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Depoimento de ex-dono do frigorífico Independência reaviva CPI do BNDES

Graciano Roberto Russo controlava a empresa, que quebrou em 2009 - e, segundo ele, por culpa da política de campeões nacionais do banco, que favoreceu a JBS

Por Ana Clara Costa, de Brasília
24 set 2015, 17h57

A CPI do BNDES andava em baixa. O motivo é que os deputados têm tido dificuldade para convocar empresários graúdos que negociaram com o banco de fomento, como os irmãos Batista, da JBS. Mas, na manhã desta quinta-feira, o depoimento do empresário Graciano Roberto Russo, ex-dono do frigorífico Independência, pareceu dar uma injeção de ânimo aos trabalhos da comissão. O Independência, que foi um dos maiores frigoríficos do país, quebrou em 2009 – e, segundo Russo, a culpa é do BNDES.

“Quando se faz uma política de campeões nacionais e o governo arbitra, automaticamente cria-se uma cadeia de perdedores”, disse Russo. O Independência quebrou depois de ter tomado com o banco um empréstimo de 250 milhões de reais.

Russo afirmou que o setor funcionava de forma equilibrada até a entrada do BNDES no setor, o que causou “desequilíbrio”, na avaliação do empresário. “O setor de carnes funciona sozinho, em equilíbrio. Não precisa de ajuda de banco de desenvolvimento”, afirmou.

Em seu depoimento, Russo declarou que só recorreu ao BNDES quando a empresa estava altamente endividada devido à perda de mercado para a concorrência dos irmãos Batista, que havia sido turbinada com bilhões do banco de fomento. Em 2008, durante a crise internacional, o BNDES aprovou um empréstimo de 400 milhões de reais ao Independência, mas o desembolso, de apenas 250 milhões de reais, ocorreu em fatias e com atraso. “O que foi combinado com o BNDES era para julho. Mas veio só em novembro”, disse o empresário.

Pulga atrás da orelha – A afirmação de Russo desviou o foco da CPI. Se antes os deputados se questionavam sobre a razão de um crédito de 250 milhões de reais ter sido dado a uma empresa em situacão falimentar, depois das afirmações de Russo, a Comissão passou a conjecturar que o banco de fomento talvez tenha operado em favor da JBS para atrasar crédito a frigoríficos concorrentes com o intuito de quebrá-los.

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Russo disse que sua vida não foi fácil nos corredores do banco porque não tinha contatos lá dentro. Contudo, ele tampouco explicou como conseguiu costurar a venda de 21% de sua empresa ao BNDES — os ativos foram dados como garantia ao montante captado com o banco –, mesmo com o Independência já em situação financeira delicada.

Em 2014, o diretor do BNDES Julio Cesar Raimundo afirmou à Comissão de Agricultura da Câmara que a quebra do Independência surpreendeu o mercado e que foi fato “inusitado” a concessão de financiamento a uma empresa com endividamento de 4 bilhões de reais. “É um caso muito inusitado em que fizemos uma série de questionamentos que não foram respondidos a contento”, disse.

Na terça-feira, Raimundo e o diretor Roberto Zurli Machado compareceram à CPI para prestar esclarecimentos. Raimundo chegou a afirmar que se “surpreendeu” com a quebra do Independência porque o frigorífico havia feito captação importante no mercado financeiro pouco antes de receber o crédito do BNDES. Ou seja, Raimundo argumentava que, se o mercado de crédito privado dava um voto de confiança à empresa, não havia razão para o banco de fomento não dar. Em recuperação judicial, o Independência foi adquirido na bacia das almas pela JBS em 2013, por 268 milhões de reais – sendo metade em ações da própria JBS e o restante em dinheiro.

Os donos da JBS, os irmãos Wesley e Joesley Batista, foram alvo de requerimento de deputados para prestar esclarecimentos à CPI. Numa votação de 15 a 9, os empresários foram blindados por alguns parlamentares, e o pedido de convocação foi negado. Na quarta-feira, o requerimento foi reapresentado.

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