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Escândalo das escutas expôs as misérias dos tabloides no R.Unido

Patricia Souza.

Londres, 6 dez (EFE).- O escândalo das escutas ilegais praticadas pelo tabloide britânico ‘News of the World’ abalou em 2011 o império midiático do magnata Rupert Murdoch e danificou a reputação da imprensa, da classe política e da Polícia do Reino Unido.

A crise foi tamanha que não restaram marionetes e demonstrou que o pagamento de subornos à Polícia e a espionagem de personalidades através de métodos ilegais, como grampos telefônicos e invasões em casas alheias, eram pautas de conduta compartilhadas por meios de comunicação sensacionalistas do Reino Unido.

A repercussão custou os cargos do chefe máximo e do número 2 da Scotland Yard, da então executiva-chefe do império Murdoch no Reino Unido, Rebekah Brooks, e do então chefe de imprensa do governo britânico, Andy Coulson – os dois últimos foram detidos por terem dirigido o ‘News of the World’ na época das escutas (de 2000 a 2007).

No terreno empresarial, o escândalo provocou o fechamento de um tabloide com 168 anos de história – que era o mais vendido do Reino Unido por seus furos agressivos – e o fim das ambições do magnata australiano de controlar o canal de televisão por assinatura ‘BSkyB’.

A investigação policial demonstrou que, na primeira década do século, o ‘News of the World’ violou os telefones de 5,8 mil pessoas e revelou também perigosas relações de policiais com repórteres, com quem confraternizavam alegremente em pubs e dos quais aceitaram propinas em troca de informações.

Paralelamente, o governo britânico solicitou uma investigação ao juiz Brian Leveson sobre as práticas jornalísticas no país. Os depoimentos de várias celebridades deixaram claro que práticas ilegais como intrusões, assédio e espionagem foram frequentes durante anos na imprensa sensacionalista.

Diante da atenção do lorde Leveson, o ator Hugh Grant afirmou que jornalistas grampearam seu telefone e até entraram em sua casa. Já a escritora J.K. Rowling, autora da saga ‘Harry Potter’, revelou que um repórter colocou uma carta na mochila de sua filha de cinco anos e que até teve de vender sua casa devido ao assédio dos paparazzi.

Foram pautas de conduta abertamente ilegais que, no entanto, não pareceram preocupar tanto a opinião pública dos britânicos – ávidos leitores de tabloides que vendem milhões de exemplares por dia – até que o escândalo atingisse não apenas ricos e famosos, como também os mortais e anônimos.

O escândalo das escutas ilegais eclodiu em 2006, quando veio à tona que o telefone do príncipe William tinha sido grampeado, mas só no dia 4 de julho deste ano provocou a espiral de indignação no Reino Unido.

Nesse dia, o jornal ‘The Guardian’, que estava há anos investigando a atuação dos meios de comunicação de Murdoch, publicou uma reportagem que revelava que, entre os telefones grampeados pelo ‘News of the World’, esteve o de Milly Dowler, uma menina de 13 anos assassinada por um pedófilo.

A escuta da caixa de mensagens do celular de Milly, feita em março de 2002, despistou a Polícia das investigações do homicídio. Os jornalistas deletaram algumas das mensagens de texto recebidas pela menina para dar espaço à chegada de novas. Com isso, eles fizeram a família de Milly acreditar que ela ainda pudesse estar viva.

Na longa lista de vilões deste caso, destaca-se o detetive Glenn Mulcaire, detido no início do caso. Ele teria se encarregado de grampear os telefones, entre eles o de Milly Dowler.

A repercussão também abalou os responsáveis da News International, braço britânico do conglomerado News Corporation, segundo maior grupo midiático do mundo, propriedade de Rupert Murdoch.

Seu filho James Murdoch, presidente da News International e número três de seu império, se vê questionado e já não é percebido como o herdeiro natural do pai.

E, a seus 80 anos, o outrora todo-poderoso Rupert Murdoch já não possui mais a proximidade que tinha com o governo britânico, tal como era tanto com primeiros-ministros trabalhistas quanto conservadores. Em discurso no Parlamento britânico, pediu perdão por um escândalo que lhe deu a maior lição de humildade de sua vida. EFE