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Em meio à crise dos combustíveis, a transição energética fala português

Etanol de cana, de milho e biometano: o Brasil consolida um modelo sustentável

Por Bruno Serapião 31 jul 2026, 05h30
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O surgimento de uma crise pode abrir caminhos para grandes transformações estruturais. Os recentes obstáculos ao fluxo de abastecimento de petróleo aceleraram a discussão sobre como garantir segurança energética em um mundo pressionado por instabilidade geopolítica e pela necessidade de reduzir emissões. Nesse debate, o Brasil ocupa posição singular. Poucos países chegam à transição energética com vantagens naturais, tecnológicas e industriais tão claras. Enquanto parte do mundo ainda busca alternativas viáveis aos combustíveis fósseis, já operamos, há décadas, um modelo de energia renovável em larga escala.

Na Atvos, essa visão se traduz em um modelo integrado. A cana segue como base essencial, pela produtividade, pela maturidade da cadeia e pelo aproveitamento eficiente dos recursos. A próxima etapa da bioenergia brasileira está na integração de diferentes rotas de produção, combinando cana, milho e biometano para reforçar eficiência, competitividade e segurança energética. É a partir dessa visão que estamos ampliando nossa atuação como uma plataforma integrada de biocombustíveis, em que o etanol de milho ganha cada vez mais relevância. No Brasil, esse biocombustível se beneficia do cultivo da segunda safra e do aproveitamento de áreas já consolidadas, com ganhos em eficiência agrícola e melhor uso da terra, além de melhor aproveitamento da estrutura industrial ao longo do ano.

“Desmontamos a dicotomia falsa de produzir energia renovável versus alimentos”

A complementaridade entre cana e milho é parte do que torna nosso modelo tão competitivo e desmonta a falsa dicotomia de que produzir energia renovável significaria competir com a produção de alimentos. A experiência brasileira mostra o contrário.

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Hoje, o país é simultaneamente um dos maiores produtores globais de comida e uma das principais referências em energia renovável. Além disso, 98% da expansão da cana ocorreu sobre áreas agrícolas e pastagens degradadas, sem avanço sobre florestas nativas, de acordo com estudos do Observatório da Cana e Bioenergia e da USP. O modelo também fortalece cadeias produtivas e gera emprego, renda e desenvolvimento regional. Nesse contexto, os biocombustíveis passam a ocupar espaço cada vez mais estratégico na segurança energética global, com potencial de adicionar até 403 bilhões de reais ao PIB de 2030 a 2035, segundo estudo do FGV Agro. A aprovação do etanol de milho como combustível para navios pela Organização Marítima Internacional torna esse cenário mais promissor.

O Brasil chega à transição energética como uma das poucas nações capazes de mostrar, na prática, que descarbonização, segurança energética e produção em massa podem avançar juntas. Esta é a força do modelo brasileiro de bioenergia: transformar inovação e produtividade em uma estratégia de desenvolvimento e competitividade, capaz de combinar geração de renda, eficiência econômica e redução de emissões em larga escala. Talvez porque, há muito tempo, essa transição já fale português.

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Bruno Serapião é presidente da Atvos

Os textos dos colunistas não refletem necessariamente as opiniões de VEJA NEGÓCIOS

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Publicado em VEJA, julho de 2026, edição VEJA Negócios nº 28

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