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Entenda o estranho Nobel de 2013: um prêmio para duas teorias opostas

Para Justin Fox, que escreveu 'O Mito dos Mercados Racionais', decisão do Comitê reconhece feitos de Eugene Fama, mas aponta também suas fraquezas ao laurear seu oponente, Robert Shiller

Por Ana Clara Costa - 15 out 2013, 07h23

Três economistas americanos foram laureados, na segunda-feira, com o Prêmio Nobel. Eugene Fama, por sua Hipótese do Mercado Eficiente, que defende que a precificação das ações pelos próprios movimentos racionais de mercado é correta. Robert Shiller, da Universidade de Yale, foi premiado pela teoria que contradiz, em quase todos os sentidos, a ideia defendida por Fama; e Lars Hensen, mais adepto da estatística, desenvolveu um modelo sobre como os agentes econômicos se adaptam às mudanças de mercado na hora de tomar decisões financeiras. O fato de seus estudos não estarem correlacionados e, mais curioso ainda, se contradizerem em muitos aspectos, criou certo burburinho na academia. Em vez de premiar, como de praxe, apenas um autor ou um grupo de autores que desenvolveram juntos uma mesma tese, o Comitê Nobel resolveu surpreender.

Para autor americano, premiação serviu para reconhecer trabalho de Fama — e suas limitações
Para autor americano, premiação serviu para reconhecer trabalho de Fama — e suas limitações VEJA

​Na avaliação de Justin Fox, autor do livro O Mito dos Mercados Racionais (Editora Best Business; 2011), que confronta justamente as teorias de Fama e Shiller, a decisão foi, no mínimo, estranha. “Fama é o autor da Hipótese do Mercado Eficiente. Shiller já afirmou que essa hipótese é ‘um dos maiores erros da história do pensamento econômico’. Não é possível ser mais diametralmente oposto que isso”, afirmou Fox ao site de VEJA. Segundo o autor, que edita a Harvard Business Review nos Estados Unidos, a decisão do Comitê de incluí-los num mesmo “pacote” de premiação pode ter sido uma forma de laurear Eugene Fama, e, ao mesmo tempo, reconhecer suas limitações. Confira trechos da entrevista:

Premiar três economistas que defendem teorias tão diferentes sobre o mercado financeiro foi uma atitude pouco usual do Comitê. O senhor tem alguma ideia de por que ela foi tomada agora?

Eu não tenho conhecimento suficiente sobre como o Comitê age para dizer a razão dessa escolha. O que posso dizer é que, já há algum tempo, tem se espalhado um sentimento entre os economistas de que o trabalho de Fama foi tão importante e tão influente que merecia um Nobel. E o fato de ter havido tantos trabalhos feitos para contradizer a teoria dos mercados eficientes mostra que seria estranho não se dar conta dessa importância. Então, premiar Fama e Shiller foi uma forma de não só reconhecer o trabalho de Fama, mas também suas limitações.

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A decisão de dar o prêmio a três estudos sobre o mercado financeiro foi uma forma de o Comitê reconhecer sua importância num momento em que ele continua sendo considerado culpado pela crise?

Na verdade, parece-me que esse prêmio de 2013 é algo que o Comitê esperou que anos se passassem após a crise para laurear. O fato de Fama não ter levado o prêmio enquanto seus contemporâneos das finanças, como o trio Miller, Markowitz e Sharpe, ou Merton e Scholes levaram era algo que o Comitê teria de lidar cedo ou tarde. Mas fazer isso logo após ou durante a crise teria soado como ‘fechar os olhos’.

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Os estudos de Fama e Shiller, especificamente, são opostos. Qual fator correlacionou suas teorias?

Fama é o autor da Hipótese do Mercado Eficiente. Shiller já afirmou que essa hipótese foi “um dos maiores erros da história do pensamento econômico”. Não é possível ser mais diametralmente oposto que isso. Com o passar do tempo, as discussões ganharam outras nuances. Fama aceitou o argumento de Shiller de que os movimentos de mercado eram mais voláteis que a realidade econômica, mas ele não ‘comprou’ a teoria de que alguém poderia precisar, com certeza, o momento em que mercado está fora de ordem. E Shiller continuou a acreditar no valor do mercado financeiro. Ele claramente pensa que o mercado acerta em algumas coisas. Mas eles ainda são dois estudiosos brigando sobre o que a precificação de ações no mercado representa, o que faz com que a decisão de dividirem o prêmio seja muito estranha.

Será que, de alguma forma, Lars Hansen é a conexão entre ambos?

O trabalho de Hansen é uma maneira de enxergar algum tipo de síntese entre Shiller e Fama. Ele não é ‘a’ conexão entre eles, mas ‘uma’ conexão. E acredito que ao incluí-lo na premiação, o Comitê torna possível para a nova geração de economistas acreditar que está construindo algo, e não escolhendo de qual lado ficar.

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Prever a oscilação de uma ação é o foco das três teorias. E a complexidade dos instrumentos financeiros criados nos últimos anos, sobretudo os derivativos, torna essa tarefa cada vez mais difícil. É possível, portanto, que a racionalidade comece a desaparecer em meio ao caos dos mercados?

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Há muitas questões envolvendo isso. Uma é se prever o comportamento do mercado é, de fato, um objetivo realista para a maior parte dos investidores. Fama diria que não – e Shiller concordaria com ele, em grande parte. Outro ponto é o que faz com que os preços no mercado financeiro estejam próximos do que é certo para um determinado ativo. Na opinião de Fama, os que fazem esse trabalho são os custos de transação e a falta de transparência. Já Shiller colocou muito mais peso na emoção humana e no erro. Se Fama estivesse certo, os cortes nos custos de transação e o aumento da transparência nas informações teriam tornado o mercado mais eficiente. E eu não creio que exista alguma evidência de que os mercados estão mais eficientes hoje do que estavam vinte ou trinta anos atrás. E se alguém perguntar a Shiller como ele poderia melhorar o mercado, a maior parte de suas sugestões teria de estar relacionada ao aumento do fluxo de informações e à criação de mecanismos mais baratos de controle de riscos. Ou seja, ambos dividem o mesmo paradigma.

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