ASSINE VEJA NEGÓCIOS

EUA pagam maior juro em 25 anos para financiar dívida sob Trump

Treasouro americano precisou oferecer rendimento de até 5,22% para vender títulos de 30 anos, em um sinal de preocupação dos investidores

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 14 ago 2026, 08h52 | Atualizado em 14 ago 2026, 12h11
EUA pagam maior juro em 25 anos para financiar dívida sob Trump Priorizar nos meus resultados Google

O governo de Donald Trump acaba de receber um recado importante do mercado financeiro: ficou mais caro para os Estados Unidos pegar dinheiro emprestado.

Na quinta-feira (13), o Tesouro americano vendeu US$ 25 bilhões em títulos de 30 anos oferecendo rendimento de até 5,22% ao ano, o maior custo para esse tipo de dívida desde 2001. Na última operação semelhante, em julho, o rendimento havia sido de 5,06%. Antes da volta de Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, estava em 4,91%.

Parece uma diferença pequena. Não é.

Os Estados Unidos têm uma dívida pública próxima de US$ 40 trilhões. Quando a taxa exigida pelos investidores sobe, o governo precisa pagar mais juros para refinanciar essa montanha de dívida. E o problema tende a se acumular: uma parcela cada vez maior do orçamento passa a ser destinada não a saúde, defesa ou infraestrutura, mas simplesmente ao pagamento de juros.

O fenômeno também interessa diretamente ao Brasil. Os títulos do Tesouro americano são a principal referência para o preço do dinheiro no mundo. Quando os investidores exigem mais retorno para emprestar aos EUA, outros países precisam oferecer remunerações maiores para competir pelo mesmo capital. Isso pode pressionar juros, câmbio e bolsas de países emergentes, inclusive o Brasil.

Continua após a publicidade

O problema de Trump

O aumento do custo da dívida ocorre em um momento particularmente delicado para Trump.

O presidente voltou ao poder prometendo reduzir o tamanho do Estado e melhorar as contas públicas. Mas sua política econômica combina cortes de impostos, aumento de gastos e tarifas sobre importações, enquanto os juros da dívida continuam crescendo.

Continua após a publicidade

O déficit americano chegou a US$ 432 bilhões somente em julho, o maior rombo mensal desde 2021. No acumulado do ano fiscal, o déficit já alcança US$ 1,8 trilhão, superando o resultado de todo o ano fiscal de 2025, que foi de US$ 1,775 trilhão.

O Congressional Budget Office, órgão independente que assessora o Congresso americano, estima que a dívida federal nas mãos do público equivalha a 101% do PIB em 2026 e chegue a 120% em 2036. Nesse cenário, o endividamento ultrapassaria o recorde registrado logo depois da Segunda Guerra Mundial.

A dificuldade é que Trump precisa financiar esse déficit justamente quando os investidores estão menos dispostos a aceitar juros baixos.

Continua após a publicidade

Por que os juros subiram?

Há duas preocupações principais.

A primeira é o tamanho da dívida. Quanto mais o governo precisa tomar emprestado, maior a quantidade de títulos que chega ao mercado. Para atrair compradores, o Tesouro pode precisar oferecer uma remuneração maior.

Continua após a publicidade

A segunda é a inflação.

Os preços ao consumidor nos EUA subiram 3,4% em 12 meses em julho, ainda significativamente acima da meta de 2% do Federal Reserve. As tarifas de Trump também elevaram os custos de diversos produtos importados, enquanto a guerra com o Irã provocou pressão adicional sobre os preços de energia.

O resultado é um dilema para o Fed: se reduzir os juros muito rapidamente, pode alimentar novamente a inflação; se mantiver a política monetária restritiva por mais tempo, aumenta o custo de financiamento da economia e do próprio governo.

Continua após a publicidade

Os mercados já reduziram as apostas em cortes agressivos. Ao mesmo tempo, os juros dos títulos longos permanecem elevados. O rendimento real, descontada a inflação, do título americano de 30 anos está próximo do maior nível em quase duas décadas.

