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Economista prevê recessão nos EUA ainda este ano e vê risco de nova crise global

Tuomas Malinen vê na alavancagem de fundos, empresas e investidores o possível gatilho para uma nova crise

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 24 ago 2026, 16h33 | Atualizado em 24 ago 2026, 16h39
Economista prevê recessão nos EUA ainda este ano e vê risco de nova crise global Priorizar nos meus resultados Google

A economia dos Estados Unidos pode entrar em recessão antes do fim deste ano. Ou, no limite, no início de 2027, caso o elevado nível de endividamento e alavancagem do sistema financeiro desencadeie uma correção abrupta nos mercados.

Essa é a avaliação do economista finlandês Tuomas Malinen, professor da Universidade de Helsinque e especialista em crises financeiras.

Malinen, que também dirige a consultoria GnS Economics, sustenta que o sistema financeiro americano acumulou riscos suficientes para transformar uma desaceleração econômica em uma crise de maiores proporções.

Na sua avaliação, o problema não está apenas na dívida das empresas, mas também no uso intenso de recursos emprestados por fundos e investidores para ampliar suas posições nos mercados.

A previsão contrasta com o cenário predominante em Wall Street, onde boa parte dos analistas continua projetando crescimento para a economia americana e vê a inteligência artificial como um dos principais motores dos lucros corporativos e do mercado acionário.

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Para Malinen, no entanto, a combinação de dívida, ativos valorizados e uma eventual recessão pode expor fragilidades que ficaram encobertas durante anos de abundância de liquidez.

“Nosso sistema financeiro extremamente alavancado nunca enfrentou uma recessão que eliminasse simultaneamente maus investimentos financeiros e econômicos”, escreveu o economista.

O risco está na alavancagem

A tese de Malinen encontra ao menos um ponto de apoio nos dados do próprio Federal Reserve.

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O relatório mais recente sobre estabilidade financeira mostra que a alavancagem dos hedge funds permanece próxima dos níveis mais altos desde o início da série histórica disponível.

O fenômeno está concentrado principalmente nos maiores fundos e envolve posições em títulos do Tesouro americano, derivativos de juros e ações.

O Banco Central americano, porém, faz uma avaliação bem menos alarmista do conjunto da economia.

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Segundo o Fed, a relação entre a dívida total de empresas e famílias e o PIB continuou caindo e atingiu níveis não vistos desde o começo dos anos 2000.

Os bancos, por sua vez, mantêm níveis elevados de capital e o sistema bancário é considerado sólido e resiliente.

O problema, portanto, não está distribuído uniformemente pelo sistema.

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O Fed aponta vulnerabilidades maiores entre fundos altamente alavancados, algumas seguradoras e empresas de maior risco, especialmente aquelas dependentes de crédito privado ou de dívida com taxas flutuantes.

Também há sinais de deterioração no crédito ao consumidor, com inadimplência de cartões e financiamentos de veículos acima dos níveis observados na última década.

A preocupação é que, em momentos de forte volatilidade, posições financiadas com dívida possam ser rapidamente desmontadas.

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Isso cria um mecanismo conhecido dos mercados: a queda dos preços obriga investidores a vender ativos para cobrir perdas ou atender chamadas de margem, provocando novas quedas e ampliando o movimento.

Um estudo do Federal Reserve de Dallas mostra a dimensão dessa dependência. O endividamento líquido dos hedge funds no mercado de operações compromissadas, conhecidas como repo, chegou a cerca de US$ 1,8 trilhão no fim de 2025 — aproximadamente 6% do mercado de títulos negociáveis do Tesouro americano.

O dinheiro da inteligência artificial também entra na equação

Outro fator que preocupa Malinen é a escalada dos investimentos em inteligência artificial.

As grandes empresas de tecnologia estão comprometendo volumes inéditos de recursos na construção de data centers, compra de chips e expansão de infraestrutura computacional. Alphabet, Amazon, Microsoft e Meta devem superar US$ 700 bilhões em investimentos neste ano, segundo estimativas de mercado.

O ponto novo é que uma parcela crescente dessa expansão está sendo financiada fora do fluxo de caixa tradicional das empresas.

Companhias que historicamente dependiam de seus próprios recursos passaram a recorrer com mais intensidade aos mercados de dívida e de ações.

A S&P Global Ratings estima que cinco grandes empresas de computação em nuvem — Alphabet, Amazon, Meta, Microsoft e Oracle — devem investir cerca de US$ 750 bilhões em despesas de capital em 2026, o equivalente a 38% de suas receitas.

Apenas no primeiro trimestre, essas empresas emitiram cerca de US$ 115 bilhões em dívida, mais do que os aproximadamente US$ 70 bilhões levantados durante todo o ano de 2025.

Esse movimento não significa, por si só, que uma crise seja iminente. As maiores empresas de tecnologia continuam altamente lucrativas e possuem balanços muito mais robustos do que empresas que estiveram no centro de crises anteriores.

Mas o crescimento do financiamento por dívida aumenta a exposição do mercado a uma eventual frustração com os retornos da inteligência artificial.

Caso os investimentos não produzam receitas e lucros na velocidade esperada, empresas e investidores podem ser obrigados a rever simultaneamente seus planos de expansão.

A terceira onda de uma crise

Malinen interpreta os episódios financeiros dos últimos anos como etapas de uma crise mais longa.

Na primeira fase, segundo ele, esteve o colapso do mercado de títulos do Reino Unido em 2022, que levou o Banco da Inglaterra a intervir depois que a queda dos papéis ameaçou fundos de pensão que utilizavam estratégias altamente alavancadas.

A segunda teria ocorrido em 2023, quando a quebra do Silicon Valley Bank e do Signature Bank desencadeou uma crise entre bancos regionais americanos.

Na visão do economista, uma recessão nos Estados Unidos poderia representar a terceira etapa desse processo. Se isso ocorrer, ele acredita que o impacto financeiro mais amplo poderia aparecer nos primeiros meses de 2027.

A comparação feita por Malinen é com o choque provocado pela pandemia em 2020, quando a rápida queda dos mercados levou o Federal Reserve a lançar medidas extraordinárias para restaurar a liquidez e estabilizar o sistema financeiro.

Desta vez, porém, ele argumenta que o desafio seria diferente: uma recessão poderia expor investimentos feitos durante anos de dinheiro abundante, crédito barato e valorização dos ativos.

O cenário traçado pelo economista permanece minoritário.

O próprio relatório do Fed reconhece riscos relevantes ligados à alavancagem, mas não descreve o sistema bancário ou o endividamento agregado de famílias e empresas como uma vulnerabilidade sistêmica comparável à observada antes da crise de 2008.

A grande questão, portanto, é se a economia americana conseguirá desacelerar sem provocar uma liquidação desordenada de posições financiadas por dívida.

Para Malinen, essa margem está diminuindo. “Parece que estamos muito próximos do início de outra calamidade financeira”, escreveu.

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