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Dívida de US$ 40 trilhões assusta mercado, e tentativa de Trump de acalmar investidores falha

Secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou recompra de títulos de longo prazo para tentar derrubar os juros dos Estados Unidos

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 20 ago 2026, 15h39 | Atualizado em 20 ago 2026, 20h13
Dívida de US$ 40 trilhões assusta mercado, e tentativa de Trump de acalmar investidores falha Priorizar nos meus resultados Google

O governo dos Estados Unidos tentou, nesta quinta-feira, 20, acalmar um dos mercados mais importantes do planeta. Não conseguiu.

A reação dos investidores mostrou que o problema vai muito além de uma oscilação momentânea nos títulos americanos.

Com a dívida pública dos Estados Unidos ultrapassando pela primeira vez a marca de US$ 40 trilhões, o mercado começa a exigir juros cada vez maiores para continuar financiando o governo.

A preocupação aumentou nos últimos dias, quando os juros dos títulos americanos de 30 anos chegaram aos maiores níveis desde 2007.

Na quarta-feira, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou uma intervenção para tentar reduzir a pressão.

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As polêmicas medidas de Donald Trump

O governo decidiu ao menos dobrar o volume de recompra de títulos com vencimentos entre dez e 30 anos, de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões por operação.

A reação inicial foi positiva. Os juros caíram, as ações subiram e o dólar perdeu força.

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O alívio, porém, durou pouco.

Nesta quinta-feira, os títulos de longo prazo voltaram a cair e o rendimento do Treasury de 30 anos chegou novamente a 5,27%, antes de recuar para perto de 5,24%.

O movimento apagou boa parte do efeito provocado pelo anúncio do governo no dia anterior.

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O episódio expõe uma preocupação crescente em Wall Street: o governo americano pode até tentar administrar os sintomas da crise de confiança, mas ainda não apresentou uma solução convincente para a causa do problema — o tamanho e a trajetória da dívida pública.

Primeiro, é preciso entender o que aconteceu

Para o leitor brasileiro, a operação anunciada por Bessent pode parecer estranha.

Afinal, por que um governo decide comprar títulos de dívida que ele próprio emitiu?

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Na prática, o Tesouro americano anunciou que vai recomprar parte dos títulos mais antigos que estão nas mãos dos investidores. Ao aumentar a demanda por esses papéis, o governo tenta melhorar a liquidez do mercado e reduzir a pressão sobre os juros de longo prazo.

Funciona, em teoria, como um comprador adicional entrando em um mercado que está enfrentando uma onda de vendas.

O problema é a escala.

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O mercado de títulos do governo americano movimenta dezenas de trilhões de dólares. Por isso, analistas consideram que recompras de US$ 4 bilhões por operação são pequenas diante do tamanho da dívida e do volume de títulos negociados. O anúncio ajudou a reduzir os juros inicialmente, mas não foi suficiente para mudar a percepção dos investidores sobre o problema fiscal dos Estados Unidos.

O que está assustando Wall Street?

A resposta pode ser resumida em uma pergunta: quem continuará comprando toda essa dívida?

Os Estados Unidos precisam emitir novos títulos constantemente para pagar vencimentos antigos e financiar o déficit do governo. Quanto maior o déficit, maior a quantidade de dinheiro que Washington precisa pedir emprestado.

E o volume está aumentando.

A dívida pública americana ultrapassou US$ 40 trilhões nesta semana, apenas cinco meses depois de atingir US$ 39 trilhões e dez meses após chegar a US$ 38 trilhões.

O problema não é apenas o tamanho absoluto da dívida. É a velocidade com que ela continua crescendo.

Os Estados Unidos vêm registrando déficits elevados há anos, impulsionados por gastos com programas sociais, defesa e juros da própria dívida. Ao mesmo tempo, cortes de impostos e novas despesas tornam mais difícil imaginar uma redução rápida do rombo fiscal.

Para continuar emprestando dinheiro a Washington, os investidores passaram a exigir uma remuneração maior.

É isso que está acontecendo com os Treasuries.

Por que a alta dos juros dos EUA importa?

Os títulos do governo americano são considerados a principal referência para o sistema financeiro mundial.

Quando os juros desses papéis sobem, o efeito se espalha.

Empresas precisam pagar mais para tomar empréstimos. Famílias enfrentam financiamentos mais caros. Outros governos também podem precisar elevar a remuneração oferecida aos investidores.

