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Estrangeiros colocaram US$ 67,8 bilhões no mercado financeiro brasileiro em 2010

Investimento especulativo é recorde e alivia o saldo negativo das contas externas do país

Os aportes de capital de investidores estrangeiros em ações, renda fixa e títulos de curto prazo brasileiros somaram 67,8 bilhões de dólares em 2010, de acordo com a nota do Setor Externo, divulgada na manhã desta terça-feira pelo Banco Central. O valor é 45% superior ao de 2009 – ainda que tenha sido penalizado pelo aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que passou de 2% para 6% no final do último ano. Só na BM&FBovespa, que negocia contratos no mercado futuro, os aportes bateram recorde histórico, chegando a 37 bilhões de dólares em 2010. O número supera a máxima anterior, registrada em 2007, quando os estrangeiros depositaram 24 bilhões de reais em investimentos em ações.

Tal crescimento emite dois sinais importantes para o mercado brasileiro. O primeiro mostra ao governo que, ainda que o IOF suba e abocanhe parte dos ganhos, o Brasil continua sendo um porto atrativo para o capital estrangeiro – sobretudo após o aumento de 0,50 ponto porcentual na taxa básica de juros (Selic) para 11,25% ao ano. O segundo deixa claro que a imagem (mesmo que nem sempre condizente com a realidade) de austeridade do Banco Central brasileiro transmite confiança ao investidor estrangeiro a ponto de ele não navegar por esses mares em busca de retornos de curtíssimo prazo.

“Existe uma perspectiva de valorização para os ativos do Brasil e os investidores querem acompanhar essa curva, principalmente quando se trata de empresas ligadas ao setor de commodities”, afirma o economista Carlos Thadeu de Freitas Lopes, ex-diretor do Banco Central. Os ingressos líquidos de títulos de curto prazo somaram 1,3 bilhão de dólares em dezembro. No ano, tais ingressos acumularam 5,4 bilhões de dólares – número regenerador se comparado às saídas líquidas de 567 milhões de dólares ocorridas em 2009.

IED – Além de investimentos no mercado financeiro, o país teve um salto ainda ainda mais expressivo em investimentos estrangeiros diretos – que chegam por meio de compra de participação em empresas fechadas ou investimentos diretos em projetos de infraestrutura. O fluxo de recursos chegou a 48,5 bilhões de dólares no ano (uma elevação de 86,8%, se comparado a 2009). O total é recorde histórico desde que a série foi iniciada, em 1947, e foi suficiente para cobrir o déficit acumulado em conta corrente (transações do Brasil com o exterior) que ficou em 47,5 bilhões de dólares em 2010 – número dentro do previsto por analistas. O valor é equivalente a 2,28% do Produto Interno Bruto (PIB), contra 1,52% do PIB registrado em 2009.

Segundo o BC, a compra de parte da unidade brasileira da petrolífera Repsol pela chinesa Sinopec por 7,1 bilhões de dólares, em dezembro, teve grande efeito sobre os resultados do IED. Outro fator que impulsionou a alta foi a realização de algumas operações de investimento previstas para 2011, mas que acabaram sendo feitas em 2010.

Já Freitas Lopes, ex-diretor do BC, disse que o déficit em conta corrente foi impactado pelo aumento das importações. Viagens, gastos com serviços e lucros de investimentos no exterior também contribuiram para o aumento do deficit do ano passado em relação a 2009.

Gastos no exterior – Segundo o documento do BC, os turistas brasileiros deixaram no exterior 16,4 bilhões de dólares. O resultado é 87,7% maior do que o registrado em 2009 e marca mais um recorde anual da série histórica do BC. Ao longo do ano passado, o número apresentou recordes mensais, fechando novembro com 14,6 bilhões de dólares em gastos.

As reservas internacionais somaram 288,6 bilhões de dólares, em dezembro, contra 239 bilhões de dólares em dezembro de 2009. Já a dívida externa total passou de 198 bilhões de dólares em 2009 para 255 bilhões de dólares em 2010.