ASSINE VEJA NEGÓCIOS

Economia da China trava, crise imobiliária piora e consumo perde força

Enquanto fábricas e exportadores chineses avançam no exterior, consumidores e empresas mantêm cautela diante da perda de confiança

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 17 ago 2026, 15h34 | Atualizado em 17 ago 2026, 15h36
Economia da China trava, crise imobiliária piora e consumo perde força Priorizar nos meus resultados Google

A economia chinesa começou o segundo semestre de 2026 com sinais mais claros de perda de ritmo. Em julho, o consumo das famílias cresceu pouco, os investimentos recuaram novamente e a produção industrial desacelerou, enquanto o setor imobiliário continuou a se deteriorar. O quadro reforça uma das principais fragilidades da economia chinesa: a dificuldade de transformar a força da indústria e das exportações em uma recuperação sustentada da demanda doméstica.

As vendas no varejo, um dos principais indicadores do consumo, cresceram apenas 0,6% em julho na comparação com o mesmo mês de 2025. O resultado veio depois de uma alta de 1% em junho e ficou bem abaixo das expectativas do mercado, que apontavam para avanço de 1,5%.

O desempenho é relevante porque o governo chinês vem tentando reduzir a dependência de investimentos e exportações e estimular o consumo interno como novo motor do crescimento. Até agora, porém, os dados mostram que as famílias continuam cautelosas.

A fraqueza também aparece nos investimentos. O investimento em ativos fixos caiu 6,7% nos primeiros sete meses do ano, aprofundando a retração de 5,7% registrada até junho. O indicador inclui gastos em áreas como infraestrutura, máquinas, equipamentos e construção e é acompanhado de perto porque mostra a disposição de empresas e governos de ampliar a capacidade produtiva.

Continua após a publicidade

O mercado imobiliário é um dos principais responsáveis pela deterioração. O investimento em desenvolvimento imobiliário recuou cerca de 19% em relação a um ano antes, mantendo o setor em uma crise que já se prolonga há anos.

O problema vai muito além das construtoras: imóveis representam uma parcela importante do patrimônio das famílias chinesas, de modo que a queda dos preços reduz a sensação de riqueza e tende a estimular a poupança em vez do consumo.

Continua após a publicidade

Os preços dos imóveis novos caíram 3,2% em julho na comparação anual, enquanto apenas 17 das 70 cidades monitoradas pelo governo registraram alta mensal nos preços. Na média, os preços recuaram 0,1% em relação a junho.

O enfraquecimento do setor imobiliário ajuda a explicar por que a recuperação chinesa permanece tão desigual. Durante décadas, construção civil, venda de terrenos, infraestrutura e crédito imobiliário foram importantes fontes de crescimento.

Continua após a publicidade

A crise iniciada após o estouro da bolha imobiliária, porém, deixou incorporadoras altamente endividadas, projetos inacabados e consumidores mais preocupados com a preservação de patrimônio.

O Banco Mundial já havia apontado que a resolução do problema deve ser gradual.

Continua após a publicidade

No fim de 2025, cerca de 7,5 milhões de unidades habitacionais haviam sido incluídas em programas destinados a acelerar a conclusão de imóveis vendidos na planta, mas o estoque ainda era elevado.

Em março de 2026, a estimativa era de que seriam necessários cerca de 30 meses para absorver o estoque existente, supondo que nenhum novo imóvel fosse colocado no mercado.

Continua após a publicidade

Indústria ainda cresce, mas em ritmo menor

A produção industrial também perdeu velocidade. O crescimento foi de 4,5% em julho, ante 5,3% em junho e abaixo dos 4,8% esperados pelos analistas. O resultado mostra que a indústria continua sendo uma das partes mais resistentes da economia, mas já não consegue compensar sozinha a fraqueza do consumo e do investimento.

É justamente nessa diferença que está uma das características mais marcantes da economia chinesa atual. Enquanto setores tradicionais ligados à construção, consumo e infraestrutura enfrentam dificuldades, segmentos de tecnologia avançada continuam recebendo investimentos e encontrando demanda no exterior.

A indústria chinesa ganhou espaço em áreas como veículos elétricos, baterias, equipamentos de energia, semicondutores e componentes utilizados na infraestrutura de inteligência artificial. O resultado é uma economia cada vez mais dividida entre setores modernos e competitivos internacionalmente e uma demanda interna ainda debilitada.

