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Dólar sobe no Brasil por temor com a Europa, e não por mérito do governo

Autoridades comemoram nos EUA a depreciação do real como se fosse fruto das medidas tomadas pelo Planalto; especialistas explicam, no entanto, que o movimento é internacional

Por Ana Clara Costa 20 set 2011, 19h29

Aversão ao euro provoca corrida de investidores pela moeda americana; governo acredita que queda da Selic tenha balizado alta no país

O contribuinte brasileiro gastará mais reais para bancar o comboio de Brasília que está reunido nos Estados Unidos para dois importantes eventos internacionais, a Assembleia Geral das Nações Unidas e o encontro anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial. Se comparada à cotação de um mês atrás, o pacote custará, em reais, 12% mais caro graças à apreciação do dólar – um movimento que ocorre em escala mundial nos últimos dias.

A valorização da moeda americana tem sua explicação num movimento combinado de venda de ativos em euro (sobretudo títulos de países da região) e compra de dólares. Em entrevista ao site de VEJA, o economista Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, afirmou que o cenário não é apenas de “aversão ao risco” – um comportamento de temor dos investidores em momentos de crise econômica -, mas também de “aversão ao euro”. “Os investidores estão preocupados com a situação europeia, que está se deteriorando a cada dia que passa, e querem sair do euro rapidamente”, afirmou. Tal movimentação fez com que a moeda americana se valorizasse perante praticamente todas as divisas em um curto espaço de tempo. Nos últimos trinta dias, o euro caiu 5% ante o dólar, enquanto o real e franco suíço recuaram 12%.

Não se trata de uma percepção repentina do mercado de que a situação econômica dos Estados Unidos esteja satisfatória. De acordo com Robert Wood, da Economist Intelligence Unit (EIU), a questão gira mais em torno de escolher dentre todos os males, o menor. “É como se estivéssemos em uma espécie de concurso de belezas às avessas, tendo de escolher qual das feias é a menos feia, ou seja, qual moeda é a menos fraca”, afirma.

Governo comemora – Enquanto os economistas assimilam o novo cenário e refazem suas estimativas para o futuro do dólar, o governo comemora a depreciação do real – que traz alívio aos exportadores brasileiros e ajuda a “proteger” o mercado interno dos importados.

O egocentrismo da equipe econômica chega a níveis absurdos, a ponto de o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, afirmar que o corte da taxa básica de juros (Selic) em 0,5 ponto percentual, em 31 de agosto, influenciou a perda de valor da moeda brasileira sobre o dólar, assim como as medidas referentes ao Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) anunciadas pelo Ministério da Fazenda nos últimos meses. “Se o dólar fosse sofrer algum tipo de impacto da Selic, teria acontecido logo no início do mês. O mercado de câmbio ajusta-se muito rápido. Se nada aconteceu no dia 1º de setembro, significa que não teve impacto algum, ou que ele foi mínimo”, afirma o economista Alexandre Schwartzman, ex-diretor do Banco Central.

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O BC, aliás, ao verificar a alta da moeda americana, imediatamente parou suas compras diárias da divisa. Essas tinham virado rotina no último ano, em uma ânsia inútil da autoridade monetária de tentar conter a queda do preço da moeda no Brasil – que chegou, em agosto, ao patamar mínimo de 1,55 real.

Efeito marginal – Em relação ao IOF, a avaliação dos especialistas é que as medidas adotadas pelo governo federal somente aprofundaram, ainda que de maneira suave, a desvalorização iminente do real. De forma alguma, portanto, as ações do Ministério da Fazenda e do BC teriam sido preponderantes, como se vangloria a equipe econômica. “Moedas de países que possuem controle de capital para tentar restringir a perda de competitividade acabam se depreciando mais quando o dólar sobe. E esse é, coincidentemente, o caso do Brasil também o da Suíça”, afirma o economista da Moody’s Analytics, Alfredo Coutiño.

Outro fator que prejudica o real num cenário como o atual guarda relação com o perfil da balança comercial brasileira, bastante concentrada em commodities. Diante do peso significativo das exportações de matérias-primas, o real acaba oscilando ao sabor desse mercado. Com commodities em alta e economias mundiais aquecidas, o Brasil vende mais e, em troca, recebe mais dólares. Com a clara redução do crescimento global (e dos Estados Unidos), conforme ficou evidente nas novas estimativas do FMI divulgadas nesta terça-feira, a tendência hoje é que, desde já, o fluxo da moeda americana em direção ao país perca força.

A nova estratégia do Fed – Entre 2010 e o primeiro semestre de 2011, outro fator que pressionou o dólar para baixo foi a política de afrouxamento quantitativo aplicada pelo Federal Reserve (Fed), o Banco Central dos Estados Unidos, como alternativa para injetar liquidez no mercado americano. Ela consistia na compra antecipada de títulos do Tesouro americano em troca de bilhões de dólares que eram despejados nos bancos do país. Tal movimento deveria ter aquecido a economia, caso os americanos estivessem dispostos a tomar crédito nas instituições financeiras – fato que não ocorreu.

Agora, a autoridade monetária americana prevê outro caminho que não envolve a injeção de dólares no mercado. Trata-se do “twist”, que consiste na troca de títulos de curto prazo da dívida americana por papéis de longo prazo. Com isso, a demanda por esses ativos aumenta e os juros de longo prazo no país tendem a diminuir. O objetivo é que a medida estimule os investimentos de longo prazo nos Estados Unidos.

Por não envolver aumento de liquidez no mercado, alguns economistas cogitam que tal medida poderia dar novo impulso à valorização do dólar. No entanto, ao que tudo indica, a medida terá pouco efeito – até menos do que o afrouxamento quantitativo. “Não terá um impacto sobre o câmbio, mas sim sobre os juros, mostrando aos investidores que eles conseguirão melhores taxas para investir no país”, afirma o economista-sênior do banco Santander Cristiano Souza. Se o “twist” não garantirá a subida do dólar, a situação europeia – ainda incerta e desafiadora – pode continuar provocando uma apreciação da moeda americana. Segundo Souza, o banco Santander está revisando suas perspectivas e já projeta a moeda a um valor de 1,90 real em 2012.

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