Ex-chefe do Deutsche Bank confessa desvio de US$ 730 mil de clientes ricos
Caso expõe falhas nos controles internos do maior banco da Alemanha, que foi alvo de três operações de busca em 2026
Um ex-gerente do Deutsche Bank em Frankfurt confessou nesta terça-feira, 25, ter desviado mais de 690 mil euros (3,77 milhões de reais) das contas de cerca de seis clientes ricos durante aproximadamente um ano e meio.
Sven R., de 39 anos, aproveitou-se de procedimentos internos do banco para autorizar transferências em nome dos correntistas e enviar o dinheiro para contas que estavam sob seu controle.
O caso ganhou atenção na Alemanha porque o esquema não dependia de uma invasão aos sistemas do banco. O funcionário, que ocupava uma posição de chefia na área de clientes privados, explorou a confiança dos colegas e brechas nos mecanismos de confirmação das operações.
Segundo o Handelsblatt, que havia revelado em julho que a filial do Deutsche Bank em Frankfurt havia sido alvo de uma busca, o ex-funcionário era suspeito de ter desviado cerca de 630 mil euros.
A investigação levou à operação realizada na agência da Taunusanlage, em Frankfurt, antes do início do julgamento.
Como o dinheiro foi desviado
O esquema começou no fim de 2023. O banqueiro escolhia clientes com patrimônio elevado porque acreditava que eles demorariam mais para perceber transferências relativamente pequenas em relação ao tamanho de suas contas.
As operações individuais chegaram a cerca de 95 mil dólares (493 mil reais).
Quando um cliente percebia o desaparecimento do dinheiro, o funcionário devolvia a quantia e atribuía o problema a um suposto erro interno. Para fazer isso, recorria a recursos retirados de outras contas, até perder o controle da operação.
Ele também manipulava e-mails enviados por clientes para fazer parecer que haviam autorizado as transferências. Pelas regras do Deutsche Bank, operações acima de determinado valor exigiam a aprovação de dois funcionários.
Na prática, segundo o depoimento, os controles eram menos rigorosos.
Funcionários que trabalhavam havia anos com ele confiavam em suas informações e, em alguns casos, não telefonavam diretamente para o cliente para confirmar a ordem.
O dinheiro era transferido para contas de familiares que estavam sob seu controle.
O objetivo era investir os recursos em operações com derivativos e obter rapidamente ganhos suficientes para devolver o dinheiro. A estratégia fracassou e ele perdeu a maior parte dos valores.
O acusado disse que havia perdido cerca de 58 mil dólares (301 mil reais) das economias da família em apostas financeiras antes de começar o esquema. Também enfrentava despesas relacionadas à reforma da casa e ao nascimento do terceiro filho.
O Deutsche Bank demitiu o funcionário, informou os clientes afetados e afirmou ter ressarcido integralmente as perdas.
Depois da descoberta, o banco reforçou os controles e os procedimentos contra fraudes em sua rede de atendimento na Alemanha.
Três buscas em um único ano
O episódio seria apenas mais um caso de fraude interna em uma grande instituição financeira se não ocorresse em um momento particularmente incômodo para o Deutsche Bank.
A operação de julho foi a segunda busca em instalações do banco em 2026.
Menos de uma semana depois, em 22 de julho, procuradores alemães voltaram à sede do banco em Frankfurt, desta vez em uma investigação relacionada a operações financeiras da Postbank entre 2008 e 2010.
A investigação mais recente envolve transações com ações realizadas em torno das datas de pagamento de dividendos que, segundo as autoridades, podem ter sido usadas para reduzir ou evitar impostos.
O Deutsche Bank afirma que, nesse caso, está sendo investigado como terceiro, e que os fatos dizem respeito a atividades realizadas pela Postbank antes de sua integração completa ao grupo. A instituição diz colaborar com as autoridades.
A investigação é particularmente sensível porque a Alemanha tenta recuperar bilhões de euros associados a operações fiscais.
O regulador financeiro BaFin identificou recentemente 54 bancos que podem ter participado de operações cum-cum, com um potencial impacto financeiro superior a 4 bilhões de euros para as instituições envolvidas.
Suspeitas de lavagem de dinheiro
A primeira grande operação contra o Deutsche Bank neste ano ocorreu em janeiro.
Procuradores e agentes do Departamento Federal de Investigação Criminal da Alemanha, o BKA, fizeram buscas na sede do banco em Frankfurt e em escritórios em Berlim como parte de uma investigação sobre possíveis falhas nos controles contra lavagem de dinheiro.
Segundo informações divulgadas pela Süddeutsche Zeitung e pelo Die Zeit, a investigação envolve transações realizadas entre 2013 e 2018 e estaria relacionada a empresas ligadas ao bilionário russo Roman Abramovich, que é alvo de sanções da União Europeia desde 2022.
As autoridades investigam se o banco demorou a comunicar operações suspeitas às autoridades.
O Deutsche Bank afirmou que coopera integralmente com os investigadores.
A sequência chama atenção porque os três casos têm naturezas diferentes, mas todos acabam chegando ao mesmo ponto: os mecanismos de controle e compliance do maior banco da Alemanha.
O fantasma de Jeffrey Epstein
Outro episódio que voltou ao noticiário alemão neste ano envolve o relacionamento do Deutsche Bank com Jeffrey Epstein.
O banco manteve Epstein como cliente entre 2013 e 2018, apesar de ele já ter sido condenado por crime sexual.
Documentos divulgados nos Estados Unidos em 2026 trouxeram novos detalhes sobre a relação e reacenderam as críticas à decisão de manter o empresário no private banking da instituição.
A imprensa alemã voltou a examinar o caso, inclusive os valores que Epstein mantinha no banco e as transações realizadas por suas contas.
O Deutsche Bank já havia reconhecido que foi um erro manter a relação comercial e, em 2020, recebeu uma multa de 150 milhões de dólares ( 903 milhões de reais) do regulador financeiro de Nova York por falhas nos controles relacionados ao cliente.
O episódio é especialmente relevante para o caso atual porque o escândalo Epstein também envolveu questionamentos sobre a capacidade do Deutsche Bank de identificar operações suspeitas e aplicar corretamente seus próprios procedimentos de controle.
Um banco lucrativo, mas pressionado pelo passado
A sequência de problemas contrasta com a situação financeira atual do Deutsche Bank.
O banco registrou lucro após impostos de 1,9 bilhão (11 bilhões de reais) no segundo trimestre de 2026, alta de 10% em relação ao mesmo período do ano anterior.
No primeiro semestre, o lucro após impostos chegou a 4,1 bilhões de euros (25 bilhões de reais), um recorde para o período.
O desempenho reforça a transformação promovida pelo presidente-executivo Christian Sewing, que desde 2018 tenta recuperar a rentabilidade e reduzir a exposição do banco aos problemas que marcaram sua história recente.
Mas a sucessão de investigações mostra que parte desse passado ainda não desapareceu.
A busca relacionada à Postbank, a investigação sobre possíveis falhas de combate à lavagem de dinheiro, o caso Epstein e agora uma fraude cometida por um funcionário contra clientes ricos são episódios diferentes e não há evidência de que estejam relacionados entre si.






