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Em nome do PIB, Dilma pede ajuda a empresários

Presidente receberá os principais nomes da indústria em reunião nesta quinta para tentar impulsionar investimentos no setor produtivo

Por Ana Clara Costa, Benedito Sverberi e Luciana Marques 22 mar 2012, 09h10

Esperar que o empresariado ouça promessas e volte a colocar o pé no acelerador seria muita ingenuidade da parte da presidente

Em um momento delicado de conflito com partidos aliados, a presidente Dilma Rousseff deixará de lado as preocupações com o jogo político e, pelo menos por duas horas, se reunirá nesta quinta-feira com a elite do empresariado brasileiro. Em pauta está a tentativa de alinhar as expectativas do governo e do setor produtivo com o objetivo de não deixar a economia titubear em 2012. A desaceleração do Produto Interno Bruto (PIB) em 2011 para 2,7% foi puxada, em grande parte, pelo setor industrial, que cresceu apenas 1,3% no ano. Para o governo, há uma sensação clara de que a indústria freou investimentos a partir do segundo semestre do ano passado e até agora não retomou o ritmo. Segundo projeções da consultoria Tendências, no primeiro trimestre de 2012 a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que mede o avanço do volume de investimentos no país, ficará negativa em 1,3%, ante uma alta de 1,2% no mesmo período do ano passado. Em 2011, a taxa de investimento recuou para 19,3% do Produto Interno Bruto (PIB), ante 19,5% em 2010. Já os investimentos do setor público também desaceleraram de 1,28% para 1,16% do PIB no mesmo período.

Agendada há cerca de 10 dias graças a um esforço político de Jorge Gerdau, presidente do grupo gaúcho que leva seu nome, a reunião foi surpresa para muitos dos empresários convidados. “Recebi o convite um dia antes”, afirma José Antonio Martins, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus (Fabus) e membro do Conselho de Administração da Marcopolo. São esperados cerca de 30 empresários de diversos setores – entre eles, Eike Batista, Abilio Diniz e André Esteves. “Esta é apenas uma primeira reunião na tentativa de construir uma agenda. O objetivo do encontro é somente lançar as bases de algo”, afirma o presidente de uma das companhias representadas na reunião, mas que preferiu não ter seu nome citado.

Uma aproximação entre o governo e a indústria em um momento como o atual não chega a surpreender, tendo em vista que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou em diversas ocasiões as intenções de anunciar medidas de estímulo ao setor produtivo, como forma de combater a “invasão” dos importados – que são os vilões contemporâneos do crescimento, na avaliação do Planalto. A novidade é que os convidados integram outras áreas além da indústria, como o próprio Diniz, em serviços, e Esteves e Roberto Setúbal (Itaú) representando o mercado financeiro. Unem-se ao time a Cosan e a JBS, dos setores de etanol e alimentos, representadas por Marco Lutz e Joesley Batista, respectivamente; além da mineração, com Murilo Ferreira, da Vale.

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O pleito da indústria é antigo e conhecido. A redução da carga tributária – sobretudo nos investimentos -, e a melhora da infraestrutura logística e do ambiente regulatório no país estarão na pauta do encontro. Contudo, a intenção da Fazenda ao promover o debate é, mais do que tudo, permitir que a presidente fale. “Os empresários estão reticentes desde o ano passado mais pelo susto do que pela realidade”, disse uma fonte do Planalto. O objetivo da presidente é tranquilizá-los, diz a fonte, para que retomem os níveis de investimento de 2010. Dilma quer convencê-los a ampliá-los ou, nas palavras de um interlocutor, “a fazer a parte deles”.

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Diálogo complexo – Contudo, esse não será um debate fácil. O governo avalia que, com o anúncio do ajuste no orçamento e o monitoramento on-line de obras, por exemplo, ele já está fazendo a sua parte – opinião que não é (nem de longe) compartilhada pelos empresários. “O Plano Brasil Maior foi uma espécie de esboço com medidas interessantes, como a devolução de créditos do PIS/COFINS e o Reintegra. Mas nenhuma dessas medidas foi implementada de forma completa. Umas dependem da operacionalidade, outras, da burocracia, e isso cria um clima de ceticismo e incerteza para a indústria”, afirma o economista Roberto Giannetti da Fonseca, diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Ainda que o diálogo seja unilateral, o avanço nas relações entre indústria e governo é inegável – sobretudo pela presença emblemática do ministro Mantega, que anexou a política industrial para os seus domínios, tirando o poder de decisão do Ministério do Planejamento e Desenvolvimento. “O que há na prática é uma tentativa lenta de construção de uma agenda para o investimento no país. Está em construção porque em uma democracia, ainda mais com a complexidade do Brasil, as pessoas vão percebendo os problemas aos poucos e vão corrigindo lentamente”, afirma o economista Roberto Padovani, da Votorantim Corretora.

Queda da produtividade – Essa lentidão se reflete na demora para se reverter o quadro de perda da produtividade que o Brasil enfrenta. Segundo um estudo da Universidade da Pensilvânia, em 1980, um trabalhador brasileiro produzia em média o equivalente a 21 mil dólares por ano. Em 2008, esse número recuou para 17,8 mil dólares, já descontadas as diferenças cambiais. Segundo o mesmo estudo, dos 150 países pesquisados, o Brasil se encontrava em 130º lugar em produtividade. O resultado é puxado, sobretudo, pelo aumento dos custos de produção. “Isso ocorre em decorrência da mão de obra que está muito mais cara e escassa, do custo de energia que subiu muito e das pesadas despesas com logística. Em resumo, ainda que o câmbio fosse mais favorável, o Brasil continuaria perdendo em competitividade devido a esses gargalos”, afirma Padovani.

Esperar que o empresariado ouça promessas e volte a colocar o pé no acelerador seria muita ingenuidade da parte da presidente. Afinal, os investimentos privados são movidos pela demanda – ou pela expectativa de demanda. Como tal expectativa não está em seus melhores dias, será difícil encontrar um empresário lúcido que coloque em ação um vultoso plano de investimentos diante de um mercado que, talvez, não consiga absorvê-lo. Contudo, ensaiar um trabalho em conjunto entre os setores público e privado não é algo a se recriminar. Contanto que as palavras proferidas se tornem ações em benefício do contribuinte. “Essa reunião deve ser um primeiro passo para se criar um calendário de encontros entre presidência e indústria”, pondera Giannetti da Fonseca. “Não basta ficar no campo das ideias como ocorreu até agora”, diz.

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