Falha de gás na Alunorte expõe desafio da New Fortress para avançar no LRCAP
Hydro corta produção pela metade e procura fornecedores alternativos enquanto operação brasileira da NFE passa às mãos de credores e precisa construir uma cadeia própria de suprimento de GNL
A interrupção no fornecimento de gás que levou a Hydro a reduzir pela metade a produção da Alunorte, no Pará, abre uma nova frente de atenção sobre os projetos de geração de energia ligados à New Fortress Energy no Brasil. A CELBA, apontada pela própria Hydro como parte do grupo americano e responsável pelo abastecimento da metalúrgica, também aparece com a térmica Novo Tempo Barcarena II entre os projetos selecionados na fase de lances do Leilão de Reserva de Capacidade, o LRCAP-2026. A usina ofertou 100,9 MW de disponibilidade para começar a fornecer capacidade ao sistema em 2029. Outra empresa integralmente adquirida pela NFE, a UTE Lins, colocou mais 701,5 MW no produto de 2031.
O problema em Barcarena não caiu do céu. Em seu balanço trimestral protocolado na SEC na última quinta-feira, 6, a NFE revelou que a relação entre CELBA e Alunorte já vinha sob tensão havia mais de um ano. A Hydro abriu em 2025 uma arbitragem na Câmara de Comércio Internacional cobrando até R$ 375,7 milhões por supostos atrasos anteriores no fornecimento de gás — alegações contestadas pela NFE. Desde meados do ano passado, as duas empresas também discutem mudanças no contrato de fornecimento. Em 22 de julho, a Alunorte chegou a recorrer à Justiça de São Paulo para tentar garantir judicialmente o cumprimento do acordo e obter multas preventivas em caso de futuras falhas de entrega. O pedido foi negado.
A sequência dos fatos é especialmente relevante. No documento entregue ao mercado em 6 de agosto, a NFE dizia que CELBA e Hydro continuavam negociando o fornecimento e afirmava que, até então, não havia ocorrido descumprimento do contrato. Ao mesmo tempo, porém, alertava que uma eventual falha futura de entrega poderia obrigar a CELBA a fazer pagamentos materiais à Alunorte e prejudicar a liquidez do negócio brasileiro. Cinco dias depois, a Hydro informou que havia sido comunicada pela CELBA sobre interrupções na disponibilidade de gás, cortou a produção da refinaria a 50%, passou a comprar volumes no mercado spot e pediu acesso direto ao terminal de GNL de Barcarena. A norueguesa também começou a buscar alternativas de fornecimento de longo prazo e estima impacto de US$ 75 milhões a US$ 100 milhões apenas no terceiro trimestre. Isso não significa, por si só, que tenha ocorrido formalmente um inadimplemento do contrato, mas materializa justamente o risco operacional que a NFE acabara de descrever aos investidores.
O pano de fundo é a profunda reestruturação da New Fortress. A companhia reconheceu no último balanço existir “dúvida substancial” sobre sua capacidade de continuar operando normalmente, em razão de eventos de default em diferentes dívidas, entre eles pagamentos de juros não realizados. Em março, NFE e credores fecharam um acordo de reestruturação; os planos foram sancionados pela Justiça britânica em junho e reconhecidos pela Justiça americana em um processo de Chapter 15. Se tudo correr como previsto, a reorganização será concluída no terceiro trimestre. Se fracassar, a própria NFE afirma que poderá ser obrigada a recorrer a alternativas de reestruturação judicial.
É aqui que entra o Brasil. A saída desenhada pela NFE prevê separar os ativos brasileiros em uma plataforma independente, a BrazilCo. Pelo acordo, credores receberão 100% do capital da NFE Brazil Holdings, controladora do negócio no país, e a New Fortress deixará de ser dona de ativos como o terminal e a usina de Barcarena, o Terminal Gás Sul, em Santa Catarina, e o projeto PortoCem. A companhia já dizia em março que obter suprimento próprio de gás e suporte de navios para a nova BrazilCo era uma de suas principais prioridades; enquanto a separação não fosse concluída, o combustível continuaria vindo da estrutura da própria NFE. Em junho, a operação brasileira emitiu US$ 973,5 milhões em títulos garantidos pelos ativos, com juros de 12% ao ano, dos quais cerca de US$ 477 milhões seriam destinados a refinanciar dívidas e o restante a operação, investimentos, capital de giro e outras necessidades.
O contrato dessa nova dívida mostra como a reestruturação chegou até a compra de combustível. A CELBA que fornece gás à Alunorte é expressamente identificada no documento como “CELBA I”, e o próprio acordo da Hydro aparece entre os contratos relevantes. O instrumento estabelece condições de preço para determinados contratos de LNG com empresas ligadas à NFE e prevê que, fora das exceções estabelecidas, a CELBA não poderá fechar novos contratos de compra e venda de gás sem consentimento prévio dos detentores da dívida. Depois da conclusão da reestruturação, determinadas compras de LNG de partes relacionadas dependerão também da aprovação do conselho e dos credores. Não há evidência de que essas travas tenham provocado a atual interrupção de suprimento. Elas mostram, porém, que a recomposição dos volumes de gás ocorre em uma operação altamente financeirizada e submetida a regras negociadas com os novos financiadores.
É essa combinação que faz o episódio da Alunorte transbordar para o LRCAP. O resultado da CCEE coloca o Novo Tempo Barcarena II, da CELBA, com 100,9 MW de disponibilidade no produto de 2029. A UTE Lins 2, cuja dona foi integralmente adquirida pela NFE em 2024 e deverá ser abastecida pelo terminal de Santa Catarina, aparece com outros 701,5 MW no produto de 2031. O resultado ainda é provisório: em sua última atualização oficial localizada, em 28 de julho, a Aneel havia homologado apenas parcialmente o leilão e informava que os demais empreendimentos selecionados na fase de lances ainda passavam pelo processo de habilitação.
Há ainda uma diferença importante entre vender gás para um cliente industrial e assumir uma obrigação de capacidade perante o sistema elétrico. O edital do LRCAP deixa o risco de combustível com o gerador: depois de iniciado o período de suprimento, a falta de combustível — inclusive por indisponibilidade da infraestrutura de transporte e suas conexões — não serve como excludente de responsabilidade para evitar penalidades ou até as hipóteses de resolução do contrato. Novo Tempo Barcarena II só precisará entregar em 2029 e Lins 2, em 2031, portanto existe tempo para reorganizar contratos, fornecedores e logística. Mas a incapacidade atual de garantir todo o gás necessário a um cliente âncora de Barcarena surge justamente quando a futura BrazilCo precisa provar que consegue construir uma cadeia de LNG independente da NFE e avançar com seus projetos de geração. A questão não é afirmar que as térmicas não conseguirão entregar. É perguntar, agora com um problema concreto sobre a mesa, como será garantido o combustível para que entreguem.







