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Enquanto esperam Bolsonaro, caminhoneiros sobem o tom por paralisação

Entidade pede unificação da categoria por suspensão das atividades no dia 1º de novembro; presidente chegou a convocar reunião para dia 28, mas desmarcou

Por Felipe Mendes Atualizado em 22 out 2021, 19h57 - Publicado em 22 out 2021, 17h54

A paralisação esvaziada dos caminhões-tanque em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, que durou pouco mais de um dia e encerrou-se nesta sexta-feira, 22, evidenciou a necessidade de uma pauta unificada para os caminhoneiros. Nesse sentido, a Associação Brasileira de Condutores de Veículos Automotores, a Abrava, intensificou o contato com os demais representantes da classe para realizar um protesto em larga escala pelo país no dia 1º de novembro. A pressão parece ter surtido efeito. A Casa Civil, a mando do presidente Jair Bolsonaro, convocou líderes da categoria e o representante da Frente Parlamentar Mista dos Caminhoneiros Autônomos e Celetistas, o deputado Nereu Crispim (PSL-RS), para uma reunião no dia 28 de outubro. Mas, pouco tempo depois, a conversa foi desmarcada.

O aceno é simbólico. O governo preocupa-se com os efeitos colaterais de uma eventual greve da categoria e tem interesse em apaziguar os ânimos dos caminhoneiros, mas, segundo os representantes da categoria, não se esforça o bastante para tal. A Abrava, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística (CNTTL) e o Conselho Nacional do Transporte Rodoviário de Cargas (CNTRC) deram um ultimato de 15 dias, que vence ao fim de outubro, para o governo propor soluções. Caso contrário, a greve será mantida e promete arrasar com as projeções de crescimento da economia. “Nós estamos conversando com o pessoal. A gente deu a nossa palavra para os estados de que não faríamos greve até o fim do mês. Demos um prazo de 15 dias para o governo se manifestar”, diz Wallace Landim, conhecido como Chorão, o presidente da Abrava.

A classe reivindica que o governo apresente soluções para mitigar o aumento no preço-base do diesel, que foi reajustado pela Petrobras recentemente, e que haja fiscalização para os reparos na tabela de frete. Por lei, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) deve reajustar a tabela a cada seis meses ou quando a variação do preço do diesel for igual ou superior a 10%. Depois de reclamações da categoria, a ANTT publicou nesta quinta-feira, 21, uma portaria que reajusta a chamada tabela de frete mínimo rodoviário entre 4,5% e 5,9%. No ano, o preço médio do diesel vendido pela Petrobras em suas refinarias valorizou-se mais de 50% — a última atualização da petroleira veio no fim de setembro, uma alta de 9% no preço médio do combustível, após 85 dias de estabilidade.

Para Chorão, se não houver acordo com o governo, a greve será inevitável e reunirá, inclusive, apoiadores de Bolsonaro. “Em alguns estados, mesmo os caminhoneiros a favor do presidente vão parar, porque também não concordam com a situação que a gente está vivendo. E essa nossa luta não tem bandeira política. Não é contra o presidente, nem a favor”, diz ele. “Nós somos a favor de lutar pela nossa dignidade, pela nossa demanda, pelas nossas leis, que a gente conquistou e que não estão sendo cumpridas.”

Uma das questões prementes para a categoria é o fim do Preço de Paridade de Importação (PPI), cálculo implementado pela Petrobras em 2016 e que considera quatro elementos centrais na definição dos preços: a variação internacional do barril do petróleo; as cotações do dólar; os custos de transporte; e uma margem imposta pela companhia. “Nós estamos numa situação em que vendemos em real e compramos o combustível em dólar. Por isso, estamos cobrando que o governo realmente elimine o PPI. Estamos trabalhando com a nossa Frente Parlamentar para encontrar uma solução de implementação rápida e concreta”, diz.

O Projeto de Lei 750/21 é a alternativa proposta via Congresso mais defendida pela categoria. De autoria do deputado Nereu Crispim, a proposta inclui a criação de um Fundo de Estabilização dos Preços dos Derivados do Petróleo (FEPD), tendo como fonte a arrecadação do imposto de exportação de petróleo bruto. Outro projeto defendido por Chorão é o PL 3491/21, de autoria do deputado Fausto Pinato (PP/SP). A ideia de Pinato é criar um fundo semelhante ao sugerido por Crispim, mas com recursos financiados pelos lucros do Banco Central. “É um projeto para criar esse colchão em cima do rendimento do Banco Central, que tem 350 bilhões de dólares aplicados lá fora”, diz Chorão. “Não é simples, mas tem como fazer. O governo precisa decidir se fica do lado dos acionistas da Petrobras ou da classe trabalhadora e da população”.

Fora isso, a categoria convive com o risco de desabastecimento dos combustíveis. Nesta semana, a Petrobras comunicou que, devido à “demanda atípica”, não poderá atender todos os pedidos de fornecimento de combustíveis para novembro, que teriam vindo acima de sua capacidade de produção. O anúncio acendeu um alerta para as distribuidoras, que apontaram para risco de desabastecimento no país. No fim das contas, o receio é de que, com o combustível mais escasso, o valor na bomba dispare ainda mais.

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