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Em crise cambial, Bolívia recorre ao FMI e fecha acordo de US$ 1,9 bilhão

Pacote marca reaproximação inédita com o Fundo após anos de resistência; programa prevê ajuste fiscal e reforma cambial

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 29 jul 2026, 13h36 | Atualizado em 29 jul 2026, 13h58
Em crise cambial, Bolívia recorre ao FMI e fecha acordo de US$ 1,9 bilhão Priorizar nos meus resultados Google

A Bolívia fechou um acordo técnico com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para um programa de financiamento de US$ 1,9 bilhão, numa mudança significativa da política econômica do país após anos de resistência à atuação do organismo.

O programa, com duração de 36 meses, ainda depende da aprovação do conselho executivo do FMI, mas representa um marco para o governo boliviano.

Isso porque consolida a adoção de medidas que rompem com o modelo econômico vigente nas últimas duas décadas, como a flexibilização do câmbio e a redução gradual dos subsídios aos combustíveis.

Crise levou governo a buscar ajuda

O acordo é resultado de meses de negociações entre La Paz e o FMI e ocorre após o agravamento da crise cambial boliviana.

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Desde 2023, o país enfrenta escassez de dólares, forte redução das reservas internacionais e dificuldades para importar combustíveis.

A deterioração foi agravada pela queda da produção de gás natural, principal produto de exportação boliviano, ao mesmo tempo em que o governo manteve elevados subsídios aos combustíveis, pressionando as contas públicas.

Sem capacidade de financiar esse modelo, o governo iniciou neste ano uma série de mudanças econômicas, incluindo o abandono do câmbio fixo que vigorava havia cerca de 15 anos.

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O que prevê o programa

Segundo o FMI, o programa tem três objetivos principais:

Restabelecer a sustentabilidade das contas públicas;

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Fortalecer a proteção social para os grupos mais vulneráveis;

Reforçar a estabilidade do sistema financeiro e modernizar o regime cambial.

O primeiro desembolso será liberado apenas após a aprovação formal do acordo pelo conselho do Fundo.

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Embora o valor seja inferior aos US$ 3,3 bilhões inicialmente buscados pelo governo boliviano, o pacote deve funcionar como um selo de confiança para outros organismos multilaterais.

O FMI estima que o programa poderá destravar mais de US$ 5 bilhões em novos financiamentos do Banco Mundial, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e de outras instituições de desenvolvimento ao longo dos próximos três anos.

Reservas em nível crítico

A recomposição das reservas internacionais tornou-se uma das prioridades da equipe econômica.

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Segundo o Banco Central da Bolívia, o governo pretende reforçar sua posição cambial por meio dos recursos obtidos junto aos organismos internacionais, do aumento das exportações, das remessas enviadas por bolivianos no exterior e da volta ao sistema financeiro de cerca de US$ 4 bilhões em espécie que estariam fora dos bancos.

Analistas avaliam que a normalização do mercado de câmbio será determinante para reduzir a volatilidade da moeda e restaurar a confiança de investidores.

Aproximação com Washington

O acordo também simboliza uma mudança diplomática.

Historicamente alinhada a governos de esquerda na América Latina e crítica às políticas do FMI, a Bolívia intensificou nos últimos meses sua aproximação com os Estados Unidos.

O país aderiu recentemente à iniciativa Shield of the Americas e recebeu assistência financeira americana durante os bloqueios de estradas que paralisaram parte do território entre maio e junho. Washington também ampliou a cooperação com La Paz em ações de combate ao narcotráfico.

Mercado reage positivamente

A notícia foi bem recebida pelos investidores.

Os títulos soberanos da Bolívia com vencimento em 2031 reduziram perdas após o anúncio do acordo, refletindo a expectativa de melhora na liquidez externa do país e de maior previsibilidade para a política econômica.

Para economistas, o programa representa uma tentativa de restaurar a credibilidade macroeconômica da Bolívia depois de anos de deterioração fiscal e cambial.

O sucesso, porém, dependerá da capacidade do governo de manter o ajuste das contas públicas sem provocar uma desaceleração ainda maior da atividade econômica.

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