ASSINE VEJA NEGÓCIOS

Economia da Argentina encolhe, com consumo e investimento em queda

PIB recua 0,6% no segundo trimestre, com queda de consumo e investimento

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 17 set 2026, 17h57 | Atualizado em 17 set 2026, 18h10
Economia da Argentina encolhe, com consumo e investimento em queda Priorize VEJA no Google

A economia argentina encolheu 0,6% no segundo trimestre de 2026 em relação aos três meses anteriores, na primeira contração trimestral desde o fim de 2024.

O resultado mostra que a recuperação iniciada após a forte recessão do início do governo de Javier Milei perdeu força, com consumo e investimento em queda.

Na comparação com o segundo trimestre de 2025, porém, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 2%. No primeiro semestre, a economia acumulou expansão de 2,2%.

Os números divulgados nesta quinta-feira (17) pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) mostram, portanto, um quadro menos linear do que sugere a comparação anual: a Argentina continua produzindo mais do que um ano atrás, mas a atividade perdeu ritmo no decorrer de 2026.

O resultado também evidencia uma mudança na composição do crescimento. Enquanto setores ligados à produção de commodities e às exportações avançaram, a demanda doméstica perdeu força.

Continua após a publicidade

Consumo e investimento recuam

O consumo privado caiu 2,4% no segundo trimestre em relação ao primeiro.

O consumo público recuou 2,3%, enquanto a formação bruta de capital fixo, uma medida dos investimentos em máquinas, equipamentos, construção e outros ativos produtivos, diminuiu 0,8%.

As exportações tiveram comportamento oposto e cresceram 2,5% no trimestre. Na comparação anual, as vendas externas de bens e serviços aumentaram 13,7%.

Continua após a publicidade

A combinação ajuda a explicar por que o PIB ainda apresenta crescimento na comparação com 2025, mesmo diante da contração trimestral.

A economia argentina está sendo sustentada em maior medida pelo setor externo e por atividades produtoras de commodities, enquanto a demanda interna permanece mais fraca.

O cenário também aparece nos dados setoriais. A pesca cresceu 44,7% em um ano, a mineração e a exploração de pedreiras avançaram 16,4% e a agropecuária teve alta de 6,9%. A indústria manufatureira, por outro lado, recuou 2%.

Continua após a publicidade

A aposta em commodities ganha peso

O desempenho da mineração e da agropecuária é particularmente importante para a estratégia econômica argentina porque o país tenta ampliar a entrada de dólares e reduzir sua vulnerabilidade externa.

Além da agricultura, a Argentina possui grandes reservas de lítio e gás natural e vem tentando atrair investimentos para mineração e energia. O crescimento desses setores pode aumentar exportações, arrecadação e disponibilidade de moeda estrangeira sem depender da expansão do consumo interno.

O problema é que esse tipo de crescimento tem efeito diferente sobre a economia doméstica.

Continua após a publicidade

Uma nova mina ou uma maior produção agrícola pode elevar exportações e PIB sem produzir o mesmo impacto imediato sobre o comércio, os serviços e o emprego urbano que uma recuperação mais forte do consumo teria.

É essa diferença que aparece nos números do segundo trimestre.

O ajuste de Milei mudou a demanda

A desaceleração ocorre depois de um período de forte ajuste fiscal promovido pelo governo Milei.

Continua após a publicidade

Desde o início da administração, em dezembro de 2023, o governo adotou cortes de gastos, reduziu subsídios e buscou eliminar o déficit fiscal.

A estratégia ajudou a reduzir a inflação, que havia atingido níveis muito elevados antes e no início do mandato.

O custo inicial foi uma forte contração da atividade. Em 2024, o PIB argentino caiu 1,3%, segundo o Fundo Monetário Internacional. Em 2025, houve recuperação de 4,4%. Para 2026, o FMI projetava em julho crescimento de 3,5%.

Os novos dados tornam essa projeção mais difícil de alcançar, embora ainda não a inviabilizem.

