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Disparada do petróleo transforma crise internacional em ganhos bilionários para o Brasil

A alta abre um importante debate sobre como não desperdiçar essa fortuna

Por Juliana Elias Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 31 Maio 2026, 08h00
Disparada do petróleo transforma crise internacional em ganhos bilionários para o Brasil Priorize VEJA no Google

Em 2010, diante das reservas recém-descobertas do pré-­sal, o ex-ministro Antonio Delfim Netto resumiu o significado daquela riqueza: “Estamos em posição muito mais confortável do que nos últimos cinquenta anos e temos que aproveitar bem esse bônus concedido pela natureza”. Ele falava com experiência. Nos anos 1970, quando Netto foi ministro da Fazenda, dois choques do petróleo expuseram a fragilidade energética do mundo e atingiram em cheio o Brasil, onde 80% do petróleo consumido era importado. Em 1973, após o corte de produção da Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a Opep, o preço do barril saltou de menos de 3 dólares para 11. No fim da década, avançou de 13 para 30 dólares, agravando o desequilíbrio das contas externas e ajudando a alimentar a hiperinflação dos anos seguintes. Cerca de cinquenta anos depois, o mundo enfrenta um novo choque energético. Desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã, em fevereiro passado, pelo menos um quinto da produção global ficou represada no Golfo Pérsico, elevando o preço de 65 dólares para mais de 100 por barril. A diferença é que o Brasil de hoje ocupa posição oposta à daquele período.

Gráfico de linha mostrando a porcentagem das receitas de petróleo no PIB brasileiro de 2011 a 2026. Em 2011, era 1,2%, equivalente a 52 bilhões de reais. A projeção para 2026 é de 2,5%, equivalente a 330 bilhões de reais, com um pico em 2022 e aumento acentuado a partir de 2024

O país se tornou um dos dez maiores produtores de petróleo do mundo e, desde 2016, exporta mais do que importa. Se antes crises do setor ampliavam a vulnerabilidade brasileira, agora elas encontram um país mais protegido e capaz de extrair ganhos econômicos da turbulência internacional. “É a primeira vez que passamos por um choque como este tendo um colchão de reservas disponível para amortecer os efeitos da crise”, diz Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras. “Nas anteriores, as reservas sempre acabavam. Isso nos coloca entre os países que menos devem sofrer com o conflito.” A nova realidade brasileira, porém, não equivale a um cheque em branco. A abundância de petróleo reduz fragilidades históricas, mas não elimina a necessidade de prudência nem deixa o país imune às oscilações do mercado global.

SOCORRO - Dario Durigan, da Fazenda: segundo ele, subsídios aos combustíveis serão temporários
SOCORRO - Dario Durigan, da Fazenda: segundo ele, subsídios aos combustíveis serão temporários (Washington Costa/.)
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A mudança de status do Brasil fica evidente quando se observam os números com atenção. O país integra agora o grupo restrito de produtores para os quais um choque dessa magnitude passou a gerar ganhos extraordinários. Estimativas de pesquisadores da Fundação Getulio Vargas apontam que a arrecadação total do Estado brasileiro com rendas do petróleo pode superar 330 bilhões de reais em 2026 — é o equivalente a 2,5% do PIB, no que seria a maior proporção já registrada. O cálculo inclui royalties, impostos e, no caso da Petrobras, dividendos distribuídos à União. Desse montante, aproximadamente 100 bilhões de reais surgiram como receita adicional provocada pela guerra entre Estados Unidos e Irã, que elevou em torno de 50% o valor do barril em dólar. O estudo é assinado por Bráulio Borges e Manoel Pires, do Instituto Brasileiro de Economia da FGV. “Trata-se de uma receita que era inexpressiva há dez anos e que ainda vai crescer mais”, diz Borges. Em 25 anos, a produção nacional praticamente triplicou, passando de 1,3 milhão de barris em 2000 para 3,7 milhões no ano passado. O alerta, segundo Borges, está em outro ponto: “O risco são os governos usarem o que é receita excedente temporária para criar despesas permanentes”.

