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Desigualdade de renda e desemprego juvenil

Para o professor Mark Esposito, desemprego juvenil pode impulsionar ainda mais a desigualdade

Por Mark Esposito 19 jul 2014, 16h54

Nos momentos em que O Capital no Século XXI, o polêmico livro de Thomas Piketty, encabeça várias listas dos livros mais vendidos, a desigualdade de renda – que vem aumentando desde os anos 70 – volta a ser o cento da atenção mundial. No debate em torno desse problema, muito se repercutiu, apontando-se a diminuição da coesão social, o crescimento de favelas, a exploração da mão de obra e o enfraquecimento das classes médias. Mas existe um efeito que, relativamente, recebeu pouca atenção: o desemprego juvenil e subemprego em geral.

Desde o início a crise econômica global, o desemprego juvenil tem aumentado em todo o mundo. Nos países desenvolvidos, 18% das pessoas entre 16 e 24 anos estão desempregadas. A taxa de desemprego juvenil na Alemanha continua sendo relativamente baixa (9%), 16% nos Estados Unidos, 20% no Reino Unido e acima de 50% na Espanha e na Grécia. Estima-se que no Oriente Médio e norte da África também os índices de desemprego juvenil sejam muito altos: 28% e 24% respectivamente. Por outro lado, apenas 10% dos jovens na Ásia Oriental e 9% no sul da Ásia, estão desempregados.

Não obstante, as autoridades tomaram relativamente poucas medidas para abordar o problema. O mundo hoje corre o risco de criar o que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) tem chamado de uma “geração perdida,” com o desemprego global juvenil chegando a 13% em 2018.

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Não há um único fator que explique essa tendência. Na China, por exemplo, o desemprego juvenil se origina principalmente pelo predomínio do setor manufatureiro, que oferece muito mais oportunidades de emprego para os graduados de escola secundária do que aos trabalhadores com formação universitária.

Outro fator para o desemprego juvenil pode ser relacionado aos desajustes de mercado. Em uma pesquisa realizada recentemente em nove países da União Europeia, 72% dos educadores responderam dizendo que os recém-formados são qualificados para atender às necessidades dos empregadores, enquanto que 43% dos empregadores relataram que os candidatos não possuem as habilidades necessárias.

No Reino Unido, por exemplo, apenas 7% das crianças e jovens frequentam escolas particulares, mas cerca da metade dos CEOs do país e dois terços dos seus médicos foram educados nesse sistema. Esta tendência deverá persistir e a próxima geração de médicos terá nascido em famílias pertencentes aos 20% mais ricos da população.

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Há várias razões possíveis para este padrão. Para começar, é necessário ter sido educado nos centros educacionais mais prestigiados para alcançar posições de maior status – e isso custa dinheiro. Além disso, muitos estágios – um pré-requisito para os trabalhos mais atraentes – não são pagos, tornando-os inviáveis para graduados cujas famílias não podem apoiá-los nesse período.

Mas dinheiro não é a única exigência. Em muitos casos, os empregos e estágios mais procurados – e mesmo as admissões às melhores instituições de ensino superiores – são muito mais acessíveis para aqueles que pertencem à rede pessoal ou profissional de empregadores. Quando o mercado de trabalho recompensa os que têm melhores contatos do que o que os que têm maior conhecimento, os jovens com pais bem conectados têm uma vantagem óbvia.

A desiguadade se agrava se os procedimentos de contratação são inerentemente mais tendenciosos. Enquanto as empresas podem, em teoria, reconhecer o valor de reunir talentos procedentes de uma variedade de origens, tendem a recrutar candidatos com habilidades, experiências e qualificações similares. Mesmo se alguém com uma formação ou experiência de trabalho diferente consegue entrar em contato com os responsáveis de uma contratação, eles devem superar a percepção de que representam uma escolha mais arriscada.

O fato de que os resultados acadêmicos estão entre os melhores critérios de contratação distorce ainda mais os resultados. É mais provável que pessoas que tiveram o privilégio de receber educação privada consigam entrar nas mais conceituadas universidades. Muitas vezes, a pequena proporção de estudantes de origens mais pobres que conseguem ser admitidos ou ganham bolsas de estudo em instituições de primeiro nível obtêm notas mais baixas, especialmente no final de sua formação, devido à sua preparação anterior de menor qualidade.

Na prática, as limitações financeiras impedem muitos alunos de frequentar qualquer universidade, uma vez que esses necessitam ter uma renda que só o emprego em tempo integral pode fornecer. Como resultado, sua capacidade de ganho é severamente restrita, independentemente de seu talento ou ética de trabalho.

A fim de criar condições equitativas, os empregadores deveriam repensar suas estratégias de recrutamento e considerar candidatos que respondam a critérios mais amplos. A diversidade resultante beneficiaria muito mais as suas empresas.

Com situação financeira servindo como o determinante-chave de oportunidades, jovens de origens mais pobres ficarão cada vez mais desanimados – uma situação que pode levar à agitação social. A menos que todos os jovens contem com perspectivas legítimas de melhorar sua situação social e econômica, o fosso entre ricos e pobres continuará aumentando, criando um ciclo vicioso que será cada vez mais difícil escapar.

A boa notícia é que as iniciativas para aliviar o desemprego juvenil irão reduzir a desigualdade de renda e vice-versa. A sociedade que emerge será mais estável, unificada e próspera – um resultado que convém a todos, ricos ou pobres.

Mark Esposito é professor escola de extensão da Universidade de Harvard e da Escola de Negócios de Grenoble, na França

(Tradução: Roseli Honório)

© Project Syndicate, 2014

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