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Espanha é assolada por rebaixamentos e crise bancária

Por Carlos Ruano e Julien Toyer

MADRI, 17 Mai (Reuters) – O custo do financiamento da dívida espanhola disparou num leilão de títulos realizado nesta quinta-feira, e seus conturbados bancos sofreram um duplo golpe, com uma forte desvalorização nas ações do Bankia, que acaba de ser parcialmente estatizado, e reduções nas notas de crédito de 16 instituições financeiras.

Dados oficiais confirmaram que a Espanha voltou à recessão, e um jornal noticiou uma grande fuga de depósitos do Bankia. Por outro lado, o governo disse ter dado um passo fundamental para a credibilidade nacional, ao definir profundos cortes orçamentários com as perdulárias regiões.

O Moody’s Investors Service reduziu a qualificação dada à dívida de longo prazo e aos depósitos de 16 bancos espanhóis, incluindo o Banco Santander, o maior da zona do euro. A agência disse que tomou essa decisão porque o governo espanhol demonstra agora menor capacidade de ajudar alguns bancos.

Os bancos espanhóis estão cheios de dívidas “pobres” por causa do estouro na bolha imobiliária do país, e isso é um dos fatores preponderantes na atual crise da zona do euro, pois os mercados temem que qualquer medida do governo para salvar uma dessas instituições sobrecarregaria ainda mais suas já frágeis finanças, possivelmente tornando necessário um resgate internacional.

Gary Jenkins, analista de crédito da Swordfish Research, disse que a Espanha tem problemas que vão além do risco de contágio da crise da Grécia, que está ameaçada de deixar a zona do euro.

“Embora as atenções do mundo estejam voltadas para a Grécia, o fato é que a Espanha enfrenta muitos desafios, independentemente de como a situação grega afinal se resolver”, escreveu ele em nota.

O Moody’s cortou a nota do Santander e do BBVA, segundo maior credor espanhol, apesar de ambos serem considerados estáveis, ao contrário do que ocorre com algumas instituições financeiras menores.

Nicholas Spiro, da Spiro Sovereign Strategy, disse que o governo conservador de Mariano Rajoy não está lidando bem com a crise.

“O sentimento com relação à Espanha está se deteriorando a cada dia que passa, principalmente por causa de uma perda de confiança na abordagem do governo de Rajoy para lidar com os problemas no setor bancário.”

ATRAINDO COMPRADORES

No leilão de títulos desta quinta-feira, o Tesouro precisou pagar juros em torno de 5 por cento para atrair os compradores para os seus papéis com vencimento em três e quatro anos. Este saiu com ágio de 5,106 por cento, bem acima dos 3,374 por cento do leilão anterior.

“Isso … se encaixa no padrão de vendas recentes, com o Tesouro espanhol conseguindo escoar sua oferta, mas com ágios cada vez maiores”, disse Richard McGuire, estrategista de juros do Rabobank, em Londres.

“Essa tendência desfavorável parece destinada a seguir firme … Afinal, esse aumento do ágio acabará por exigir alguma forma de intervenção externa.”

A Espanha oficialmente entrou em recessão no primeiro trimestre do ano, segundo dados definitivos divulgados nesta quinta-feira, e isso deixa o país sob a ameaça de uma crise prolongada, já que medidas de austeridade adotadas em toda a zona do euro dificultam a retomada do crescimento.

A Comissão Europeia alertou na semana passada para a seriedade das dívidas das 17 regiões autônomas (Estados) espanholas, que respondem por aproximadamente metade dos gastos públicos totais, e do déficit no sistema de bem-estar social.

Segundo a Comissão, isso impedirá a Espanha de cumprir sua meta de reduzir o déficit orçamentário de 8,5 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2011 para 5,3 por cento neste ano.

A maioria das regiões descumpriu as metas de déficit no ano passado, mas o governo disse ter selado um acordo com os governos autônomos para cortar 13 bilhões de euros dos gastos públicos e aumentar a arrecadação em 5 bilhões de euros.

Após semanas de negociações, o ministro do Tesouro, Cristóbal Montoro, aprovou os planos apresentados por todas as regiões, exceto a pequena Astúrias (norte), que deverá apresentar um novo orçamento dentro de 15 dias.

“Demos um passo fundamental para a credibilidade da Espanha”, disse Montoro a jornalistas.

Nesta quinta-feira, a Moody’s rebaixou também as notas de crédito de quatro regiões, inclusive Catalunha e Andaluzia.

As regiões que conseguirem cumprir as metas de déficit receberão ajuda do Estado para se financiar por meio de um novo mecanismo a ser introduzido até julho. O governo há semanas trabalha na criação dos chamados “hispanobônus”, que permitirão que as regiões emitam títulos garantidos pelo Tesouro.

(Reportagem adicional de Steve Slater, Nigel Davies, Andres Gonzalez, Blanca Rodriguez, Paul Day, Sonya Dowsett, Steven C. Johnson e Sarah White)