Com a ajuda da fartura do petróleo, o governo federal deverá arrecadar, em 2026, ao menos 50 bilhões de reais acima do previsto, segundo estimativas de analistas e da própria equipe econômica — um reforço e tanto ante o desequilíbrio das contas públicas na administração petista. Parte desse ganho adicional, porém, já tem destino definido. Há alguns dias, o presidente Lula anunciou medidas emergenciais controversas, como subsídios ao diesel, à gasolina e até às companhias aéreas. Em sua defesa, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, assegurou que as ações são transitórias e não agravam o quadro fiscal.

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ATRASO - Lula durante regulamentação do pré-sal, em 2009: nos últimos anos, a gestão dos recursos pouco avançou
ATRASO - Lula durante regulamentação do pré-sal, em 2009: nos últimos anos, a gestão dos recursos pouco avançou (Sérgio Lima/Folhapress/.)

Em outros momentos de disparada do petróleo, o país recorreu a medidas que deixaram custos prolongados e cicatrizes na economia, como o congelamento de preços e os prejuízos bilionários acumulados pela Petrobras no governo Dilma Rousseff e o corte compulsório do ICMS sobre combustíveis na gestão Jair Bolsonaro, posteriormente coberto pelo Tesouro. A lógica era sempre a mesma: combater o choque externo, mas com medidas cujos custos se revelavam altos demais depois. Desta vez, o mecanismo funciona ao contrário: parte do impacto da alta do petróleo chega acompanhada de arrecadação adicional, e não de um rombo a ser tapado. É essa inversão que oferece ao governo um bônus encorpado que o país nunca teve. A questão, como alertam os economistas, não é se o ganho extra existe, mas se será usado com parcimônia suficiente para durar além da crise.

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Os subsídios anunciados em resposta à guerra devem consumir cerca de 25 bilhões de reais dos cofres públicos, podendo alcançar 43 bilhões caso sejam prorrogados até o fim do ano, segundo estimativas feitas pelo banco BTG Pactual. Em contrapartida, a receita adicional gerada pelo petróleo mais caro tende a superar esse custo. O alívio, contudo, tem alcance limitado. Mesmo com a arrecadação reforçada pela escalada de preços do barril de petróleo, as contas públicas devem permanecer no vermelho. Segundo a média das projeções reunidas no boletim Prisma Fiscal, o governo federal deverá encerrar o ano com déficit de 58 bilhões de reais, um cenário menos grave do que o projetado no início da guerra, quando a estimativa chegava a 67 bilhões, mas ainda assim alarmante. “Nem é factível politicamente atravessar um choque desse tamanho sem algum tipo de apoio”, afirma Fábio Serrano, economista do BTG. “Mas não se pode perder de vista que esse é um ganho temporário. O benefício da arrecadação passa, enquanto o desafio fiscal do Brasil continua.”

Gráfico de linhas mostrando a balança comercial de petróleo e derivados, em bilhões de dólares, de 2000 a 2026. Exportações (linha verde) e importações (linha vermelha) mostram um saldo positivo de 34,8 bilhões de dólares em 2026, com exportações de 58,6 bilhões e importações de 23,8 bilhões. A área entre as linhas é sombreada em cinza claro, indicando o saldo. O título é

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O percurso das receitas geradas pelo petróleo fica mais nebuloso quando elas deixam Brasília e chegam a estados e municípios, destinatários da outra metade das rendas. “Tem prefeito que usa o dinheiro para melhorar uma escola ou um hospital, e tem os que usam para colocar granito na praça ou pagar um show milionário”, diz David Zylbersztajn, professor do Instituto de Energia da PUC-Rio e ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo. “São recursos com pouca transparência e que deveriam ser bem monitorados, em especial porque vão acabar.” A discussão, portanto, vai além da guerra atual e da alta do barril. O ponto central é o uso que o Brasil pretende dar à riqueza produzida por suas reservas. “A Noruega e o Chile são exemplos de países que criaram uma boa governança de suas receitas com recursos naturais, para não consumir tudo no presente”, diz Borges, da FGV. “Mas o Brasil está longe disso.” O desafio é impedir que o dinheiro que jorra do petróleo seja consumido todo agora, com fins eleitoreiros, e guardar um pouco para o futuro.

Publicado em VEJA de 29 de maio de 2026, edição nº 2997

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