Distribuidoras levam ‘gas release’ aos presidenciáveis em meio a embate com Petrobras
Abegás quer colocar leilões compulsórios de gás na agenda eleitoral enquanto ANP avança com programa de desconcentração contestado pela estatal
As distribuidoras de gás canalizado decidiram levar para a campanha presidencial uma das disputas mais delicadas da política energética brasileira. Em uma agenda preparada para os candidatos nas eleições de 2026, a Abegás, associação que representa as concessionárias do setor, defende a criação de leilões compulsórios de volumes de gás controlados pelo agente dominante do mercado, mecanismo conhecido como gas release. O objetivo declarado é reduzir a concentração e aumentar a competição entre fornecedores.
A proposta chega aos presidenciáveis justamente quando o tema abriu uma frente de conflito entre a Petrobras e a Agência Nacional do Petróleo. A ANP colocou em consulta pública uma regulamentação do gas release e pretende estabelecer regras para obrigar empresas com elevada participação no mercado a disponibilizar parte do gás que comercializam em leilões. A consulta termina em 28 de setembro e a audiência pública está marcada para 21 de outubro.
Na prática, o mecanismo tenta atacar uma peculiaridade do mercado brasileiro. A Petrobras já perdeu boa parte do monopólio que exerceu no passado, mas continua sendo a principal comercializadora de gás do país e também compra volumes produzidos por outras petroleiras para revendê-los. O desenho colocado em discussão pela ANP preserva um ponto especialmente sensível para a companhia: o gás produzido diretamente pela Petrobras não entraria nos leilões compulsórios. A proposta alcança principalmente moléculas compradas de terceiros ou importadas da Bolívia.
Nem isso foi suficiente para encerrar a resistência da estatal. A Petrobras argumenta que trocar o dono de uma molécula que já está disponível no mercado não significa produzir mais gás e, portanto, não garante preços menores. A companhia sustenta ainda que a abertura avançou nos últimos anos: diz possuir atualmente cerca de 56% do mercado, enfrentar a concorrência de 31 empresas e negociar em um ambiente com mais de cem consumidores livres.
A discussão ganhou temperatura porque mexeu até com planos de investimento. No início de agosto, a Petrobras suspendeu os estudos de um gasoduto estimado em 1 bilhão de dólares ligado ao projeto Sergipe Águas Profundas, segundo fontes ouvidas pela Reuters. A preocupação era que mudanças nas regras do mercado alterassem a rentabilidade de um projeto concebido para ampliar justamente a chegada de gás nacional ao mercado. A decisão ocorreu antes de a ANP detalhar a versão atual do programa, que exclui a produção própria da companhia dos volumes compulsórios.
Do outro lado, a ANP sustenta que a queda da participação da Petrobras ainda não foi suficiente para produzir concorrência efetiva. Ao apresentar o programa, o diretor Pietro Mendes afirmou que a estatal compra de terceiros cerca de 3,5 milhões de metros cúbicos de gás por dia e destacou a diferença entre o preço pago na origem e o valor de revenda. A agência vê justamente esses volumes adquiridos de outros produtores como uma das principais fontes para abastecer os futuros leilões. A comparação de preços, porém, precisa ser feita com cautela, porque entre a compra e a venda existem custos de processamento e transporte.
É nesse embate que a movimentação das distribuidoras ganha peso político. O documento da Abegás não se limita a defender mais competição de forma abstrata. A entidade pede explicitamente que a ANP implemente leilões compulsórios do agente dominante e fixe metas de desconcentração. E deixa claro que o pacote foi produzido para subsidiar os programas dos candidatos ao Executivo e ao Legislativo nas eleições deste ano.
Ao colocar o gas release na agenda eleitoral, as distribuidoras tentam levar para o próximo governo uma discussão que hoje está sendo decidida dentro da agência reguladora. A escolha não é trivial. De um lado, está a aposta de que a venda compulsória de volumes controlados pelo maior agente do mercado pode acelerar a competição. Do outro, o argumento da Petrobras de que intervenções desse tipo podem aumentar a insegurança sobre investimentos bilionários necessários para fazer chegar mais gás ao consumidor. A eleição de 2026 começa, assim, a receber uma disputa que o setor de energia ainda está longe de resolver.