O levantamento de expectativas do Banco Central argentino de julho, realizado antes da divulgação do PIB, apontava crescimento de 2,7% para o conjunto de 2026.

Os analistas consultados estimavam queda de 0,4% no segundo trimestre e retomada de 1% nos dois trimestres seguintes.

A contração efetivamente registrada foi maior do que aquela prevista no levantamento.

Inflação caiu, mas atividade ainda sente o ajuste

A melhora dos preços é um dos principais resultados econômicos reivindicados pelo governo argentino.

A inflação mensal medida pelo Indec ficou em 1,7% em agosto. O número é muito inferior às taxas registradas no início do governo Milei, embora ainda represente uma inflação anual elevada para os padrões internacionais.

A desinflação, porém, não significa que o poder de compra tenha se recuperado na mesma velocidade.

Famílias e empresas passaram por um processo de ajuste após a desvalorização do peso e a retirada de subsídios. A recomposição da renda e do consumo ocorre de maneira desigual, enquanto o governo mantém uma política fiscal restritiva.

O resultado é uma economia em que a estabilidade macroeconômica avançou mais rapidamente do que a recuperação da demanda doméstica.

Indústria ainda é um ponto de fraqueza

A indústria é um dos principais sinais de que a recuperação não alcançou todos os segmentos da economia.

A produção manufatureira caiu 5% em julho na comparação anual, segundo o Indec.

A utilização da capacidade instalada ficou em 58,2%, praticamente estável em relação aos 58,4% registrados um ano antes.

O dado é relevante porque a indústria depende mais diretamente do mercado interno e do crédito do que setores exportadores de commodities.

Enquanto mineração, agropecuária e pesca se beneficiam da demanda externa, fábricas voltadas ao mercado doméstico dependem da recuperação do consumo argentino.

Essa diferença ajuda a explicar por que o crescimento do PIB não necessariamente se traduz em uma percepção homogênea de melhora da economia.

O desafio agora é transformar estabilidade em crescimento

A equipe econômica de Milei entra em uma nova etapa. A primeira fase foi marcada pela tentativa de estabilizar as contas públicas e conter a inflação.

A questão agora é se a estabilização será suficiente para produzir uma expansão mais ampla e sustentada.

O governo apresentou nesta semana sua proposta de orçamento para 2027.

O projeto prevê crescimento de 4% no próximo ano, acima da estimativa oficial de 3% para 2026, além de inflação anual de 18%. A proposta também prevê superávit comercial superior a US$ 15 bilhões.

A meta depende de uma combinação de fatores: recuperação do consumo, aumento dos investimentos, continuidade das exportações e manutenção da estabilidade fiscal.

Os dados do segundo trimestre mostram que parte dessa equação ainda não está resolvida.

A Argentina conseguiu sair de uma recessão profunda e reduziu de forma significativa o ritmo da inflação.

Mas, no segundo trimestre, a economia voltou a encolher.

A diferença entre esses dois movimentos é o principal desafio da próxima fase do programa econômico de Milei. Fazer a estabilização deixar de ser apenas uma melhora dos indicadores macroeconômicos e se transformar em crescimento mais disseminado pela economia.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Domine o fato. Confie na fonte.

15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

ECONOMIZE ATÉ 87% OFF

Digital Essencial

O mercado não espera — e você também não pode!
Com a Veja Negócios Digital, você tem acesso imediato às tendências, análises, estratégias e bastidores que movem a economia e os grandes negócios.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
ESQUENTA 10.10

Revista em Casa + Digital Premium

Veja Negócios impressa todo mês na sua casa, além de todos os benefícios do plano Digital Premium
De: R$ 29,99/mês
A partir de R$ 9,90/mês

*A assinatura inclui acesso ao site de VEJA, conteúdos exclusivos para assinantes e navegação com menos anúncios. Benefícios sujeitos às condições e à disponibilidade da assinatura.
*Pagamento único anual de R$71,88, equivalente a R$5,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).