Desaceleração dos serviços confirma efeito dos juros, dizem especialistas
Resultado de maio mostra perda gradual de ritmo da atividade, enquanto inflação e cenário externo seguem no radar
O volume de serviços no Brasil recuou 0,4% em maio na comparação com abril, interrompendo o avanço de 1,1% registrado no mês anterior, segundo dados divulgados nesta quarta-feira (15) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar da queda, o setor permanece 19,6% acima do nível observado antes da pandemia e apenas 0,5% abaixo do maior patamar da série histórica, alcançado em outubro de 2025.
Na comparação com maio do ano passado, o setor ainda avançou 0,4%, acumulando o 26º resultado positivo consecutivo nessa base de comparação. No acumulado de 2026 até maio, o crescimento é de 1,9%, enquanto a expansão em 12 meses desacelerou de 2,9% para 2,6%.
Para especialistas, o resultado sinaliza que a economia começa a sentir de forma mais evidente os efeitos da política monetária restritiva, embora o desempenho ainda indique resiliência da atividade. Segundo Peterson Rizzo, Head de Relações com Investidores da Multiplike, a retração sugere que os juros elevados começam a impactar principalmente os segmentos mais dependentes de crédito e da circulação de mercadorias. “O principal sinal não está apenas na queda mensal, mas na perda gradual de fôlego do crescimento acumulado, compatível com uma economia submetida a condições financeiras restritivas”, afirma.
Para o Banco Central, o indicador reforça que a política monetária segue produzindo efeitos sobre a economia real, mas, isoladamente, não altera de maneira significativa as expectativas para a trajetória da Selic. Rizzo também alerta para fatores externos que podem limitar uma recuperação mais consistente da atividade nos próximos meses. “Eventuais altas do petróleo, com impacto sobre transporte e logística, além do aumento das tensões comerciais globais, podem pressionar custos, câmbio e preços, criando um ambiente de menor crescimento e inflação mais persistente”, diz.
Queda foi concentrada em alguns segmentos
A leitura também é compartilhada por Isaelson Oliveira, fundador do Grupo Hi, que ressalta que o resultado não representa uma desaceleração generalizada do setor. Segundo ele, o recuo ficou concentrado principalmente nas atividades de transportes e em outros serviços, enquanto os serviços prestados às famílias continuaram avançando, com alta de 0,2% no mês.
Para Oliveira, esse comportamento ajuda a explicar por que empresas organizadas em redes de franquias seguem encontrando espaço para crescer, mesmo em um ambiente econômico mais desafiador. “As franquias conseguem ganhar participação sobre operações independentes porque oferecem padronização, previsibilidade de preços, conveniência e eficiência operacional. Essa capacidade de ganhar escala ajuda inclusive a conter parte dos repasses de custos ao consumidor”, afirma.
Apesar disso, ele pondera que a inflação de serviços ainda merece atenção das autoridades monetárias. “Salários, energia e aluguéis continuam pressionando os custos do setor, o que pode manter a inflação de serviços resistente e limitar um ritmo mais acelerado de cortes na Selic”, conclui.







