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Em primeira reunião do ano, Copom eleva Selic a 10,50%

Trata-se da sétima elevação consecutiva do juro básico da economia desde o início do ano passado

Por Talita Fernandes 15 jan 2014, 19h07

O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) aumentou em 0,50 ponto porcentual, para 10,50% ao ano, a taxa básica de juros (Selic) nesta quarta-feira, em decisão unânime, sem viés – ou seja, a decisão é válida até o próximo encontro, em fevereiro de 2014. Trata-se da sétima elevação consecutiva do juro básico da economia desde o início do ano passado. A trajetória de alta teve início em abril, quando a autoridade monetária subiu a Selic de 7,25% (mínima histórica) para 7,5%. As previsões sobre a decisão desta quarta dividiram analistas, que também apostavam em elevação de 0,25 ponto porcentual, aguardando uma redução no ritmo de alta. Trata-se da maior taxa de juros desde janeiro de 2012.

Votaram por essa decisão o presidente do BC, Alexandre Tombini, e os diretores Aldo Luiz Mendes, Altamir Lopes, Anthero de Moraes Meirelles, Carlos Hamilton Vasconcelos Araújo, Luiz Awazu Pereira da Silva, Luiz Edson Feltrim e Sidnei Corrêa Marques.

Assim como no encontro do Comitê em dezembro, o comunicado divulgado junto com a nova taxa não deu qualquer sinalização sobre as razões que nortearam a decisão. Houve apenas uma pequena mudança: o documento informa que, o BC optou pela elevação da taxa “neste momento”.

Para a analista da Tendências Consultoria Alessandra Ribeiro, a manutenção do ritmo de aperto monetário – de 0,5 p.p. – foi motivada pelo cenário inflacionário e pelo câmbio. “A trajetória do câmbio continua uma grande incógnita. Ela segue pressionada e os riscos são de uma depreciação maior do real. Além disso, pesa a inflação, cuja piora vista em 2013 já refletiu na mudança de expectativa do Focus”, afirma.

Na última sexta-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que a inflação oficial encerrou o ano passado com alta de 5,91%. O dado veio acima da expectativa do mercado, de 5,74%, e da meta informal do BC, que vinha prometendo que o indicador ficaria abaixo do visto em 2012, de 5,84%. A divulgação do dado de 2013 já pesou na estimativa dos analistas para o IPCA este ano: que passou de 5,97% para 6%.

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Embora alguns analistas esperassem uma diminuição do ritmo de alta da Selic na primeira reunião do ano, Alessandra acredita que a autoridade monetária deixou o tema “no ar” em seus últimos comunicados ao mercado, como ata do Copom e Relatório de Inflação. “Não houve, de fato, um comprometimento de redução do ritmo. O BC só abriu espaço para isso”.

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A estratégia da autoridade monetária, segundo analistas, é deixar o caminho aberto para novas subidas, como forma de tentar conter o ímpeto inflacionário. Contudo, apenas a ação do BC não se mostra suficiente diante da ineficácia das inúmeras medidas antiinflacionárias adotadas pelo governo ao longo de 2013, como a redução da conta de luz e os tímidos reajustes nos preços dos combustíveis. No lado fiscal, nenhum ajuste relevante foi implementado como forma de reduzir o consumo do governo e, consequentemente, a pressão sobre os preços.

Alessandra acredita que, ainda que os efeitos do aperto monetário de 2013 impactem a economia em 2014, devido à ação retardada da alta dos juros sob a inflação, o IPCA não deverá ceder. “A política monetária age com uma defasagem mesmo. É esperada alguma desaceleração dos preços livres para este ano. Mesmo assim, estimamos IPCA em 6% para 2014”, afirma.

Paulo Gala, estrategista da Fator Corretora, acredita que a opção por alta de 0,5 p.p. tenha acontecido em um cenário de credibilidade abalada do BC, depois que a meta prometida pelo presidente da autoridade monetária, Alexandre Tombini, não foi alcançada. Tombini disse várias vezes ao mercado que entregaria no ano passado uma inflação menor do que apurada em 2012 (5,84%). “O cenário realmente justificaria qualquer um dos movimentos”, comenta. Os sinais de arrefecimento da atividade econômica nos últimos trimestres do ano passado, para ele, poderiam justificar um aperto menor, de 0,25 p.p.

Juros baixos não vingaram – O governo Dilma terminou seu terceiro ano com um gosto amargo no que se refere à política monetária. Depois de ‘tratorar’ o BC para forçar a redução dos juros ao patamar de 7,25% em 2012 – e também induzir os bancos privados e estatais a reduzir suas taxas, usando como veículo o Banco do Brasil – a presidente terminou 2013 com um verdadeiro choque de realidade. Juros baixos são resultado de política monetária consistente, com inflação no centro da meta, estabilidade cambial e contas públicas ‘saudáveis’, sem maquiagens. Hoje, não há vestígio de nenhum desses pilares.

O ajuste fiscal – uma das ferramentas mais eficazes (e impopulares) de conter o avanço inflacionário, já que resulta em cortes de despesas do governo – está fora da cartilha do ministro da Fazenda, sobretudo porque pode resultar em desaceleração da economia num período em que o crescimento está distante do esplendor. Tal alternativa se torna ainda menos factível às vésperas do pleito eleitoral.

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