Dólar toca R$ 5,23 após bolsa perder ‘quase uma Vale’ com fuga de estrangeiros
Saída de capital externo se intensifica em agosto em meio à piora das perspectivas fiscais e à aproximação das eleições
O dólar americano saltou para a cotação de 5,23 reais por volta das 10h30 desta sexta-feira, 14. A moeda acumulava alta de 0,81% no dia e 2,80% em uma semana, em meio à maior cautela dos investidores com os ativos brasileiros.
A pressão sobre o câmbio ocorre enquanto investidores estrangeiros aceleram a retirada de recursos da Bolsa brasileira. O saldo negativo de capital externo na B3 chegou a 11,93 bilhões de reais, sem contar operações de IPOs e follow-ons, nos sete primeiros pregões do mês (3-11 de agosto), segundo levantamento da Elos Ayta divulgado na quinta-feira, 13.
O resultado coloca agosto como o segundo mês de 2026 com maior saída de recursos estrangeiros da Bolsa, atrás de maio, quando os resgates somaram 14,91 bilhões de reais. Em junho, a retirada havia alcançado 7,79 bilhões de reais.
A saída contrasta com o movimento observado no começo do ano. Em janeiro, os investidores estrangeiros haviam colocado 26,31 bilhões de reais em ações brasileiras, valor superior ao ingresso acumulado durante todo 2025.
Bolsa perde R$ 279 bilhões
A Bolsa brasileira sofreu uma forte redução no valor de mercado das empresas listadas. Em oito sessões consecutivas de queda até a quinta-feira, as companhias negociadas na B3 perderam mais de 279 bilhões de reais em valor de mercado. O montante equivale a cerca de 90% do valor atual de mercado da Vale, estimado em aproximadamente 311 bilhões de reais.
A deterioração do ambiente ocorre em meio à crescente preocupação com a situação fiscal brasileira e à aproximação das eleições de outubro. A avaliação predominante no mercado é que a disputa eleitoral tende a elevar a cautela dos investidores, enquanto o próximo governo deverá lidar com juros reais elevados e um quadro de déficit fiscal.
Na terça-feira, 11, os estrangeiros retiraram 4,72 bilhões de reais da B3 em apenas seis horas de negociação. Foi a maior saída diária de capital externo da Bolsa desde 22 de abril de 2021, quando os resgates chegaram a 6,6 bilhões de reais.
O movimento ganhou força após o banco americano JPMorgan reduzir a recomendação para as ações brasileiras de overweight, equivalente a uma exposição acima da média, para neutral, ou exposição neutra. O banco apontou incertezas políticas, dúvidas sobre a trajetória fiscal e deterioração das condições de crédito entre os fatores para a mudança.
Outro elemento que pesa sobre as ações é o nível dos juros. A Selic está em 14% ao ano, o que mantém os títulos públicos e outros investimentos de renda fixa atrativos diante do risco maior associado à Bolsa. No início de 2026, o mercado projetava que a taxa terminaria o ano em 12,25%. Agora, a expectativa indicada pelo Boletim Focus é de 13,75%.
Dólar também reage ao cenário externo
No mercado cambial, a cautela com os ativos brasileiros se soma a fatores externos. Na quinta-feira, 13, os Estados Unidos divulgaram um relatório que incluiu o Brasil entre cerca de 40 países apontados como participantes de mecanismos usados pela China para contornar tarifas americanas por meio de transbordo de mercadorias.
No mesmo dia, o índice de preços ao produtor (PPI) dos Estados Unidos ficou estável em julho, depois de recuar 0,1% em junho. Na comparação anual, o indicador avançou 4,7%, ante 5,5% anteriormente. O resultado veio abaixo das estimativas de analistas consultados pela FactSet. A leitura reforçou as expectativas de manutenção dos juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano).