Nos Estados Unidos, a alta dos juros de longo prazo tem impacto direto sobre o custo das hipotecas. Em outros países, a consequência pode aparecer na forma de saída de capital dos mercados emergentes e valorização ou volatilidade do dólar.

Para o Brasil, o efeito pode ser particularmente relevante.

Se os títulos americanos passam a oferecer juros elevados, investidores têm menos incentivo para assumir riscos em países emergentes. Isso pode pressionar moedas como o real, elevar os juros exigidos de empresas e governos e aumentar a volatilidade da Bolsa.

Em outras palavras: quando o custo da dívida americana sobe, o impacto não fica restrito aos Estados Unidos.

A intervenção de Bessent virou um teste de confiança

A decisão do Tesouro foi interpretada pelo mercado como um sinal de que o governo está preocupado com a velocidade da alta dos juros.

Bessent afirmou nesta quinta-feira que a recompra poderia superar os US$ 4 bilhões por operação e indicou que a Casa Branca prepara uma nova ofensiva para reduzir o déficit público. Ele argumentou que os juros atuais não refletem adequadamente os fundamentos da economia americana e atribuiu parte da pressão a problemas de liquidez no mercado de títulos de 30 anos.

Mas o mercado quer mais do que sinais.

Analistas vêm apontando que uma estratégia baseada apenas na recompra de títulos não resolve o problema estrutural. Para reduzir a necessidade de financiamento, os Estados Unidos precisariam aumentar receitas, desacelerar os gastos ou combinar as duas medidas.

É justamente essa falta de um plano fiscal mais claro que alimenta a desconfiança.

O problema não é falta de compradores — por enquanto

É importante fazer uma distinção.

Os Estados Unidos não estão enfrentando uma crise de calote ou uma incapacidade imediata de financiar a própria dívida.

Os Treasuries continuam sendo um dos ativos mais negociados e importantes do mundo. O dólar permanece como a principal moeda de reserva internacional.

A questão é outra: o mercado está começando a cobrar mais caro para continuar financiando o governo americano.

Dados e análises recentes mostram que investidores vêm exigindo juros maiores para absorver a quantidade crescente de títulos emitidos pelo Tesouro. A preocupação está relacionada tanto ao volume de endividamento quanto ao risco de inflação e à necessidade de financiar déficits elevados por um período prolongado.

É uma diferença importante.

Os Estados Unidos não perderam o acesso ao crédito. Mas o crédito está ficando mais caro.

Trump terá de escolher entre três caminhos

A leitura de parte do mercado é que Washington terá cada vez menos espaço para ignorar o problema.

Se a dívida continuar crescendo rapidamente, o governo terá de escolher, em maior ou menor grau, entre três caminhos: reduzir o déficit, aceitar juros mais altos ou conviver com um dólar mais fraco.

O governo Trump argumenta que novas receitas com tarifas e medidas contra desperdícios e fraudes podem ajudar a melhorar as contas públicas. Bessent afirmou que existe uma possibilidade concreta de o déficit americano já ter atingido seu ponto máximo e indicou que uma nova iniciativa de ajuste fiscal será apresentada nos próximos dias.

Os investidores, no entanto, parecem esperar medidas concretas antes de mudar de posição.

A reação desta quinta-feira mostrou exatamente isso. Mesmo depois da intervenção do Tesouro, os títulos voltaram a sofrer vendas e os juros permaneceram próximos dos maiores níveis em quase duas décadas.

O recado do mercado é simples

A decisão de Bessent funcionou como um teste.

O Tesouro mostrou que está disposto a usar instrumentos para tentar melhorar o funcionamento do mercado e conter a pressão sobre os títulos de longo prazo. Mas os investidores responderam que isso, sozinho, não basta.

O problema é que a maior economia do mundo está acumulando dívida em ritmo acelerado justamente em um momento de inflação ainda sensível, aumento dos gastos públicos e incerteza sobre o apetite dos investidores estrangeiros para continuar financiando Washington.

A marca de US$ 40 trilhões transformou uma preocupação que antes parecia distante em um problema impossível de ignorar.

E o recado enviado pelo mercado nesta quinta-feira foi claro: recomprar alguns títulos pode reduzir a pressão por algumas horas. Resolver a trajetória da dívida exigirá algo muito maior.

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