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Defasagem do preço da gasolina chega a 25% e penaliza Petrobras

Alta do dólar e alta do preço do barril do petróleo ampliam a diferença entre o valor que a Petrobras paga pelos combustíveis e o praticado no mercado doméstico

Por Da Redação - 16 jul 2013, 17h56

Os preços mais altos dos combustíveis no mercado internacional e o fortalecimento recente do dólar frente ao real fizeram crescer a defasagem do preço cobrado pela Petrobras para o maior nível em quase um ano, de acordo com cálculos do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie).

A diferença entre a cotação da gasolina vendida no Brasil pela Petrobras e a comercializada no exterior passou de 17,9% em 2 de julho para 25,3% em 9 de julho, maior patamar desde 28 de agosto de 2012, quando o índice era de 32%. No caso do óleo diesel, a defasagem de preços no mercado externo e interno passou de 18,9% em 2 de julho para 21,7% no dia 9.

Logo após o último reajuste nas refinarias brasileiras, ocorrido no começo de março, a diferença entre o valor da gasolina e do diesel entre o Brasil e os EUA era de 16,5% e 14%, respectivamente, segundo o centro de análises. O diesel foi reajustado duas vezes este ano pela Petrobras, com altas de 6,6% em janeiro e 5% em março, enquanto a gasolina teve uma alta de 5,4% em janeiro.

O aumento da defasagem significa que a Petrobras está pagando mais caro pelo combustível e não está repassando essa alta dos custos ao consumidor. A estatal tem feito importações volumosas para acompanhar o crescimento do mercado interno, mesmo com suas refinarias operando a pleno vapor. “Foi criado um buraco no caixa da empresa. Ela é obrigada a se endividar cada vez mais para cumprir as metas de investimento e bancar a defasagem de preços, já que o governo não vai permitir novo aumento no preço da gasolina devido ao avanço da inflação”, afirma o especialista do setor de óleo e gás Adriano Pires, que também é diretor do Cbie.

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Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, a média diária do volume de importação de combustíveis em julho está em 212 milhões de dólares – valor 62% maior do que o verificado em junho. Nesse período, o preço do barril do petróleo também avançou, assim como a cotação do dólar. Na semana passada, o preço do petróleo nos EUA atingiu uma máxima de 15 meses, 107,45 dólares o barril, após superar, no início do mês, a barreira de 100 dólares o barril por preocupações com suprimentos no Oriente Médio – por causa da crise no Egito – e com a queda nos estoques norte-americanos. Já o dólar atingiu o maior nível durante o pregão em mais de quatro anos, a 2,2809 reais. Nesta terça-feira, a moeda fechou cotada a 2,25 reais. Apenas em junho, a alta foi de 11%.

Os preços dos combustíveis no mercado norte-americano flutuam de acordo com as cotações do petróleo, o que não acontece no Brasil, uma vez que são controlados pelo governo, acionista majoritário da Petrobras. Com isso, variações decorrentes de conjunturas macroeconômicas desfavoráveis ou desequilíbrios entre oferta e demanda acabam sendo financiados pela própria estatal.

Nova regra contábil – O Cbie já havia notado em junho que a valorização do dólar neutralizaria os reajustes de combustíveis feitos pela estatal entre o final do ano passado e o início deste ano. Não por acaso, a empresa divulgou na última semana uma mudança em suas regras contábeis, adotando uma nova política de hedge – uma operação que permite que empresas exportadoras posterguem os efeitos da variação cambial. Tal política é aplicada no Brasil por multinacionais, como a BRF. Mas não era prática comum na Petrobras.

A contabilidade de hedge pode ser usada desde que as empresas exportadoras gerem fluxos de caixa futuros em moeda estrangeira. Com isso, a regra prevê que 70% do total da dívida líquida exposta à variação cambial seja neutralizada pelo fluxo de dólares gerado por 20% das exportações da empresa nos próximos sete anos. Assim, a estatal compensa possíveis prejuízos com a dívida em dólar por meio da projeção de exportações futuras.

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Ao reduzir o impacto cambial na dívida em dólar da empresa, a medida também viabiliza o pagamento de dividendos ao Tesouro Nacional – o que, afinal, é a razão para toda essa engenharia contábil. “Trata-se de uma medida legítima. Mas a Petrobras nunca precisou dela antes. E se agora está precisando desses artifícios para conseguir bancar a defasagem e os dividendos ao Tesouro, é porque as coisas realmente não vão bem”, afirma Pires.

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Impacto – Segundo o analista Pedro Galdi, da corretora SLW, a política de hedge fará com que o endividamento da empresa seja aliviado nos próximos trimestres, mas não deixa de ser fator preocupante. “Você empurra o efeito cambial para o médio prazo. E, como ela deverá ter um aumento de receita devido ao pré-sal, o impacto é mitigado. Mas ele existe”, afirma.

Já o banco HSBC afirmou, em relatório a investidores, que as perdas decorrentes da variação cambial devem ocorrer, ainda que em menor escala. “Acreditamos que isso provavelmente irá resultar em uma perda nos negócios de refino da companhia de 15,6 bilhões de reais em 2013”, afirmou o banco, ressaltando que desde 2011 a companhia já perdeu 42 bilhões de reais com a política de não ajustar os preços de acordo com a volatilidade internacional.

O banco comentou também que, devido à atual taxa de inflação e aos protestos recentes no Brasil, a chance de ocorrer um aumento de preço dos combustíveis antes da eleição em outubro de 2014 foi reduzida de forma significativa.

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