Dívida de US$ 40 trilhões assusta mercado, e tentativa de Trump de acalmar investidores falha
Secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou recompra de títulos de longo prazo para tentar derrubar os juros dos Estados Unidos
O governo dos Estados Unidos tentou, nesta quinta-feira, 20, acalmar um dos mercados mais importantes do planeta. Não conseguiu.
A reação dos investidores mostrou que o problema vai muito além de uma oscilação momentânea nos títulos americanos.
Com a dívida pública dos Estados Unidos ultrapassando pela primeira vez a marca de US$ 40 trilhões, o mercado começa a exigir juros cada vez maiores para continuar financiando o governo.
A preocupação aumentou nos últimos dias, quando os juros dos títulos americanos de 30 anos chegaram aos maiores níveis desde 2007.
Na quarta-feira, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou uma intervenção para tentar reduzir a pressão.
O governo decidiu ao menos dobrar o volume de recompra de títulos com vencimentos entre dez e 30 anos, de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões por operação.
A reação inicial foi positiva. Os juros caíram, as ações subiram e o dólar perdeu força.
O alívio, porém, durou pouco.
Nesta quinta-feira, os títulos de longo prazo voltaram a cair e o rendimento do Treasury de 30 anos chegou novamente a 5,27%, antes de recuar para perto de 5,24%.
O movimento apagou boa parte do efeito provocado pelo anúncio do governo no dia anterior.
O episódio expõe uma preocupação crescente em Wall Street: o governo americano pode até tentar administrar os sintomas da crise de confiança, mas ainda não apresentou uma solução convincente para a causa do problema — o tamanho e a trajetória da dívida pública.
Primeiro, é preciso entender o que aconteceu
Para o leitor brasileiro, a operação anunciada por Bessent pode parecer estranha.
Afinal, por que um governo decide comprar títulos de dívida que ele próprio emitiu?
Na prática, o Tesouro americano anunciou que vai recomprar parte dos títulos mais antigos que estão nas mãos dos investidores. Ao aumentar a demanda por esses papéis, o governo tenta melhorar a liquidez do mercado e reduzir a pressão sobre os juros de longo prazo.
Funciona, em teoria, como um comprador adicional entrando em um mercado que está enfrentando uma onda de vendas.
O problema é a escala.
O mercado de títulos do governo americano movimenta dezenas de trilhões de dólares. Por isso, analistas consideram que recompras de US$ 4 bilhões por operação são pequenas diante do tamanho da dívida e do volume de títulos negociados. O anúncio ajudou a reduzir os juros inicialmente, mas não foi suficiente para mudar a percepção dos investidores sobre o problema fiscal dos Estados Unidos.
O que está assustando Wall Street?
A resposta pode ser resumida em uma pergunta: quem continuará comprando toda essa dívida?
Os Estados Unidos precisam emitir novos títulos constantemente para pagar vencimentos antigos e financiar o déficit do governo. Quanto maior o déficit, maior a quantidade de dinheiro que Washington precisa pedir emprestado.
E o volume está aumentando.
A dívida pública americana ultrapassou US$ 40 trilhões nesta semana, apenas cinco meses depois de atingir US$ 39 trilhões e dez meses após chegar a US$ 38 trilhões.
O problema não é apenas o tamanho absoluto da dívida. É a velocidade com que ela continua crescendo.
Os Estados Unidos vêm registrando déficits elevados há anos, impulsionados por gastos com programas sociais, defesa e juros da própria dívida. Ao mesmo tempo, cortes de impostos e novas despesas tornam mais difícil imaginar uma redução rápida do rombo fiscal.
Para continuar emprestando dinheiro a Washington, os investidores passaram a exigir uma remuneração maior.
É isso que está acontecendo com os Treasuries.
Por que a alta dos juros dos EUA importa?
Os títulos do governo americano são considerados a principal referência para o sistema financeiro mundial.
Quando os juros desses papéis sobem, o efeito se espalha.
Empresas precisam pagar mais para tomar empréstimos. Famílias enfrentam financiamentos mais caros. Outros governos também podem precisar elevar a remuneração oferecida aos investidores.
