Em crise cambial, Bolívia recorre ao FMI e fecha acordo de US$ 1,9 bilhão
Pacote marca reaproximação inédita com o Fundo após anos de resistência; programa prevê ajuste fiscal e reforma cambial
A Bolívia fechou um acordo técnico com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para um programa de financiamento de US$ 1,9 bilhão, numa mudança significativa da política econômica do país após anos de resistência à atuação do organismo.
O programa, com duração de 36 meses, ainda depende da aprovação do conselho executivo do FMI, mas representa um marco para o governo boliviano.
Isso porque consolida a adoção de medidas que rompem com o modelo econômico vigente nas últimas duas décadas, como a flexibilização do câmbio e a redução gradual dos subsídios aos combustíveis.
Crise levou governo a buscar ajuda
O acordo é resultado de meses de negociações entre La Paz e o FMI e ocorre após o agravamento da crise cambial boliviana.
Desde 2023, o país enfrenta escassez de dólares, forte redução das reservas internacionais e dificuldades para importar combustíveis.
A deterioração foi agravada pela queda da produção de gás natural, principal produto de exportação boliviano, ao mesmo tempo em que o governo manteve elevados subsídios aos combustíveis, pressionando as contas públicas.
Sem capacidade de financiar esse modelo, o governo iniciou neste ano uma série de mudanças econômicas, incluindo o abandono do câmbio fixo que vigorava havia cerca de 15 anos.
O que prevê o programa
Segundo o FMI, o programa tem três objetivos principais:
Restabelecer a sustentabilidade das contas públicas;
Fortalecer a proteção social para os grupos mais vulneráveis;
Reforçar a estabilidade do sistema financeiro e modernizar o regime cambial.
O primeiro desembolso será liberado apenas após a aprovação formal do acordo pelo conselho do Fundo.
Embora o valor seja inferior aos US$ 3,3 bilhões inicialmente buscados pelo governo boliviano, o pacote deve funcionar como um selo de confiança para outros organismos multilaterais.
O FMI estima que o programa poderá destravar mais de US$ 5 bilhões em novos financiamentos do Banco Mundial, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e de outras instituições de desenvolvimento ao longo dos próximos três anos.
Reservas em nível crítico
A recomposição das reservas internacionais tornou-se uma das prioridades da equipe econômica.
Segundo o Banco Central da Bolívia, o governo pretende reforçar sua posição cambial por meio dos recursos obtidos junto aos organismos internacionais, do aumento das exportações, das remessas enviadas por bolivianos no exterior e da volta ao sistema financeiro de cerca de US$ 4 bilhões em espécie que estariam fora dos bancos.
Analistas avaliam que a normalização do mercado de câmbio será determinante para reduzir a volatilidade da moeda e restaurar a confiança de investidores.
Aproximação com Washington
O acordo também simboliza uma mudança diplomática.
Historicamente alinhada a governos de esquerda na América Latina e crítica às políticas do FMI, a Bolívia intensificou nos últimos meses sua aproximação com os Estados Unidos.
O país aderiu recentemente à iniciativa Shield of the Americas e recebeu assistência financeira americana durante os bloqueios de estradas que paralisaram parte do território entre maio e junho. Washington também ampliou a cooperação com La Paz em ações de combate ao narcotráfico.
Mercado reage positivamente
A notícia foi bem recebida pelos investidores.
Os títulos soberanos da Bolívia com vencimento em 2031 reduziram perdas após o anúncio do acordo, refletindo a expectativa de melhora na liquidez externa do país e de maior previsibilidade para a política econômica.
Para economistas, o programa representa uma tentativa de restaurar a credibilidade macroeconômica da Bolívia depois de anos de deterioração fiscal e cambial.
O sucesso, porém, dependerá da capacidade do governo de manter o ajuste das contas públicas sem provocar uma desaceleração ainda maior da atividade econômica.







