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Em um ano de juros altos e desafios geopolíticos, a solidez é o destaque das campeãs

Ranking de VEJA Negócios, desenvolvido em parceria com a Austin Rating, avalia os balanços dos últimos quatro anos em 30 categorias

Por Ernesto Yoshida 28 ago 2026, 05h30
Em um ano de juros altos e desafios geopolíticos, a solidez é o destaque das campeãs Priorizar nos meus resultados Google

Uma empresa pode encerrar um ano com resultados excepcionais e, ainda assim, revelar fragilidades quando observada em perspectiva. O inverso também é verdadeiro: um exercício ruim, provocado por choques conjunturais, não apaga necessariamente uma trajetória sólida. É justamente para distinguir desempenho episódico de consistência que o ranking das TOP30 — que aponta as melhores empresas em trinta setores da economia brasileira —, elaborado pela Austin Rating com exclusividade para VEJA Negócios, acompanha as companhias ao longo de quatro anos. “Ser uma TOP30 não significa que a empresa foi melhor que todas numa única fotografia”, diz Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating. “Ela foi melhor no desempenho histórico, na composição desse filme de quatro anos, nos sete indicadores, no conjunto da obra.” Em relação à edição do ano passado, o período de análise passou de três para quatro anos e a receita líquida mínima exigida subiu de 100 milhões para 500 milhões de reais.

E o filme de quatro anos revelado pela Austin Rating é o de um conjunto de empresas que se expandiu, mas perdeu fôlego pelo caminho. Entre 2022 e 2025, o ativo total da amostra cresceu 23,4%, para 9,5 trilhões de reais, enquanto o patrimônio líquido avançou 16,3%, para 3,5 trilhões. A receita conjunta aumentou 12,5%, para 4,9 trilhões de reais. O lucro, porém, caiu de 636 bilhões de reais em 2022 para 393 bilhões em 2024, antes de se recuperar 32,3% no ano passado, para 520 bilhões — ainda 18,2% abaixo do nível de 2022. É uma trajetória, portanto, marcada por expansão, perda de rentabilidade e reação.

PUC-Campinas, a vencedora na categoria educação: bons números e ensino de qualidade
PUC-Campinas, a vencedora na categoria educação: bons números e ensino de qualidade (./Divulgação)

Os indicadores por trás dessa trajetória mostram o grau de dificuldade enfrentado pelas companhias brasileiras nos últimos anos. A margem líquida da amostra não financeira caiu de 14,6% em 2022 para 8,6% em 2024, antes de se recuperar para 10,6% no ano passado. A rentabilidade sobre o patrimônio recuou de 21,4% para 11,7% e voltou a 15,1% em 2025.

É fácil entender os motivos que levaram a esse cenário. Os juros elevados foram um dos principais obstáculos. Ao encarecerem o capital de giro, o financiamento da produção e novos projetos, eles tornaram as empresas mais seletivas na hora de investir. A mediana do endividamento, próxima de 143% do patrimônio líquido de 2022 até 2024, subiu para 153,4% em 2025 — movimento que, para Agostini, é compatível com custos financeiros maiores e não representa, no agregado, sinal de deterioração preocupante.

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O mesmo cenário atingiu o sistema financeiro, que integra pela primeira vez o ranking TOP30 de VEJA Negócios, mas é analisado separadamente porque seus indicadores não são comparáveis aos das demais empresas. Em vez de receita líquida, considera-se a receita de intermediação financeira. No lugar do endividamento, é calculado o índice de eficiência bancária. O ativo dos bancos de varejo passou de 9,5 trilhões de reais em 2022 para 12 trilhões em 2025. No ano passado, porém, o lucro praticamente estacionou, com recuo de 0,2%, enquanto a receita de intermediação financeira cresceu 10,1% e a margem líquida caiu de 10,2% para 9,2%. Para Agostini, o desempenho reflete uma concorrência mais ampla, com bancos digitais, fintechs e cooperativas de crédito — não uma perda de relevância das grandes instituições, mas a modernização de um sistema financeiro que segue central para a economia.

