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Dilma retarda envio de diplomatas ao exterior e atrapalha o agronegócio

Adidos agrícolas, que trabalham em embaixadas na interlocução entre exportadores brasileiros e compradores estrangeiros, esperam há dois meses a assinatura da presidente para iniciar trabalhos em seus respectivos postos

Por Luís Lima - 24 ago 2014, 07h58

Os exportadores do agronegócio brasileiro contam, desde 2010, com uma turma de diplomatas para representar seus interesses nos principais mercados importadores: trata-se dos adidos agrícolas. O primeiro grupo, que partiu ainda durante o governo Lula, voltou ao Brasil em junho deste ano. Desde então, a segunda turma está pronta para assumir. O problema é que a presidente Dilma Rousseff, por razão desconhecida, não assinou o decreto autorizando a partida do grupo. E, segundo a Casa Civil, não há previsão de que autorize tão cedo. Isso significa que, no caso do aumento das exportações de carne brasileira para a Rússia, por exemplo, não há um diplomata do setor no posto de Moscou apto a conduzir as negociações.

Os novos adidos foram escolhidos pelo Ministério da Agricultura para ocupar sete representações diplomáticas brasileiras no exterior: em Buenos Aires, Bruxelas, Genebra, Moscou, Pretória, Tóquio e Washington. Segundo a assessoria de imprensa da Casa Civil, o processo de nomeação ainda se encontra em tramitação e “não há previsão para a conclusão”. A demora resultará na descontinuidade do trabalho dos primeiros adidos, segundo uma fonte do alto escalão da pasta.

Um dos trabalhos mais importantes a ser executado por um adido no atual momento é a negociação com a Rússia sobre o aumento das exportações de carne brasileira. No início deste mês, Moscou impôs um embargo à importação de alimentos e produtos agrícolas da União Europeia e dos Estados Unidos, o que, segundo o ministro da Agricultura do país, Nicolai Fyodorov, poderia ser compensado, em partes, com um maior fornecimento de carne do Brasil. “Empresas como JBS e Marfrig estão de olho nesse mercado. E, num momento como este, não há um adido para facilitar a interlocução com o governo russo”, afirmou a fonte.

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Para o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, o atraso pode prejudicar a costura de um acordo entre os dois países no âmbito do aumento das exportações. “Esta é uma oportunidade em que um adido deveria estar trabalhando 24 horas por dia na Rússia. O adido tem um papel fundamental na costura e no entendimento das negociações que envolvem o agronegócio. Eles recebem as demandas de empresas, do governo do Brasil e do país em que estão”, disse Rodrigues, que também é coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (GV Agro).

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De acordo com outra fonte do Ministério da Agricultura, o progresso nas negociações com os Estados Unidos para a venda de carne suína e de abertura de mercado para a carne bovina in natura são outros pontos que já poderiam estar sendo trabalhados. “Além disso, temos a questão do acordo comercial entre o Mercosul e União Europeia. A falta de um adido que esteja na linha de frente na Europa prejudica a velocidade com que as decisões são tomadas”, disse.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) realizou um encontro, em Brasília, para reunir os adidos agrícolas selecionados em 2010 e 2014. Durante o evento, Tatiana Palermo, superintendente de Relações Internacionais da entidade, ressaltou que os adidos são responsáveis, dentre outras atribuições, pelo início das negociações de protocolos fitossanitários. “Sem eles, nós não podemos vender para o exterior, pois esses documentos são como ‘passaportes’ de nossos produtos agropecuários, que atestam a qualidade do serviço sanitário brasileiro”, explicou.

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