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Depois de desistir do IPO, Havan projeta faturamento de R$ 16 bi em 2021

Varejista pretende avançar sua agenda digital este ano; dono da rede de lojas, Luciano Hang participou de protesto contra João Doria na última sexta-feira

Por Felipe Mendes Atualizado em 14 fev 2021, 12h34 - Publicado em 14 fev 2021, 07h39

Assim que recebeu alta de uma unidade do hospital Santa Maggiore, da rede Prevent Senior, em São Paulo, onde se recuperava dos sintomas do novo coronavírus, o empresário Luciano Hang ficou sabendo da situação deplorável dos centros médicos em Manaus (AM), com escassez de insumos básicos como oxigênio e respiradores. Em conversa com o comediante Tirulipa, filho do deputado federal Tiririca (PL-SP), o dono da rede de lojas Havan se compadeceu e resolveu doar 200 cilindros de oxigênio para os hospitais manauaras. “Liguei para um amigo meu que fornece cilindros e falei: ‘Me arranja 200. Eu não quero saber quanto custa, de que forma vai chegar, só quero que esteja disponível amanhã’”, contou a VEJA. Era uma quarta-feira, 27 de janeiro. Menos de um dia depois, um avião encarregado com uma remessa de 50 cilindros partiu para Manaus. Ao falar sobre a crise sanitária do estado amazonense, o empresário prega o uso do tratamento preventivo por meio de remédios que não têm eficácia científica comprovada para Covid-19 — algo também defendido pelo governo federal antes de a crise atingir o auge na região, em vez de providenciar o oxigênio que seria necessário nos dias seguintes. “Eu acho que Manaus precisa prescrever mais o tratamento precoce”, diz ele, que recentemente perdeu a mãe para a doença, mas se defende das acusações de ser ‘negacionista’. “Eu sou a favor da vacina.”

Fora do ambiente das polêmicas, Hang tenta se agarrar ao trabalho para superar o momento difícil da perda familiar. Proprietário e um dos fundadores da maior rede de lojas de departamento do país, a varejista Havan, sediada em Brusque (SC), o empresário quer manter o crescimento intensivo da rede pelo país. Hoje, são 155 unidades espalhadas por 17 estados. Com investimento avaliado em 400 milhões de reais, o plano de expansão da companhia prevê a inauguração de 20 a 25 lojas este ano — dois estabelecimentos foram abertos em janeiro e há 15 futuras lojas em obras. O objetivo com isso é alcançar um faturamento de 16 bilhões de reais, crescimento de quase 50% frente a 2020. “No ano passado, demos 1,3 bilhão de reais de lucro, 30% a mais que em 2019. Continuamos sendo o diferente do mercado. Fizemos isso em um ano dificílimo”, comemora.

Luciano Hang lidera protesto
INDIGNAÇÃO – Manifesto contra o governador João Doria: Luciano Hang, dono da Havan, lidera protesto contra medidas restritivas para o funcionamento do comércio em Bauru (SP) – Havan/Divulgação

Apoiador contumaz do presidente Jair Bolsonaro, Hang não tem papas na língua para criticar o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). “Fizeram do estado de São Paulo um cemitério. Está tudo fechado. Estão aterrorizando as pessoas”, acusa. Na manhã da última sexta-feira, 12, o empresário se enfiou em um helicóptero azul e branco, as cores da varejista, e se deslocou de Brusque a Bauru, no interior de São Paulo, para encabeçar um protesto contra as medidas de restrição do governo do tucano. O munícipio interiorano está na fase vermelha, a mais restritiva do Plano São Paulo, que monitora o funcionamento dos setores da economia de acordo com o número de casos de Covid-19 em cada região. Em cima de um trio elétrico ao lado da prefeita da cidade, Suellen Rosim (Patriota), e do senador Major Olimpio (PSL-SP), ele se comprometeu a ampliar a unidade da Havan na região.

Após desistir do processo de abertura de capital na bolsa de valores de São Paulo, a B3, a rede pretende usar a receita própria para aprimorar seus projetos de transformação digital, por meio do laboratório de inovação Havan Labs e da fintech Havan Bank. “Tudo segue o mesmo planejamento. Vamos implementar uma escola de tecnologia dentro da Havan para formar mais profissionais capacitados”, promete. Em 2020, a varejista foi criticada por analistas ao tentar levantar 10 bilhões de reais no mercado, num movimento que avaliaria a empresa em 100 bilhões de reais, valor que foi considerado exagerado. A despeito dos ótimos números em seu balanço, a fraca presença do comércio eletrônico foi vista como um dos empecilhos para que a empresa chegasse ao múltiplo desejado. Hoje, ele diz não pensar mais em IPO, mas não descarta voltar ao mercado no futuro. “No início do ano passado, nós vimos que estava subindo o número de empresas abrindo capital e resolvemos abrir também. Mas, depois, vimos que os investidores murcharam. E eu resolvi sair fora”, afirma ele. “O tempo dirá se voltaremos a pensar em IPO. Hoje eu não estou pensando.”

SEM ISOLAMENTO - Proprietário da Havan: inauguração de lojas atraiu multidões -
LUCIANO HANG - Patrimônio estimado em R$ 18,7 bilhões : “Não quero ser um bilionário no meio de miseráveis” – Eduardo Marques/Tempo Editorial/.

Filho de operários da indústria têxtil — a própria Havan, em seus primórdios, era uma loja de tecidos –, Hang pede que o governo dê prioridade para a indústria no país. Recentemente, empresas de diversos setores decidiram abandonar suas linhas de produção em solo nacional. “Nós precisamos apoiar a indústria brasileira. O que eu prego hoje em conversas com o presidente é que precisamos reduzir a máquina pública para produzir no Brasil para que o país possa ser novamente exportador de produtos industrializados e não só de matérias-primas”, recomenda. “Não quero ser um bilionário no meio de miseráveis.”

O empresário demonstra confiança nos presidentes eleitos no Congresso, Arthur Lira (PP-AL), na Câmara, e Rodrigo Pacheco (DEM-MG), no Senado. “Espero que eles estejam com o espírito da mudança. Acho que o governo Bolsonaro começa agora”, diz ele, externando esperança na aprovação das reformas liberais e na privatização das estatais. “O Congresso tem de ser autorizado a vender todas as estatais. Não passam de cabides de emprego para políticos que tomam o dinheiro do cidadão”, completa. Hang continua em sua dupla jornada, de empresário e ativista influente.

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