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Dilma tem de dissipar rumores sobre presidência do BC

Cotados ao cargo têm perfis discrepantes, o que só aumenta as incertezas sobre o que esperar para o futuro do órgão e da economia

Todas as atenções dos especialistas estarão voltados, nos próximos dias, a quem será o escolhido para ficar à frente do Banco Central (veja análise dos mais cotados). A depender do nome, o mercado refará suas apostas sobre o que esperar da economia no governo Dilma. O clima de incerteza já começa a afetar alguns indicadores, como as expectativas para as taxas de juros. O que se espera é que a presidente eleita – por mais que se compreenda o cuidado em não melindrar o presidente Lula, que tem um mês até ‘passar o bastão’ – venha a público expor suas convicções e, de preferência, reafirmar o compromisso com a estratégia bem-sucedida de combinar política monetária independente e ajuste fiscal.

Durante a campanha, Dilma fazia coro à postura do presidente Lula de que não se “brinca com a estabilidade”. Por repetidas vezes, alardeou um Banco Central autonômo e a continuidade da política econômica. Nos últimos dias, entretanto, têm vindo da Granja do Torto sinais preocupantes, na esteira dos rumores sobre quem ocupará a presidência do BC. A hipótese da permanência de Henrique Meirelles – que chegou a ser cogitada na semana passada – teria perdido força por conta da suposta exigência de garantias de independência do órgão. Reforça essa percepção a continuidade, já praticamente assegurada, de Guido Mantega na pasta da Fazenda. Claro defensor de um estado que usa o gasto público para induzir o crescimento, Mantega é um opositor de Meirelles – pois este, ao contrário do ministro, vê como ideal a limitação da expansão das despesas para diminuir os riscos de descontrole da inflação e, assim, reduzir a necessidade de juros altos.

Veja abaixo os candidatos ao BC e a avaliação do mercado

Economistas ouvidos pelo site de VEJA avaliam os nomes mais cotados para a presidência do Banco Central.

Alexandre Tombini – Diretor de Normas e Organização do Sistema Financeiro do Banco Central desde abril de 2006, é o mais cotado para assumir o cargo de Meirelles. Funcionário de carreira do BC, Tombini é um nome festejado pelo mercado porque representa continuidade, além de ter bom relacionamento com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e com o presidente do BNDES, Luciano Coutinho.

A história de Tombini no Banco Central conta a seu favor pelo fato de não precisar de uma transição complexa nem de tempo de aprendizado. Dentro do BC, já foi diretor de Assuntos Internacionais e de Estudos Especiais, e organizou e implementou o Departamento de Pesquisas – setor responsável pelo desenvolvimento do sistema de metas de inflação.

Nelson Barbosa – Secretário de Políticas Econômicas do Ministério da Fazenda, é nome de confiança da presidente eleita. Dono de reconhecida competência técnica e elogiada formação econômica, o desempenho do secretário na elaboração do programa “Minha Casa, Minha Vida” e na assessoria do PAC impressionou Dilma.

Apesar de ter livre trânsito e saber falar a ‘língua do mercado’, Barbosa costuma fazer declarações que causam arrepios aos investidores. Um exemplo é a defesa da tese de que os juros no Brasil são altos, em boa parte, por um ‘excesso de conservadorismo’ do BC. Outro ponto que proclama é que o Estado precisa gastar para induzir o crescimento justamente porque a política monetária seria um obstáculo a essa conquista. Neste sentido, ele se aproxima das teses da chamada ala desenvolvimentista do governo.

Uma eventual escolha de Nelson Barbosa para presidir o Banco Central seria interpretado pelos investidores como um mau sinal. Possivelmente haveria uma coordenação com a Fazenda, que, na prática, implicaria a eliminação da autonomia do BC e submissão ao ministro Mantega.

Octávio de Barros – Para o mercado, o diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Ecônomicos do Bradesco, Octávio de Barros é considerado o candidato menos provável a ocupar a presidência do BC e também o que gera maiores dúvidas. Os especialistas creditam a uma campanha pessoal do economista o fato de seu nome sempre ser cogitado pela imprensa para o cargo.

A seu favor pesam a sólida experiência profissional, inclusive com passagens pelo próprio BC e o Ministério da Fazenda; o fator de ocupar um cargo de visibilidade no Bradesco; e de ter boa formação econômica. Contudo, sua credibilidade foi maculada pela aproximação com a ala desenvolvimentista da administração Lula – especialmente Luciano Coutinho, presidente do BNDES. Os investidores costumam dizer que, quando critica o governo federal, Barros o faz de forma mais condescedente que a média. Quando se vê diante da tarefa de falar bem, em geral exagera na euforia. Credita-se a ele contribuições para a maior aproximação entre membros do governo e executivos do Bradesco, bem como na costura de alianças com o Banco do Brasil na oferta de produtos financeiros.

Caso seja indicado para a presidência do BC, terá de convencer o mercado de que lado estará. Talvez se faça necessária a intervenção da presidente Dilma, pondo-se como fiadora da estabilidade macroeconômica e da independência do cargo.

Fábio Barbosa – Atual presidente da Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN) e do Grupo Santander, o administrador pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), Fábio Barbosa, consolidou sua carreira em grandes empresas, como na suiça Nestlé, onde permaneceu por 12 anos. Sua estreia no mercado financeiro se deu em 1986, quando ingressou no Citibank.

Os analistas acreditam que sua possível indicação para a presidência do Banco Central será positiva para a perpetuação da estabilidade e autonomia da autarquia. O mercado vê com satisfação as semelhanças entre Barbosa e o próprio Henrique Meirelles. Ambos notabilizaram-se por sólidas carreiras como executivos do mercado financeiro, que é considerado uma ‘escola natural’ para ocupantes ao cargo máximo da Banco Central.

A chegada de outro membro do setor privado ao BC – com a vantagem de Barbosa não ter conexão com nenhum partido político, ao passo que Meirelles é filiado ao PMDB – seria um bom sinal do governo Dilma Rousseff de compromisso com a estabilidade macroeconômica.