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Em relatório sobre sua gestão, Mantega mostra tudo — menos os erros

Ministro da Fazenda mais longevo do período democrático publica documento em que exalta seus feitos na economia brasileira e diz que a culpada pela inflação é a estiagem

Por Ana Clara Costa Atualizado em 10 dez 2018, 10h49 - Publicado em 30 dez 2014, 17h59

O ministro da Fazenda Guido Mantega vinha trabalhando ao longo dos últimos meses num relatório detalhado sobre sua gestão no governo desde 2003, ano em que assumiu como Ministro do Planejamento – o economista tornou-se chefe da Fazenda apenas em 2006, após a saída de Antonio Palocci. O documento de 140 páginas foi publicado nesta terça-feira e pode ser lido aqui. Nele, o ministro enaltece as transformações econômicas conduzidas pelos governos petistas e resume as dezenas de pacotes lançados por sua equipe ao longo dos oito anos em que foi ministro da pasta. A maior parte deles, a partir de 2011. Segundo o texto assinado pelo próprio ministro, os percalços que vêm sendo enfrentados pelos brasileiros se devem à “seca prolongada” iniciada em 2012. É ela, diz Mantega, que causou a pressão inflacionária que vemos hoje. A seca, segundo ele, explica o fato de a inflação se manter acima do teto da meta de 6,5% mesmo com sucessivas elevações nos juros e arrefecimento do consumo. O ministro também atribui à retirada dos estímulos monetários nos EUA a culpa pela crise brasileira e diz que estes e outros “problemas conjunturais, que apareceram nos últimos dois anos, são superáveis”.

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Em sua argumentação, o ministro lança mão de uma série de tabelas para mostrar a melhora dos indicadores sociais e econômicos ao longo dos últimos doze anos, como se as três gestões petistas tivessem sido, de alguma forma, coerentes entre si. Há comparações diversas entre dados de 2003 e 2005 com os atuais, mostrando evidente melhora. Tal malandragem acaba deixando no escuro uma década de intervalo em que o Brasil atingiu o céu e, em seguida, deu sinais de adentrar o purgatório. Em suma, Mantega compara o Brasil de 2014 com o de 2003 – truque parecido com o que a presidente Dilma levou adiante durante sua campanha para a reeleição. A tática funcionou no campo eleitoral – ela, afinal, foi reeleita. Mas, no dia seguinte, o marketing acabou perdendo espaço para a realidade e a presidente se viu obrigada a voltar atrás em praticamente todas as políticas executadas por seu ministro da Fazenda. Uma das primeiras mudanças foi tirar Mantega. O novo chefe da pasta, Joaquim Levy, faz parte da turma ortodoxa que integrou o primeiro governo Lula – e se opõe publicamente aos caminhos econômicos traçados nos últimos anos. Dilma, até agora, tem dado carta branca ao subordinado. Não à toa, a presidente nem mesmo tomou posse e já autorizou mudanças nas regras dos benefícios previdenciários, que revertem ganhos do trabalhador.

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O documento repete a teoria defendida por Mantega desde que o PIB virou pibinho: a de que os problemas que atingiram a economia brasileira são essencialmente “importados” – ou seja, nada têm a ver com a má condução da política econômica doméstica. Para isso, o relatório mostra um gráfico com o desempenho das economias desenvolvidas e emergentes, composto por países como Estados Unidos e China. A curva de desaceleração é evidente após a crise financeira, mas também se nota a tendência de recuperação dessas economias. Deste gráfico, o Ministério da Fazenda excluiu o Brasil. Ocorre que, ao comparar a curva de crescimento da economia brasileira com a dos demais países, toda a retórica do ministro seria desfeita. A evolução do PIB brasileiro vem muitas páginas adiante, sem comparação com qualquer outro país. Ela mostra uma acentuada curva de desaceleração – mais intensa que nos países desenvolvidos e nos demais emergentes – sem tendência de recuperação. A expectativa da pasta é de que em 2014 o crescimento não passe de 0,2%. Enquanto o texto relata perspectivas de melhora para a economia dos demais países em 2015, não dá previsões sobre o PIB do Brasil no ano que vem. Segundo o último boletim Focus, a perspectiva é de alta de 0,5%. Para os países europeus, o FMI prevê crescimento de 1,3%, enquanto para os Estados Unidos, a alta deve ser de 3,1%.

A astúcia nas comparações numéricas para tentar minimizar o fracasso das políticas de governo poderia ter sido usada de forma mais virtuosa: para assumir caminhos errados e desejar sorte à nova equipe econômica para o ano de ajustes que virá. Não foi o caso. O ministro encerra seu mandato dizendo que o Brasil se tornou uma economia mais confiável justamente no período em que o país corre o risco de ser rebaixado pelas agências de classificação de risco – aquelas que medem a confiança que os investidores podem depositar numa economia com base em seus indicadores, como o superávit primário. Se ainda fosse ministro, Mantega teria colocado mais uma nuvem carregada de dúvidas sobre o segundo mandato de Dilma ao divulgar o relatório desta terça. Como não é o caso, as palavras soam apenas como relato enviesado.

Veja a retrospectiva econômica de 2014:

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