Dependente do Brasil, Paraguai faz jogo de cena com convocação de embaixador
Tanto barulho por nada na indignação paraguaia
O presidente Lula fez uma comparação infeliz, do ponto de vista diplomático, entre a Guerra do Paraguai, ocorrida há cerca de 160 anos, e a necessidade de investir em defesa nos dias de hoje. O comentário, feito em um discurso (de improviso, claro) no último dia 24, provocou uma reação um tanto quanto defasada – e exagerada – do governo paraguaio nesta quinta-feira, 30, quando o embaixador do Brasil em Assunção foi convocado para prestar esclarecimentos.
A Guerra da Tríplice Aliança, como é chamada no Paraguai, de fato começou com uma invasão dos territórios dos países vizinhos pelo ditador Solano López, como corretamente afirmou Lula, especialmente do Mato Grosso. É o que se ensina nos livros de história brasileiros.
Mas também é verdade que o Brasil não foi inocente na história, já que antes do início do conflito fez incursões militares no Uruguai, interferindo em interesses paraguaios por lá. Diversos outros episódios intensificaram os atritos entre Argentina, Uruguai, Brasil e o Paraguai, culminando na guerra. Os planos expansionistas de López foram essenciais para isso.
A guerra dizimou boa parte da população do Paraguai e colocou o país de joelhos. Por óbvio, é uma questão sensível para o país até hoje. Mas o sentimento de ofensa manifestado pelo atual governo de Santiago Peña também tem razão política.
O presidente paraguaio é alinhado politicamente a Javier Milei, da Argentina, e, naturalmente, tem afinidade ideológica com o clã Bolsonaro no Brasil. Milei esteve no Brasil no último fim de semana para participar do lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Na ocasião, aproveitou para ofender pessoalmente o presidente Lula e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
De resto, a indignação paraguaia deve parar por aí. O país depende economicamente do Brasil, e Peña sabe bem disso. Eis os principais indicadores disso:
- Comércio bilateral: O Brasil é o principal parceiro comercial do Paraguai, respondendo por 25,9% do comércio total paraguaio com o mundo em 2025, com as exportações ao Brasil representando 31,0% de tudo o que o Paraguai exportou naquele ano, e as importações brasileiras equivalendo a 22,9% do total importado pelo país.
- Energia: cerca de 87% do consumo elétrico paraguaio depende da usina de Itaipu, cuja energia excedente é vendida ao Brasil a preço muito abaixo do mercado internacional; desde 2022, os consumidores brasileiros já pagaram 18,3 bilhões de reais a mais pela energia de Itaipu por conta do modelo de definição de tarifas com base em negociação direta com o país vizinho. Uma nova tarifa pode ser estabelecida a partir de 2027; as negociações em curso interessam enormemente a Peña e ele não vai querer colocar isso em risco.
- Investimento estrangeiro: o Brasil é o maior investidor direto no país.
- Indústria de maquila: mais de 60% da produção paraguaia sob esse regime é exportada diretamente ao mercado brasileiro.
Recentemente, houve uma pequena crise diplomática entre os dois países por conta da descoberta de que houve tentativas de espionagem do Brasil em torno de negociações do acordo da usina de Itaipu. O comentário de Lula tem um potencial de dano ainda menor para as relações bilaterais.







