Do MEI ao império da comida: food service vira laboratório de novos empreendedores no Brasil
Setor abriu cerca de 420 mil empresas em 2025 e movimentou R$ 287,9 bi; migração de MEIs para estruturas maiores mostra amadurecimento dos negócios
O food service brasileiro deixou de ser apenas um mercado de alimentação para se consolidar também como uma das principais portas de entrada para quem quer empreender. Em 2025, cerca de 420 mil novas empresas foram abertas no segmento, sendo 354 mil MEIs e outras 65,8 mil empresas fora desse regime, segundo dados inéditos da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA), em parceria com a Wise Sales.
O tamanho do mercado ajuda a explicar esse movimento. No ano passado, o food service movimentou 287,9 bilhões de reais em vendas, o equivalente a 28,3% do faturamento da indústria de alimentos no mercado interno. Mas, mais do que o volume de novos negócios, os dados apontam para uma transformação no perfil dessas empresas: uma parcela dos empreendedores que começou pequena está avançando para estruturas mais robustas. “Não estamos mais falando apenas de abertura, mas de evolução no porte dos negócios e no modelo de gestão das operações”, afirma Cleber Sabonaro, gerente de Inteligência Competitiva da ABIA.
De MEI a negócio mais estruturado
Um dos sinais mais claros dessa mudança aparece na quantidade de empresas que deixaram o regime de Microempreendedor Individual. Em 2025, 288,7 mil negócios migraram do MEI para categorias empresariais mais estruturadas, movimento que vem ganhando força nos últimos anos.
Para Caio Saad, CEO da Wise Sales, a migração mostra que parte dos empreendedores está conseguindo transformar operações inicialmente pequenas em negócios com maior escala. “Essa migração é um dos sinais mais claros da profissionalização do setor. O empreendedor entra pequeno, testa modelos, ajusta sua operação e, quando encontra consistência, evolui para negócios mais complexos”, afirma.
O movimento, no entanto, acontece em um ambiente de alta rotatividade. No mesmo período, foram encerrados 220,5 mil MEIs e 56,6 mil empresas que não estavam enquadradas nesse regime. A dinâmica revela um mercado no qual novos negócios entram constantemente, enquanto outros deixam de operar.
A combinação de baixa barreira de entrada, mudanças rápidas no comportamento do consumidor e necessidade de adaptação faz do food service um ambiente particularmente competitivo. Hoje, o país reúne mais de 1,2 milhão de estabelecimentos, entre restaurantes tradicionais e formatos mais recentes, como dark kitchens, microconfeitarias, hamburguerias artesanais e operações focadas exclusivamente em delivery. “O food service se tornou um laboratório de empreendedorismo. É onde o operador testa a aceitação do seu produto, valida o modelo e aprende a atuar em um ambiente real de mercado antes de expandir o negócio”, afirma Saad.
A expansão do delivery ajudou a diminuir algumas das barreiras para quem pretende entrar no setor. Com canais digitais, negócios menores conseguem alcançar consumidores sem necessariamente depender de uma estrutura física tradicional ou de uma localização em grandes centros.
O país também passa por uma descentralização das operações. O Sudeste ainda concentra 47,65% dos estabelecimentos, mas o Nordeste já responde por 21,96%, enquanto o Sul reúne 15,47%. Cidades médias e do interior também ganham espaço à medida que infraestrutura, conectividade e logística avançam. O delivery, que ganhou força durante a pandemia, deixou de ser apenas uma alternativa para momentos específicos e passou a integrar a estratégia de muitos estabelecimentos. A presença no canal influencia desde o cardápio até a precificação, a logística e a relação com o cliente.
Para a ABIA, o momento marca uma nova etapa para o mercado. O crescimento continua, mas acontece em meio a desafios como pressão de custos, escassez de mão de obra, maior exigência dos consumidores e necessidade de investir em tecnologia.
O resultado é um setor que continua atraindo novos empreendedores, mas no qual crescer deixou de significar apenas abrir uma empresa. A nova fronteira está em transformar operações pequenas em negócios sustentáveis, capazes de ganhar escala e acompanhar um consumidor cada vez mais digital e exigente.