Gráfico de barras com os destaques setoriais de 2022 a 2025. Ativo Total: Meios de pagamento (10,6%), Saneamento (10,5%), Serviços (9,0%). Patrimônio Líquido: Bens de consumo (12,1%), Agronegócio (9,2%), Bioenergia (8,4%). Receita Líquida: Serviços (15,5%), Construção (12,6%), Adm. bens e empreend. imob. (12,3%). Lucro Líquido: Transporte e logística (115,3%), Construção (45,9%), Veículos e autopeças (19,8%)

Nas empresas vencedoras, o aperto se traduziu de formas diferentes. Na Natura, primeira colocada em bens de consumo, a conjuntura apareceu no comportamento dos consumidores. Segundo João Paulo Ferreira, presidente da empresa, a redução da renda disponível das famílias pressionou o consumo e levou a companhia a ajustar portfólio e comunicação, direcionando lançamentos para categorias e faixas de preço de maior giro. A Natura entrou em 2025 com balanço sólido e dívida alongada, o que permitiu preservar investimentos. “Estamos fazendo investimentos que nos permitirão crescer de forma sustentada tão logo o mercado volte a expandir”, afirma Ferreira. A companhia registrou, ainda assim, prejuízo líquido de 1,46 bilhão de reais em 2025 — foi uma baixa contábil não recorrente ligada ao desinvestimento na Avon Internacional, e não a um problema operacional, segundo a empresa. É esse tipo de evento pontual que a metodologia de quatro anos procura diluir: apesar do prejuízo, a Natura seguiu vencedora pela consistência de seu desempenho no período analisado pela Austin Rating.

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Para João Marcelo Dumoncel, presidente da 3tentos, vencedora no agronegócio, os juros foram o obstáculo mais imediato — mas não o único. A eles se somam a complexidade tributária, as exigências regulatórias e a burocracia. “Empreender no Brasil hoje não é para qualquer um. Tem que ter uma boa dose de coragem e teimosia”, afirma. Ferreira, da Natura, compartilha parte desse diagnóstico e defende previsibilidade regulatória, simplificação tributária, juros menores e estímulo à inovação. Para ele, a reforma tributária é um avanço, mas a queda sustentável dos juros depende de “um ajuste fiscal consistente que enderece de forma perene o desafio das contas públicas”.

No setor de infraestrutura, a previsibilidade das regras pesa tanto quanto o custo do dinheiro. Para Carlos Piani, presidente da Sabesp, vencedora em saneamento, juros altos afetam diretamente o custo de um programa de investimentos de mais de 70 bilhões de reais até 2029. Mas, numa concessão de 35 anos, diferentes ciclos econômicos são inevitáveis, especialmente em um país como o Brasil. Se a regra do jogo não for robusta, estável e previsível, diz Piani, a empresa terá mais dificuldade para lidar com as oscilações dos juros. Para ele, regras consistentes dão segurança para decisões de investimento de longo prazo.

Algumas empresas atravessaram o ambiente desafiador em condições melhores — e os números mostram a distância entre elas e o restante da amostra. Consideradas as 29 vencedoras não financeiras, a receita líquida totalizou 369 bilhões de reais e o lucro líquido foi de 91,7 bilhões em 2025. Representaram apenas 7,5% da receita da amostra, mas concentraram 17,6% do lucro. Consideradas em conjunto, as 29 vencedoras não financeiras registraram uma margem líquida de 24,8%, ante 10,6% na amostra, e retorno sobre o patrimônio de 26,3%, comparado com 15,1% do restante das empresas — sinal de que as vencedoras se destacaram não apenas pela escala, mas também pela capacidade de transformar vendas e capital próprio em resultado financeiro positivo.

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Fábrica da WEG em Jaraguá do Sul (SC): a empresa tem bons resultados há muitos anos
Fábrica da WEG em Jaraguá do Sul (SC): a empresa tem bons resultados há muitos anos (Chan WEART/Divulgação)

Ao considerar quatro exercícios fiscais, o ranking reduz o peso de eventos pontuais e busca captar a qualidade da gestão ao longo do tempo: um prejuízo ou ganho excepcional em um único ano não basta para definir a posição de uma empresa. Nos últimos anos, os desafios não vieram apenas da economia doméstica. Tensões geopolíticas, mudanças nas relações comerciais e riscos nas cadeias de abastecimento passaram a ocupar espaço crescente nas decisões empresariais, já que variações cambiais, preços de matérias-primas e custos logísticos podem alterar rapidamente as premissas de um investimento.