Dados regionais divulgados anteriormente neste ano já mostravam essa diferença. As províncias mais expostas a tecnologia, veículos elétricos e fabricação de chips apresentavam desempenho superior ao de regiões dependentes de setores tradicionais. Mesmo nas áreas mais ricas, porém, consumo e investimento permaneciam fracos.

Exportações são o principal ponto de resistência

O contraste fica ainda maior quando os números domésticos são comparados com o comércio exterior. As exportações chinesas cresceram 23,9% em julho ante o mesmo mês de 2025, segundo dados oficiais. A demanda internacional por equipamentos relacionados à inteligência artificial tem ajudado a sustentar fábricas chinesas mesmo diante da fraqueza do mercado interno.

O fenômeno cria uma espécie de economia de duas velocidades. De um lado, empresas chinesas ampliam sua presença em mercados internacionais e avançam em setores tecnológicos estratégicos. De outro, consumidores, incorporadoras e investidores privados continuam mais cautelosos.

Esse desequilíbrio já havia aparecido nos números do segundo trimestre. O Produto Interno Bruto chinês cresceu 4,3% entre abril e junho, abaixo dos 5% registrados nos três primeiros meses do ano e no ritmo mais fraco desde o fim de 2022. O resultado também ficou abaixo da faixa de 4,5% a 5% estabelecida pelo governo para 2026.

A força das exportações, portanto, está funcionando como uma espécie de amortecedor para uma economia doméstica que perdeu dinamismo. O problema é que essa estratégia aumenta a dependência da China do comércio exterior justamente em um momento de maior resistência de Estados Unidos e Europa à entrada de produtos chineses.

Pequim enfrenta uma escolha difícil

O governo chinês agora precisa lidar com um problema de política econômica mais complexo. Estimular a atividade pode ajudar o consumo e o investimento, mas uma expansão baseada novamente em crédito e construção poderia prolongar os desequilíbrios que levaram à crise imobiliária.

Ao mesmo tempo, depender cada vez mais das exportações deixa a China mais vulnerável a tarifas, barreiras comerciais e mudanças na demanda internacional.

O primeiro-ministro Li Qiang reconheceu nesta segunda-feira a necessidade de fortalecer o consumo doméstico, melhorar emprego e renda e estimular o investimento privado. Também defendeu medidas para estabilizar a demanda externa e ampliar a cooperação comercial.

A margem para uma solução rápida, contudo, é limitada.

O problema imobiliário reduziu a disposição das famílias de gastar e das empresas de investir, enquanto a indústria continua produzindo em ritmo relativamente elevado. O resultado é uma pressão sobre preços e margens de lucro, com sinais de deflação ainda presentes na economia.

Em julho, o índice de preços ao produtor subiu 3,5% na comparação anual, abaixo dos 4,1% de junho, enquanto a inflação subjacente ao consumidor ficou em apenas 0,9%. A combinação de produção elevada e demanda fraca mantém a pressão sobre empresas para reduzir preços.

O desafio de Pequim, portanto, não é simplesmente acelerar o crescimento. É encontrar uma forma de fazê-lo sem voltar a depender dos mesmos motores, especialmente imóveis e investimento estatal, que contribuíram para os desequilíbrios atuais.

Os dados de julho sugerem que essa transição ainda está longe de concluída. A China continua sendo uma potência industrial e exportadora, com forte presença em tecnologias estratégicas, mas a recuperação da economia doméstica permanece muito mais frágil. A diferença entre esses dois lados será um dos principais fatores a determinar o ritmo da economia chinesa no restante de 2026.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Banner promocional com fundo verde-escuro. À esquerda, texto em amarelo e branco: O MÊS É DO CLIENTE. A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua. À direita, uma mão segura um smartphone exibindo um portal de notícias com banner e produtos. Ao lado, um ícone de árvore verde-claraMão segurando um smartphone com tela exibindo um aplicativo de notícias e produtos. À esquerda, texto O MÊS É DO CLIENTE. A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua. Fundo verde escuro com ícone de árvore à direita
ECONOMIZE ATÉ 87% OFF

Digital Essencial

O mercado não espera — e você também não pode!
Com a Veja Negócios Digital, você tem acesso imediato às tendências, análises, estratégias e bastidores que movem a economia e os grandes negócios.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
OFERTA MÊS DO CLIENTE

Revista em Casa + Digital Premium

Veja Negócios impressa todo mês na sua casa, além de todos os benefícios do plano Digital Premium
De: R$ 29,99/mês
A partir de R$ 9,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).