Dívida de R$ 132 milhões pode transformar credores em donos de 15 usinas solares
Execução do BTG contra garantidores atingiu financiamento de R$ 113 milhões da SPE UFV Infra 2, antiga Evolua Energia Operacional 2; fundo de reserva segue abaixo do exigido e credores estudam receber os ativos por meio de um FII
Investidores que colocaram R$ 113,3 milhões em um título de renda fixa lastreado em usinas solares podem terminar a operação como sócios dos próprios ativos. Uma execução de R$ 132,9 milhões movida pelo BTG contra garantidores ligados a outra operação acionou um gatilho no CRI da SPE UFV Infra 2, dona de 15 usinas fotovoltaicas. A companhia se chamava Evolua Energia Operacional 2 SPE Ltda. quando o CRI foi lançado, mas foi vendida no início do ano e posteriormente mudou de razão social. A Evolua não é mais proprietária dos ativos. O anúncio de início da emissão ainda identifica a companhia pelo nome anterior, com o mesmo CNPJ nº 40.996.047/0001-71 que hoje pertence à SPE UFV Infra 2.
A cobrança do BTG envolve notas comerciais da Infrasolar Holding e alcança a Infracapital Brasil FIP e João Alberto Bertin Sanches, que também figuram como fiadores do CRI da SPE UFV Infra 2. A ligação entre as duas estruturas foi suficiente para a Habitasec, securitizadora da operação solar, levar aos investidores a possibilidade de vencimento antecipado. Procurada pelo Radar Econômico, a Habitasec afirmou que só tomou conhecimento da execução em meados de julho e ressaltou que a Infrasolar não integra sua emissão.
O problema, porém, não veio apenas de fora. O fundo de reserva do próprio CRI ficou abaixo do nível previsto no contrato. Em maio, foi necessário recompor R$ 158,8 mil. A Habitasec informou ao Radar que o desenquadramento referente a julho ainda não foi regularizado. Na prática, a execução do BTG acionou um dos alarmes de uma estrutura que já apresentava um descumprimento próprio.
Se os investidores decidirem antecipar a dívida e executar as garantias, o desfecho poderá ser pouco convencional para quem comprou um papel de renda fixa. A proposta em discussão prevê avaliar 100% das ações da SPE UFV Infra 2, transferi-las à securitizadora e integralizá-las em um fundo imobiliário. Os credores receberiam cotas subordinadas desse FII como pagamento e passariam, indiretamente, a ter exposição patrimonial às 15 usinas.
Esse caminho está mais preparado do que parecia na época da emissão. O prospecto alertava que algumas garantias ainda dependiam de registros para se tornarem plenamente exequíveis. A Habitasec afirmou agora que todas estão constituídas e registradas. Disse também que a alternativa do FII, embora ainda dependa da aprovação dos investidores, passou por uma análise prévia de viabilidade antes de ser levada à assembleia.
A Brasol, indicada nos documentos como potencial gestora do fundo, não entrou em detalhes. Questionada pelo Radar sobre a estrutura e a diligência dos ativos, afirmou que “não comenta operações em análise e em processo de diligência”. A resposta, somada à confirmação da Habitasec de que a estrutura já teve sua viabilidade analisada, mostra que a hipótese de transformar os credores em donos econômicos das usinas saiu do terreno de uma cláusula contratual abstrata.
Os investidores decidirão os próximos passos em assembleia marcada para 26 de agosto. Até lá, a SPE UFV Infra 2 ainda pode regularizar pendências ou negociar uma saída. Mas, se isso não acontecer, uma dívida contraída em outra ponta da estrutura pode terminar produzindo um resultado improvável: quem comprou um CRI para receber juros poderá sair com participação em 15 usinas solares.
Errata: Uma versão anterior desta matéria identificava as 15 usinas como pertencentes à Evolua. A companhia que detém os ativos se chamava Evolua Energia Operacional 2 SPE Ltda. quando o CRI foi lançado, mas foi vendida no início do ano e atualmente se chama SPE UFV Infra 2 S.A. A Evolua não mantém participação na empresa.