Nos Estados Unidos, a alta dos juros de longo prazo tem impacto direto sobre o custo das hipotecas. Em outros países, a consequência pode aparecer na forma de saída de capital dos mercados emergentes e valorização ou volatilidade do dólar.
Para o Brasil, o efeito pode ser particularmente relevante.
Se os títulos americanos passam a oferecer juros elevados, investidores têm menos incentivo para assumir riscos em países emergentes. Isso pode pressionar moedas como o real, elevar os juros exigidos de empresas e governos e aumentar a volatilidade da Bolsa.
Em outras palavras: quando o custo da dívida americana sobe, o impacto não fica restrito aos Estados Unidos.
A intervenção de Bessent virou um teste de confiança
A decisão do Tesouro foi interpretada pelo mercado como um sinal de que o governo está preocupado com a velocidade da alta dos juros.
Bessent afirmou nesta quinta-feira que a recompra poderia superar os US$ 4 bilhões por operação e indicou que a Casa Branca prepara uma nova ofensiva para reduzir o déficit público. Ele argumentou que os juros atuais não refletem adequadamente os fundamentos da economia americana e atribuiu parte da pressão a problemas de liquidez no mercado de títulos de 30 anos.
Mas o mercado quer mais do que sinais.
Analistas vêm apontando que uma estratégia baseada apenas na recompra de títulos não resolve o problema estrutural. Para reduzir a necessidade de financiamento, os Estados Unidos precisariam aumentar receitas, desacelerar os gastos ou combinar as duas medidas.
É justamente essa falta de um plano fiscal mais claro que alimenta a desconfiança.
O problema não é falta de compradores — por enquanto
É importante fazer uma distinção.
Os Estados Unidos não estão enfrentando uma crise de calote ou uma incapacidade imediata de financiar a própria dívida.
Os Treasuries continuam sendo um dos ativos mais negociados e importantes do mundo. O dólar permanece como a principal moeda de reserva internacional.
A questão é outra: o mercado está começando a cobrar mais caro para continuar financiando o governo americano.
Dados e análises recentes mostram que investidores vêm exigindo juros maiores para absorver a quantidade crescente de títulos emitidos pelo Tesouro. A preocupação está relacionada tanto ao volume de endividamento quanto ao risco de inflação e à necessidade de financiar déficits elevados por um período prolongado.
É uma diferença importante.
Os Estados Unidos não perderam o acesso ao crédito. Mas o crédito está ficando mais caro.
Trump terá de escolher entre três caminhos
A leitura de parte do mercado é que Washington terá cada vez menos espaço para ignorar o problema.
Se a dívida continuar crescendo rapidamente, o governo terá de escolher, em maior ou menor grau, entre três caminhos: reduzir o déficit, aceitar juros mais altos ou conviver com um dólar mais fraco.
O governo Trump argumenta que novas receitas com tarifas e medidas contra desperdícios e fraudes podem ajudar a melhorar as contas públicas. Bessent afirmou que existe uma possibilidade concreta de o déficit americano já ter atingido seu ponto máximo e indicou que uma nova iniciativa de ajuste fiscal será apresentada nos próximos dias.
Os investidores, no entanto, parecem esperar medidas concretas antes de mudar de posição.
A reação desta quinta-feira mostrou exatamente isso. Mesmo depois da intervenção do Tesouro, os títulos voltaram a sofrer vendas e os juros permaneceram próximos dos maiores níveis em quase duas décadas.
O recado do mercado é simples
A decisão de Bessent funcionou como um teste.
O Tesouro mostrou que está disposto a usar instrumentos para tentar melhorar o funcionamento do mercado e conter a pressão sobre os títulos de longo prazo. Mas os investidores responderam que isso, sozinho, não basta.
O problema é que a maior economia do mundo está acumulando dívida em ritmo acelerado justamente em um momento de inflação ainda sensível, aumento dos gastos públicos e incerteza sobre o apetite dos investidores estrangeiros para continuar financiando Washington.
A marca de US$ 40 trilhões transformou uma preocupação que antes parecia distante em um problema impossível de ignorar.
E o recado enviado pelo mercado nesta quinta-feira foi claro: recomprar alguns títulos pode reduzir a pressão por algumas horas. Resolver a trajetória da dívida exigirá algo muito maior.