Por que isso importa para o Brasil

O título de 30 anos do Tesouro americano é um dos ativos mais importantes do sistema financeiro internacional. É considerado uma referência para investimentos de longo prazo porque o risco de calote dos EUA é tratado como extremamente baixo.

Quando esse ativo passa a pagar mais, ele se torna mais atraente para investidores do mundo inteiro.

Imagine um investidor estrangeiro escolhendo entre receber 5,2% ao ano em um título americano de longo prazo ou comprar dívida de um país emergente que oferece uma taxa significativamente maior, mas também envolve risco cambial e político.

Se os EUA elevam sua remuneração, o prêmio exigido para investir em outros países tende a subir.

Isso pode significar juros maiores para governos e empresas brasileiras, maior pressão sobre o real e menor apetite estrangeiro por ativos de mercados emergentes.

Não é uma relação automática, mas é um dos mecanismos pelos quais a política fiscal americana chega à economia brasileira.

E o resto do mundo?

O movimento ocorre em um momento em que outros governos também estão enfrentando dificuldades para financiar déficits elevados.

Os rendimentos dos títulos de longo prazo britânicos e alemães também subiram, enquanto os juros reais americanos estão próximos do maior nível em 18 anos. O aumento dos gastos públicos e o crescimento da dívida em diferentes economias estão disputando o mesmo estoque de capital disponível no mercado internacional.

Há ainda um novo concorrente: a inteligência artificial.

Empresas como Alphabet, Amazon e Meta estão tomando dinheiro emprestado em escala inédita para construir data centers e infraestrutura de IA. Essas companhias já levantaram cerca de US$ 220 bilhões em dívida em 2026, segundo levantamento citado pela Reuters.

Governos e empresas passam, portanto, a disputar simultaneamente os recursos dos investidores.

O risco para Trump

O aumento dos juros cria um problema político e econômico para o presidente.

Trump pode pressionar o Federal Reserve por juros menores, mas o mercado de títulos está mostrando que a decisão não depende apenas do Fed. Mesmo que o banco central reduza a taxa básica, investidores podem continuar exigindo retornos elevados nos títulos de longo prazo se acreditarem que a inflação e a dívida continuarão altas.

É justamente o que começa a aparecer na chamada curva de juros americana: o custo dos títulos de prazo mais longo permanece elevado mesmo diante de expectativas de uma política monetária menos restritiva.

E há um efeito perverso. Quanto maior o juro pago pelo governo, maior a despesa financeira. Quanto maior a despesa, maior pode ser a necessidade de emitir dívida. E quanto mais dívida chega ao mercado, maior pode ser a pressão sobre os juros.

O Tesouro americano ainda conta com uma vantagem enorme: o dólar continua sendo a principal moeda de reserva do mundo, e os títulos americanos continuam entre os ativos mais demandados pelos investidores internacionais. A Fitch, que manteve nesta semana a nota dos EUA em AA+, destacou justamente a força da economia americana e o papel internacional do dólar.

Mas a operação desta quinta-feira mostra que esse privilégio não significa dinheiro barato ilimitado.

A dívida americana está crescendo, o governo precisa refinanciá-la em volumes cada vez maiores e os investidores estão começando a cobrar mais por isso.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Banner promocional com fundo verde-escuro. À esquerda, texto em amarelo e branco: O MÊS É DO CLIENTE. A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua. À direita, uma mão segura um smartphone exibindo um portal de notícias com banner e produtos. Ao lado, um ícone de árvore verde-claraMão segurando um smartphone com tela exibindo um aplicativo de notícias e produtos. À esquerda, texto O MÊS É DO CLIENTE. A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua. Fundo verde escuro com ícone de árvore à direita
ECONOMIZE ATÉ 87% OFF

Digital Essencial

O mercado não espera — e você também não pode!
Com a Veja Negócios Digital, você tem acesso imediato às tendências, análises, estratégias e bastidores que movem a economia e os grandes negócios.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
OFERTA MÊS DO CLIENTE

Revista em Casa + Digital Premium

Veja Negócios impressa todo mês na sua casa, além de todos os benefícios do plano Digital Premium
De: R$ 29,99/mês
A partir de R$ 9,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).