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ENTREVISTA-Dersa trará ao Brasil tecnologia inédita para túneis

Por Carolina Marcondes

SÃO PAULO, 5 Abr (Reuters) – Um túnel submerso entre Santos e Guarujá, no litoral paulista é maior desafio da Desenvolvimento Rodoviário S.A. (Dersa), que busca se reinventar após sua saída do segmento de concessões de rodovias.

Até 2009, a empresa controlada pelo governo do Estado de São Paulo administrava estradas como Ayrton Senna e Carvalho Pinto, mas após a concessão delas para a iniciativa privada adotou um novo caminho e passou a ser prestadora de serviços em infraestrutura de transportes.

Após os projetos dos quatro trechos do Rodoanel Mário Covas, e de uma nova pista na Marginal Tietê, a Dersa atua na implantação do projeto do túnel que será construído fora da água e depois “afundado” -uma tecnologia inédita no Brasil. Ele terá 900 metros de extensão e investimento previsto em 1,3 bilhão de reais.

“A Dersa deve ser o braço forte do governo estadual na infraestrutura de transporte. Esse é o nosso novo alinhamento estratégico”, afirmou em entrevista à Reuters o presidente da empresa, Laurence Casagrande Lourenço.

Segundo o executivo, o “túnel imerso” será construído em módulos fora da água, e depois será “afundado” para receber os últimos ajustes. A previsão inicial é que o túnel esteja pronto no final de 2016.

A decisão de se fazer um túnel atravessando o canal por onde passam os navios no Porto de Santos, o maior da América Latina, ocorreu após uma série de estudos, iniciados em 2011, de localização, tráfego, demanda e derrubada de prédios históricos, levando-se em conta o interesse para caminhões, automóveis, bicicletas e pedestres.

Uma ponte entre Santos e Guarujá se mostrou inviável diante do fato de que, segundo estudos, ela teria que ter uma altura mínima de 85 metros, mas o local estaria próximo a Base Aérea de Santos, que não permite em seu entorno construções superiores a 75 metros.

Diante de vários possíveis locais, a Dersa concluiu que a melhor alternativa era um túnel ligando uma parte da Avenida Perimetral, em Santos, a Vicente de Carvalho, no Guarujá.

Lourenço explicou que as condições geológicas da região não permitiriam a escavação de um túnel a um custo razoável, visto que, diante de um solo arenoso, o empreendimento teria que estar a uma grande profundidade. Por isso a opção pelo túnel submerso, e não abaixo da terra.

Apesar de ser uma novidade no Brasil, os túneis desse tipo existem há mais de 100 anos e há cerca de 150 deles no mundo. A Holanda é o país que mais domina a tecnologia.

A construção do túnel deve ter início em 2014, após a licitação da construção, que deve ocorrer no fim de 2013. Atualmente, está havendo um processo de licitação para o projeto.

“Mas ninguém no Brasil sabe fazer esse negócio. Nós tínhamos que encontrar um jeito que garantisse que o brasileiro ficasse com a tecnologia, então fizemos uma licitação nacional. Só que na licitação a empresa tem que trazer um consultor que saiba fazer isso”, explicou Lourenço.

“Ao final do projeto quem ganha o atestado é o brasileiro. Então eu estou financiando pra ele aprender… Essa licitação vai forçar a transferência de tecnologia.”

A ideia da Dersa é que o túnel passe por um leilão de concessão e inicie suas operações sob administração da iniciativa privada.

De acordo com Lourenço, o túnel é apenas uma “primeira travessia” que não interromperá o transporte entre as duas cidades feitas por balsas e barcaças que são administradas pela própria Dersa.

“Existe um tráfego portuário que precisa de um tratamento específico. Essa é uma travessia generalista, que olhou para todas as demandas -caminhões, carros, bicicletas e pedestres. As próximas vão olhar para demandas específicas”, explicou.

Ainda de acordo com o presidente da Dersa, as cidades de Itajaí e Florianópolis (SC) mostraram interesse em túneis submersos. Vitória (ES) também está interessada em conhecer a solução.

“A Dersa pode fazer serviços em outros Estados também”, disse o presidente.

OUTORGA DE R$2 BI NO RODOANEL NORTE

O trecho norte do Rodoanel, cuja previsão é de começo de construção ainda em 2012 e conclusão em 2014 -com administração da iniciativa privada por meio de um leilão de concessão- deve ter um pedágio similar aos outros trechos da rodovia e uma outorga de cerca de 2 bilhões de reais.

“Como o Rodoanel tem basicamente a mesma tarifa nos trechos oeste, sul e leste, de mais ou menos quatro centavos por quilômetro, eu acho difícil o governo não estipular a mesma tarifa para o trecho norte, ficaria desequilibrado e seria péssimo para o Rodoanel”, afirmou Lourenço.

“Estimamos que o governo conseguiria recuperar algo em torno de 1,8 bilhão, 2 bilhões de reais em outorgas.”

O investimento no trecho norte, que passará próximo à Serra da Cantareira e terá sete túneis, é calculado em 6,5 bilhões de reais.