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Está em curso a silenciosa evolução da crise do euro

A fase aguda já passou. Mas a ineficácia das políticas de austeridade e a falta de união entre os países da zona do euro abrem espaço para mais preocupações

Por Ana Clara Costa, de St Gallen - 4 Maio 2013, 06h34

Aparentemente, tudo está sob controle. Grécia, Irlanda, Portugal e até mesmo o Chipre aplicam – de forma relativamente suportável – seus programas de reestruturação fiscal supervisionados pela troika – conjunto de poderes formado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Central Europeu (BCE) e a Comissão Européia. A Espanha, por sua vez, conta com o FMI para tentar ressuscitar seu moribundo sistema bancário. E até mesmo o ex-premiê italiano Silvio Berlusconi deixou de ser uma ameaça à estabilidade, depois que Enrico Letta foi nomeado chefe do governo do país. De fato, há um perigoso consenso de que o período mais agudo da crise europeia já passou.

Também fala-se que a crise deu trégua após a estabilização dos prêmios de risco dos títulos da dívida das nações problemáticas. Tais prêmios equivalem aos juros pagos pelos países para financiar suas dívidas junto aos credores. Quando a capacidade de honrar os compromissos de suas dívidas é colocada em xeque, tais países assistem à subida estrondosa dos juros sempre que necessitam fazer alguma nova emissão de títulos. O fato é que mesmo com os países periféricos “medicados” pelo FMI e uma menor aversão ao risco por parte do investidor, a Europa parece estar cada vez mais distante da imagem de prosperidade que costumava ostentar poucos anos atrás.

A grande frustração europeia está no fato de os países aplicarem todas as receitas de ajuste fiscal fornecidas pela teoria econômica clássica, sem que haja qualquer sinal de recuperação no horizonte. Na Espanha e na França, a taxa de desemprego segue batendo recordes. O último dado oficial mostrava que, na Espanha, 27 de 100 pessoas que fazem parte da população economicamente ativa não possuem trabalho. Na França, a proporção é de 11 entre 100. Como conseqüência, as perspectivas de recessão econômica pioram a cada avaliação. Na última sexta-feira, analistas da Eurostats divulgaram que a economia da zona do euro deve recuar 0,4% em 2013, ante a previsão anterior de 0,3%.

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Questionada sobre a ineficácia da política de austeridade, a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, afirmou na última quinta-feira, no St Gallen Symposium, na Suíça, que a disciplina fiscal é tema inegociável – ainda que os sinais de crescimento oriundos dos ajustes fiscais sejam visíveis apenas sob a lente de uma lupa. “O principal caminho é a austeridade. Mas, em paralelo, vem a parte mais difícil: é preciso criar elementos que favoreçam a geração de emprego e os investimentos”, disse Lagarde, durante o evento. A líder do FMI também voltou a defender a ideia da união bancária entre os países da zona do euro lançando mão do argumento de que um sistema integrado fará com que distorções como as que ocorreram no Chipre possam ser identificadas e sanadas com mais rapidez.

Briga solitária – O problema é que, não bastasse os indicadores pessimistas, tanto Lagarde quanto as demais lideranças europeias travam batalhas completamente distintas para tentar recuperar o vigor econômico. A união de forças vista entre 2010 e 2011 com o objetivo de salvar a Grécia do calote, intensificar o papel do Banco Central Europeu (BCE) e restaurar a confiança dos investidores simplesmente se dissipou. Lagarde parece brigar sozinha, sem adversários ou parceiros, para tentar criar uma nova estrutura financeira para a Europa – enquanto nos demais países, o tema político domina os debates.

O pêndulo que tentava resgatar o equilíbrio na zona do euro era movimentado por duas forças por vezes opostas, mas também complementares: a chanceler alemã Angela Merkel e o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy. Hoje, com a indiferença do atual presidente da França, François Hollande, à discussão dos problemas europeus, Merkel exerce peso único – e coleta, em troca, toda a antipatia dos países que enfrentam duros ajustes fiscais. “Os líderes europeus, hoje, estão muito mais preocupados em resolver seus problemas políticos internos do que pensar numa solução em conjunto para a Europa”, diz o professor James Davis, diretor do Instituto de Ciências Políticas da Universidade de St Gallen. Davis relembra que só houve uma coalizão europeia para resgatar a Grécia porque, caso nada fosse feito, todos os países poderiam ser sugados pela crise. “Sempre que estamos à beira do precipício, nos damos as mãos. Agora que o pior já passou, cada um voltou para o seu mundo”, afirma o professor.

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Diante da inércia política que se abate sobre a Europa, onde a única liderança, de fato – Angela Merkel – está longe de mover multidões de seguidores, alguns temem que a falta de ação dos chefes de estado europeus traga, inclusive, o agravamento da crise econômica. Outra conseqüência é o desenvolvimento de severa revolta de alguns países em dificuldades contra a Alemanha, segundo Richard Parker, professor de políticas públicas da John F Kennedy School of Government, em Harvard. “No fim do dia, o dinheiro que foi colocado nesses países como parte do programa de resgate terminou enchendo os cofres alemães e franceses, já que eles eram os maiores detentores dos títulos da dívida grega. Então a população grega, cujos bancos e o setor público encontram-se em situação dramática, se pergunta e continuará se perguntando por que ela deverá pagar por um dinheiro que não serviu para estimular o crescimento de seu país”. Para Parker, aí mora o perigo. “Se não houver um entendimento político sobre por que determinadas medidas são necessárias, essas rivalidades podem colocar tudo a perder”.

Leia: Zona do euro: recessão será ainda mais profunda em 2013

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