Emprego forte esconde desaceleração da economia, alertam economistas
PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, menos da metade do avanço do início do ano
A economia brasileira perdeu velocidade no segundo trimestre, mas o mercado de trabalho continua aquecido.
O PIB cresceu 0,5% entre abril e junho, menos da metade do avanço de 1,1% registrado nos três primeiros meses do ano.
No mesmo período, a taxa de desemprego permaneceu em patamar historicamente baixo e chegou a 5,3% no trimestre encerrado em agosto, segundo o IBGE.
A combinação dificulta a leitura sobre os próximos passos dos juros. A atividade mais fraca tende a reduzir as pressões inflacionárias, mas emprego e renda ainda sustentam a demanda e podem manter os preços de serviços resistentes.
O Banco Central reduziu a Selic para 13,75% ao ano em setembro, em dois cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual.
Na ata do Copom, o comitê afirmou que os indicadores apontam para uma moderação gradual da atividade, principalmente nos setores mais cíclicos, mas classificou o mercado de trabalho como aquecido.
Emprego reage depois da atividade
A diferença entre os indicadores é explicada, em parte, pela defasagem entre a atividade e o mercado de trabalho. Empresas costumam reduzir investimentos e novas contratações antes de cortar postos de trabalho.
“O desemprego em 5,3% mostra que o mercado de trabalho ainda resiste à desaceleração, mas dificilmente ficará imune por muito tempo”, afirma Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos. Segundo ele, a perda de ritmo tende a aparecer primeiro nas contratações e na renda e, posteriormente, na taxa de desemprego.
Os dados mais recentes do IBGE mostram que o rendimento médio real habitual chegou a R$ 3.777 no trimestre encerrado em agosto. A taxa de desemprego, de 5,3%, ficou 0,3 ponto percentual abaixo da registrada três trimestres antes e também 0,3 ponto abaixo da taxa de um ano antes.
O cenário ainda é de baixa ociosidade no mercado de trabalho.
Em seu relatório de política monetária de junho, o BC havia apontado que a taxa de desocupação estava no mínimo histórico e que o crescimento do emprego formal superava o avanço da população em idade de trabalhar.
A autoridade monetária projetava, ao mesmo tempo, uma redução gradual do hiato do produto à medida que os efeitos da política monetária restritiva se propagassem pela economia.
Renda e produtividade
O ponto de atenção para a inflação está na relação entre salários e produtividade. Quando a remuneração cresce mais rapidamente que a produção por trabalhador, empresas de setores intensivos em mão de obra podem enfrentar aumento de custos e repassar parte deles aos preços.
“O ponto de atenção está na renda: ela ainda cresce 3,7% em termos reais, e o Banco Central afirma que esse avanço permanece superior ao da produtividade”, diz Caio Mazzuchelli, CEO da You Lead.
Esse mecanismo é particularmente relevante para os serviços, em que a mão de obra representa parcela importante dos custos. Por isso, um mercado de trabalho apertado pode fazer com que a inflação demore mais a convergir para a meta mesmo quando o PIB perde força.
O próprio Copom afirmou em setembro que a atividade econômica apresenta moderação gradual, mas destacou a necessidade de cautela diante das incertezas e dos riscos em torno do cenário de inflação.
A projeção do BC no Relatório de Política Monetária de setembro aponta IPCA de 5,2% em 2026 e 3,9% em 2027 no cenário de referência.
A desaceleração do PIB, portanto, não produz automaticamente espaço para uma redução rápida dos juros. Para o BC, será necessário observar se a perda de ritmo da atividade também chegará ao mercado de trabalho e reduzirá as pressões sobre salários e serviços.
Para as empresas, o ajuste pode aparecer antes nas contratações do que nas demissões.
Menor abertura de vagas, redução de horas extras e maior investimento em automação são mecanismos que podem permitir uma desaceleração do custo da mão de obra sem aumento imediato do desemprego.
A combinação entre atividade mais fraca e emprego ainda resistente deve ser, assim, um dos pontos centrais do debate econômico nos próximos meses. O PIB já mostra os efeitos de uma política monetária restritiva, mas o mercado de trabalho ainda não deu o mesmo sinal de enfraquecimento.