Para Ariel Montenegro, presidente da Renault Geely do Brasil, vencedora em veículos e autopeças, 2025 reuniu pressões externas e mudanças internas. “O ano apresentou muitos desafios geopolíticos”, afirma. Segundo ele, as tensões internacionais tiveram reflexos sobre o câmbio, as matérias-pri­mas e a logística. No Brasil, a chegada de novos concorrentes, especialmente os chineses, a preparação para a reforma tributária e outras mudanças regulatórias também passaram a pesar nas decisões de investimento.

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É nesses períodos que as diferenças de estratégia e execução se tornam mais visíveis. Empresas com escala, acesso diversificado a financiamento, marcas fortes e capacidade de adaptação dispõem de mais instrumentos para absorver choques sem muitos sobressaltos. Na avaliação de Dumoncel, da 3tentos, essa capacidade começa por uma questão básica. “A empresa tem que entregar soluções, produtos ou serviços que o cliente realmente precise e valorize”, afirma.

As trinta vencedoras chegaram ao primeiro lugar por caminhos diferentes: em alguns setores, pesou a escala. Em outros, a capacidade de elevar margens, ganhar produtividade, integrar aquisições ou explorar novos mercados. Num ambiente em que as condições de negócios mudam rapidamente, a melhor empresa não é necessariamente a que brilhou numa única fotografia, mas aquela que consegue continuar investindo, adaptar a estratégia e chegar ao fim de quatro capítulos com uma história coerente e bons resultados a comemorar.

O cálculo da excelência

A metodologia da Austin Rating combina porte e desempenho para avaliar as empresas ao longo de quatro anos

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O ranking das TOP30 é elaborado pela Austin Rating a partir de uma base própria com informações de mais de 10 000 empresas por ano. Os dados são obtidos de balanços financeiros e demonstrações de resultados públicos, sem uso de projeções. São considerados apenas os resultados individuais das empresas, ficando de fora balanços consolidados, combinados e de holdings multissetoriais.

A edição de 2026 analisa os indicadores financeiros de 2022 a 2025. O período de quatro anos busca reduzir o peso de eventos pontuais — como fusões e aquisições — e avaliar a consistência das empresas diante de diferentes condições econômicas, setoriais, de custos e de demanda.

O ranking final resulta da pontuação de cada empresa elegível em indicadores de porte e desempenho financeiro. Os indicadores de porte, com peso de 70%, são receita líquida, ativo total e patrimônio líquido. Os de desempenho, com peso de 30%, são lucro líquido, ROE (sigla em inglês para retorno sobre o patrimônio), margem líquida e endividamento.

Nos bancos de varejo, devido às particularidades da atividade, a receita líquida é substituída pela receita de intermediação financeira e o endividamento, pelo índice de eficiência bancária.

O que mudou em 2026

Em relação à edição anterior, o período de análise passou de três para quatro anos e a receita líquida mínima exigida subiu de 100 milhões para 500 milhões de reais. A nova linha de corte reduziu a amostra de alguns setores e levou a uma reorganização para manter trinta segmentos. O setor de alimentos e bebidas foi desmembrado em dois; empresas de plásticos e borracha foram incluídas em química e petroquímica; foi criada a categoria administração de bens e empreendimentos imobiliários, com empresas que antes estavam em construção; bancos de varejo entraram no ranking; e o setor de açúcar e álcool foi renomeado para bioenergia.

Quem pode participar

Para entrar no ranking, a empresa precisa:

1. Ter publicado balanços de 2022, 2023, 2024 e 2025;
2. Apresentar patrimônio líquido positivo;
3. Ter receita líquida superior a 500 milhões de reais.

Indicadores avaliados

Indicadores de porte (peso de 70%):
Receita líquida
Ativo total
Patrimônio líquido

Indicadores de desempenho (peso de 30%):
Lucro líquido
ROE (retorno sobre o patrimônio líquido)
Margem líquida
Endividamento

Publicado em VEJA, agosto de 2026, edição VEJA Negócios nº 29

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