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ENTREVISTA-Cetip prefere inovação, mas pode encarar BM&FBovespa

Por Aluísio Alves e Guillermo Parra-Bernal

SÃO PAULO, 13 Jun (Reuters) – A Cetip continuará apostando em inovação, mas está pronta para competir, caso a BM&FBovespa resolva enfrentá-la no seu hoje cativo mercado de renda fixa privada, disse um executivo da companhia.

“Nossa estratégia é priorizar a inovação”, disse nesta quarta-feira à Reuters o vice-presidente executivo da Cetip, Francisco Carlos Gomes. “Mas estamos prontos para competir, se necessário”.

A BM&FBovespa assinou em novembro um acordo com a norte-americana Calypso Technology para plataforma de registro e gerenciamento de operações de balcão, o que a habilitaria para concorrer com a Cetip, quebrando um cenário em que cada grupo operou por anos sem atacar os nichos um do outro.

“É um equívoco”, disse Gomes, referindo-se ao interesse da BM&FBovespa de competir no setor. “Vai fazer mais do mesmo”.

Para Gomes, com a tendência de queda do juro básico no país, o que abre espaço para desenvolvimento de diversos nichos do mercado de capitais, faz mais sentido apostar em novos produtos do que ampliar a concorrência em mercados já estabelecidos, o que induziria uma guerra de preços.

O executivo reafirmou a posição da Cetip de não competir diretamente em segmentos tradicionalmente controlados pela BM&FBovespa, mas disse que a evolução natural da companhia é desenvolver uma estrutura de contrapartes para mercados de bolsa para oferecer serviços de negociação e liquidação de alguns produtos que nenhum participante do mercado oferece hoje.

Maior central depositária de ativos da América Latina, a Cetip está prestes a inaugurar sua plataforma eletrônica de negociação de ativos, como debêntures, letras financeiras, certificados de operações estruturadas, credit default swaps (CDS, certificados de proteção contra default) e outros derivativos, além de títulos imobiliários.

Segundo o executivo, a Selic no piso histórico de 8,5 por cento, com a tendência de taxas de longo prazo menores, cria um ambiente propício para fomentar o mercado de títulos privados, o que, segundo Gomes, deve acontecer no médio prazo.

Para o executivo, a sinalização da BM&FBovespa, da qual foi funcionário, de querer conquistar participação de mercado da Cetip destrói valor para os clientes.

“Com tanto espaço para inovar no mercado, oferecer mais do mesmo não traz nenhum valor para os acionistas ou clientes.”

Os comentários realçam os desafios de potenciais candidatos a entrar nos crescentes mercados domésticos de renda fixa e de ações. Recentemente, a norte-americana Direct Edge reafirmou interesse em entrar no mercado acionário brasileiro.

Segundo Gomes, a Cetip foi procurada por várias empresas interessadas em operar no mercado de ações no país, mas “nossa resposta a eles foi sempre coerente com a nossa estratégia”.

As declarações do executivo acontecem num momento em que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) aguarda os resultados de um estudo encomendado à consultoria Oxera. Na prática, a CVM poderia fazer a BM&FBovespa compartilhar suas estruturas de pós-negociação com concorrentes.

Pela estrutura do mercado brasileiro, concorrentes só poderiam competir com a BM&FBovespa no setor investindo numa plataforma de pós-negociação ou alugando os serviços da bolsa paulista, que tem declarado não ter interesse em vender serviços para terceiros, uma vez que está concentrada em unificar suas quatro clearings, projeto que só será concluído em 2014.

Gomes disse que o interesse da Cetip no resultado desse estudo é de “simples curiosidade” e que isso não deve acelerar os planos de competição no segmento.

Um relatório recente do Itaú BBA apontou que cerca de um terço do fluxo de receita da Cetip poderia ser pressionado, caso a BM&FBovespa decida competir nos mercados hoje dominados pela central depositária de ativos.

Consultada, a BM&FBovespa afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que não iria comentar as declarações da Cetip.