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ESPECIAL-No Rio, empresas sobem o morro em busca de consumidores

Por Juliana Schincariol

RIO DE JANEIRO, 14 Dez (Reuters) – A chegada do poder público em favelas no Rio de Janeiro com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), modelo de segurança pública para recuperar territórios ocupados pelo tráfico e por milícias, tem aberto o caminho para a entrada de empresas afim de explorar o mercado consumidor desses locais.

O primeiro movimento de companhias em direção aos morros tem sido o de serviços como luz, telefone, gás e TV por assinatura, que antes eram resultado de ligações clandestinas. Bancos também estão abrindo agências e uma segunda onda deverá ser a aproximação de redes varejistas.

“O benefício de poder entrar (nas favelas) é muito grande”, avalia a professora Marina Figueiredo Mello, do curso de Economia da PUC-Rio, sobre o potencial de consumo dos moradores dessas regiões.

Segundo dados da Secretaria de Segurança do Rio, 280 mil pessoas foram beneficiadas pelas UPPs. O número ainda não considera as populações do Complexo do Alemão e da Rocinha, de 80 mil e 100 mil pessoas, respectivamente, já tomadas por forças de segurança e sem uma UPP instalada até o momento.

Entre os bancos, a Caixa Econômica Federal afirma ser a pioneira, tendo chegado na Rocinha em 1998. Atualmente, Banco do Brasil, Santander Brasil, Bradesco e Itaú Unibanco dizem estar presentes em diversas localidades.

Depois da ocupação da Rocinha por forças de segurança, há um mês, tanto a Caixa quanto o BB anunciaram a abertura de novas agências na área. A Caixa também terá uma nova unidade no Vidigal.

O superintendente de expansão da rede do Santander no Brasil, Robson Rezende, afirma que podem ser abertas novas agências do banco além da existente no Morro do Alemão, ocupado pelo poder público em 2010, quando surgirem oportunidades.

“O banco que não sabe tratar o público de menor renda não sabe trabalhar no Brasil. Não dá para imaginar deixar para trás uma parcela tão representativa da população”, diz Rezende.

Levantamento do Sistema Firjan, que representa as indústrias do Estado do Rio, mostra que a renda per capita nas favelas é de 556 reais -que se compara ao salário mínimo nacional hoje de 545 reais. A pesquisa foi feita em nove comunidades pacificadas, de cerca de 20 que já contam com UPPs, e mostrou ainda que mais de 80 por cento da população possui uma ocupação.

A Lojas Americanas inaugurou uma unidade no bairro de Ramos, subúrbio na Zona Norte da cidade, região onde está a favela Roquete Pinto, ainda sem uma UPP.

A companhia “está fazendo estudos de viabilidade para a abertura de novos pontos”, segundo sua assessoria de imprensa.

Outras grandes redes varejistas como Guararapes (dona da Riachuelo) e Renner disseram à Reuters que ainda não possuem planos de instalação nos morros com UPPs.

“Isso pode acontecer num segundo momento, se as favelas forem integradas às cidades como espaço de circulação”, acredita o professor João Luiz de Figueiredo, da ESPM-Rio.

No início de dezembro, em apresentação a investidores estrangeiros e empresários em Nova York, o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), afirmou que a pacificação de comunidades carentes é um “fator decisivo para alavancar o desenvolvimento econômico do Estado”.

SERVIÇOS SAEM NA FRENTE

Sob o domínio de traficantes, funcionários e prestadores de serviço das companhias eram impedidos de exercer suas atividades nas favelas. Após a ocupação pelo poder público, as companhias passaram a ser atuantes nas comunidades carentes.

A TIM lançou no começo deste mês projeto na Rocinha para prover acesso rápido à Internet a clientes da operadora. A empresa também pretende instalar uma rede pública em toda a comunidade.

“A Rocinha é a nova classe C. Uma operadora móvel que acompanha o desenvolvimento da classe C tem um motor muito forte”, afirmou o presidente da TIM, Luca Luciani, na ocasião do lançamento.

A Oi tem investido em projetos de recuperação da infraestrutura de telecomunicações em diversas comunidades pacificadas do Rio. “O restabelecimento da rede fixa possibilitará à Oi atender à crescente demanda de banda larga nas comunidades”, diz a companhia.

Na Rocinha, a Oi reforçou suas equipes de venda porta a porta, que passaram a circular por toda a comunidade diante do forte aumento da demanda por serviços de TV por assinatura.

A Light deve quase dobrar os investimentos em 2012 nas comunidades com UPPs. A distribuidora de energia estima investir 75 milhões de reais na construção de redes, instalação de equipamentos, transformadores, medidores e outros itens nas comunidades.

A Light é uma das empresas mais penalizadas no Rio por ligações clandestinas, conhecidas como “gatos”. As perdas não técnicas em 12 meses até setembro representaram quase 41 por cento da energia faturada pela companhia no mercado de baixa tensão.

(Com reportagem adicional de Rodrigo Viga Gaier)