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Ex-chefe do Deutsche Bank confessa desvio de US$ 730 mil de clientes ricos

Caso expõe falhas nos controles internos do maior banco da Alemanha, que foi alvo de três operações de busca em 2026

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 25 ago 2026, 13h02 | Atualizado em 25 ago 2026, 13h18
Ex-chefe do Deutsche Bank confessa desvio de US$ 730 mil de clientes ricos Priorizar nos meus resultados Google

Um ex-gerente do Deutsche Bank em Frankfurt confessou nesta terça-feira, 25, ter desviado mais de 690 mil euros (3,77 milhões de reais) das contas de cerca de seis clientes ricos durante aproximadamente um ano e meio.

Sven R., de 39 anos, aproveitou-se de procedimentos internos do banco para autorizar transferências em nome dos correntistas e enviar o dinheiro para contas que estavam sob seu controle.

O caso ganhou atenção na Alemanha porque o esquema não dependia de uma invasão aos sistemas do banco. O funcionário, que ocupava uma posição de chefia na área de clientes privados, explorou a confiança dos colegas e brechas nos mecanismos de confirmação das operações.

Segundo o Handelsblatt, que havia revelado em julho que a filial do Deutsche Bank em Frankfurt havia sido alvo de uma busca, o ex-funcionário era suspeito de ter desviado cerca de 630 mil euros.

A investigação levou à operação realizada na agência da Taunusanlage, em Frankfurt, antes do início do julgamento.

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Como o dinheiro foi desviado

O esquema começou no fim de 2023. O banqueiro escolhia clientes com patrimônio elevado porque acreditava que eles demorariam mais para perceber transferências relativamente pequenas em relação ao tamanho de suas contas.

As operações individuais chegaram a cerca de 95 mil dólares (493 mil reais).

Quando um cliente percebia o desaparecimento do dinheiro, o funcionário devolvia a quantia e atribuía o problema a um suposto erro interno. Para fazer isso, recorria a recursos retirados de outras contas, até perder o controle da operação.

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Ele também manipulava e-mails enviados por clientes para fazer parecer que haviam autorizado as transferências. Pelas regras do Deutsche Bank, operações acima de determinado valor exigiam a aprovação de dois funcionários.

Na prática, segundo o depoimento, os controles eram menos rigorosos.

Funcionários que trabalhavam havia anos com ele confiavam em suas informações e, em alguns casos, não telefonavam diretamente para o cliente para confirmar a ordem.

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O dinheiro era transferido para contas de familiares que estavam sob seu controle.

O objetivo era investir os recursos em operações com derivativos e obter rapidamente ganhos suficientes para devolver o dinheiro. A estratégia fracassou e ele perdeu a maior parte dos valores.

O acusado disse que havia perdido cerca de 58 mil dólares (301 mil reais) das economias da família em apostas financeiras antes de começar o esquema. Também enfrentava despesas relacionadas à reforma da casa e ao nascimento do terceiro filho.

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O Deutsche Bank demitiu o funcionário, informou os clientes afetados e afirmou ter ressarcido integralmente as perdas.

Depois da descoberta, o banco reforçou os controles e os procedimentos contra fraudes em sua rede de atendimento na Alemanha.

Três buscas em um único ano

O episódio seria apenas mais um caso de fraude interna em uma grande instituição financeira se não ocorresse em um momento particularmente incômodo para o Deutsche Bank.

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A operação de julho foi a segunda busca em instalações do banco em 2026.

Menos de uma semana depois, em 22 de julho, procuradores alemães voltaram à sede do banco em Frankfurt, desta vez em uma investigação relacionada a operações financeiras da Postbank entre 2008 e 2010.

A investigação mais recente envolve transações com ações realizadas em torno das datas de pagamento de dividendos que, segundo as autoridades, podem ter sido usadas para reduzir ou evitar impostos.

O Deutsche Bank afirma que, nesse caso, está sendo investigado como terceiro, e que os fatos dizem respeito a atividades realizadas pela Postbank antes de sua integração completa ao grupo. A instituição diz colaborar com as autoridades.

A investigação é particularmente sensível porque a Alemanha tenta recuperar bilhões de euros associados a operações fiscais.

O regulador financeiro BaFin identificou recentemente 54 bancos que podem ter participado de operações cum-cum, com um potencial impacto financeiro superior a 4 bilhões de euros para as instituições envolvidas.

Suspeitas de lavagem de dinheiro

A primeira grande operação contra o Deutsche Bank neste ano ocorreu em janeiro.

Procuradores e agentes do Departamento Federal de Investigação Criminal da Alemanha, o BKA, fizeram buscas na sede do banco em Frankfurt e em escritórios em Berlim como parte de uma investigação sobre possíveis falhas nos controles contra lavagem de dinheiro.

Segundo informações divulgadas pela Süddeutsche Zeitung e pelo Die Zeit, a investigação envolve transações realizadas entre 2013 e 2018 e estaria relacionada a empresas ligadas ao bilionário russo Roman Abramovich, que é alvo de sanções da União Europeia desde 2022.

As autoridades investigam se o banco demorou a comunicar operações suspeitas às autoridades.

O Deutsche Bank afirmou que coopera integralmente com os investigadores.

A sequência chama atenção porque os três casos têm naturezas diferentes, mas todos acabam chegando ao mesmo ponto: os mecanismos de controle e compliance do maior banco da Alemanha.

O fantasma de Jeffrey Epstein

Outro episódio que voltou ao noticiário alemão neste ano envolve o relacionamento do Deutsche Bank com Jeffrey Epstein.

O banco manteve Epstein como cliente entre 2013 e 2018, apesar de ele já ter sido condenado por crime sexual.

Documentos divulgados nos Estados Unidos em 2026 trouxeram novos detalhes sobre a relação e reacenderam as críticas à decisão de manter o empresário no private banking da instituição.

A imprensa alemã voltou a examinar o caso, inclusive os valores que Epstein mantinha no banco e as transações realizadas por suas contas.

O Deutsche Bank já havia reconhecido que foi um erro manter a relação comercial e, em 2020, recebeu uma multa de 150 milhões de dólares ( 903 milhões de reais) do regulador financeiro de Nova York por falhas nos controles relacionados ao cliente.

O episódio é especialmente relevante para o caso atual porque o escândalo Epstein também envolveu questionamentos sobre a capacidade do Deutsche Bank de identificar operações suspeitas e aplicar corretamente seus próprios procedimentos de controle.

Um banco lucrativo, mas pressionado pelo passado

A sequência de problemas contrasta com a situação financeira atual do Deutsche Bank.

O banco registrou lucro após impostos de 1,9 bilhão (11 bilhões de reais) no segundo trimestre de 2026, alta de 10% em relação ao mesmo período do ano anterior.

No primeiro semestre, o lucro após impostos chegou a 4,1 bilhões de euros (25 bilhões de reais), um recorde para o período.

O desempenho reforça a transformação promovida pelo presidente-executivo Christian Sewing, que desde 2018 tenta recuperar a rentabilidade e reduzir a exposição do banco aos problemas que marcaram sua história recente.

Mas a sucessão de investigações mostra que parte desse passado ainda não desapareceu.

A busca relacionada à Postbank, a investigação sobre possíveis falhas de combate à lavagem de dinheiro, o caso Epstein e agora uma fraude cometida por um funcionário contra clientes ricos são episódios diferentes e não há evidência de que estejam relacionados entre si.

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