-presidente. O desafio é fazer da processadora de alimentos um gigante global. Segundo o empresário, seus planos para o futuro giram em torno da palavra “liberdade”. Como não está mais sujeito à cláusula de não competição, poderá, se quiser, abrir ou comprar uma nova rede de varejo – possibilidade que negou, por enquanto. “Não vou comprar outra rede. Mas quero estudar outros investimentos com a Tarpon”, afirmou. Aos 76 anos, Abilio se diz pronto para recomeçar: “É a vida. É preciso ter sabedoria para aceitar as mudanças. E é isso que estou fazendo”.

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