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A decisão nos EUA que vai afetar o dólar em todo o mundo

Reunião que define a taxa de juros deve sinalizar mais injeção de dinheiro na economia, mas os efeitos dessas medidas podem trazer grandes danos econômicos

Por Luisa Purchio Atualizado em 11 jun 2020, 18h10 - Publicado em 10 jun 2020, 11h30

As sucessivas medidas econômicas do governo Trump para conter os danos do coronavírus na economia americana e a instabilidade social no país acenderam o sinal amarelo para o derretimento do dólar em todo o mundo. Como exemplo, desde 13 de maio, o real ganhou 15% de valor frente à moeda americana — hoje está sendo negociada a 4,90 reais. Para o segundo semestre de 2020, já foi aprovada uma injeção de exorbitantes 2,9 trilhões de dólares (o equivalente hoje a 14,21 trilhões de reais) em pacotes de estímulo à economia. Para se ter ideia, o PIB do Brasil em todo o ano de 2019 foi de 7,3 trilhões de reais, quase a metade do tamanho do estímulo americano. Por isso, o mercado aguarda ansioso o encerramento da reunião do FOMC, o grupo do Federal Reserve que dispõe sobre as taxas de juros e a oferta de dinheiro nos Estados Unidos, que deve ocorrer na tarde desta quarta-feira, 10. A expectativa em si não é sobre os juros, que devem manter a estabilidade (entre 0,25% e 0%, a faixa atual). O que motiva o mercado é o discurso do presidente do Fed, Jerome Powell, com sinalizações de que altas quantias de dinheiro ainda serão disponibilizadas para os investidores em compras de títulos da dívida pública e privada.

Apesar desse remédio paliativo ser importante para manter saudável a economia dos Estados Unidos, devorada pelo vírus, ele pode aumentar demais a temperatura e desencadear perigosos efeitos colaterais. A economia é um organismo vivo e acertar a dose exata dos remédios receitados é fundamental para não desequilibrar o sistema. Injetar grandes somas de dólar desestabiliza, por exemplo, o vital equilíbrio do sistema de oferta e procura, podendo levar à inflação. O mecanismo vem sendo adotado pelo governo Trump mesmo antes da pandemia, em uma reversão da tendência de ajuste fiscal de Obama. Com o aumento dos gastos públicos despendidos na crise da Covid-19 e a queda na arrecadação fiscal, o déficit fiscal do país crescerá, um importante indicador da sua salubridade.

Apesar dos riscos, o corpo americano é suficientemente forte para aguentar o tranco dessas injeções. Como o dólar é a principal moeda de reserva do planeta, correspondente a aproximadamente 80% de todas as transações internacionais, ela encontra em seu caminho canais suficientes para absorvê-lo. “É como se o país fosse um grande exportador de dinheiro e os importadores estivem espalhados em todo o mundo”, diz André Sacconato, sócio da consultoria Integrare e consultor econômico da Fecomercio. Se por um lado todas as moedas de emergentes, exceto a Turquia, tiveram essa dinâmica, por outro a depreciação no dólar não foi aguda, uma vez que a demanda dos investidores acaba compensando o aumento da oferta. A do Brasil, por exemplo, caiu 18%, de 5,93 reais em 14 de maio para o valor atual, de 4,90 reais.

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Apesar de a poupança pessoal ter se ampliado significativamente no período da pandemia devido ao desemprego e ao receio da população, o que aumenta o dinheiro disponível em caixa, a principal preocupação é que ela não seja suficientemente ampla para superar o déficit dos EUA, que cresceu 5,7 vezes em abril em relação ao do primeiro quadrimestre do ano. “O superávit vai ser muito pequeno em relação ao montante total do déficit e terá de utilizar muita emissão monetária para compensar os gastos”, diz Sacconato.

O Escritório de Orçamento do Congresso americano prevê que os déficits orçamentários do governo podem disparar para 17,9% do PIB americano em 2020. Dessa forma, a poupança doméstica, impactada principalmente pela poupança do governo, pode ser negativada em recordes inéditos, de -5% a -10% da renda nacional. “O crescimento do déficit nos Estados Unidos não assusta, porque não há aumento no risco de calote, como acontece em emergentes. Os países ricos levam isso muito a sério para não afugentar os investidores”, diz Paulo Feldmann, professor de economia da USP.

Apesar das previsões otimistas, há um risco latente, tão certo como a morte: como todo organismo vivo, a economia americana tem limites e seu vigor dependerá da extensão da pandemia no país. Enquanto o mundo torce pelo surgimento da vacina, os investidores contam com os eficientes e já provados remédios da política monetária americana, que desde a II Guerra Mundial e o plano Marshall, garantem a hegemonia do dólar.

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