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De catador em um lixão na Bahia a empreendedor: a trajetória de superação de Sergio Bispo

Órfão desde a infância, ele caminhou cerca de 80 dias até São Paulo, enfrentou o alcoolismo e o preconceito

Por Carolina Ferraz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 3 ago 2026, 16h48
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Sergio Bispo nasceu dentro do antigo lixão de Canabrava, em Salvador (BA). Filho de catadores, passou a infância recolhendo materiais recicláveis ao lado de outras famílias que viviam no local. Perdeu os pais ainda muito pequeno e foi levado para um orfanato, onde, pela primeira vez, conheceu uma rotina com três refeições por dia. A permanência, porém, durou pouco. Na adolescência, decidiu fugir para voltar a trabalhar com a coleta de resíduos.

A fuga aconteceu escondido na caçamba de um caminhão que deixava o orfanato. Desceu no Pelourinho e retomou a vida como catador. Com o primeiro carrinho de coleta, conquistou sua principal ferramenta de trabalho, mas enfrentava outro desafio: o alcoolismo. Sem conseguir lidar com a perda dos pais e a falta de afeto, gastava praticamente todo o dinheiro que ganhava com bebidas.

Sem acesso à escola, Sergio aprendeu a ler e escrever ao longo da vida, conforme as necessidades do dia a dia. Ainda jovem, ouviu em um telejornal que São Paulo era uma cidade onde as pessoas conseguiam trabalhar, formar família e construir uma vida melhor. Decidiu que iria para lá, mesmo sem saber exatamente onde ficava.

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Ao perguntar a um dono de bar como chegava à cidade, ouviu uma resposta que nunca esqueceu: “É só seguir sempre em frente”. E foi exatamente isso que fez. A viagem durou cerca de 80 dias, grande parte percorrida a pé e, em alguns trechos, de carona com desconhecidos. Foi durante esse percurso que conheceu o preconceito. Dormiu em postos de gasolina, foi expulso de lugares onde tentava descansar e ouviu frases que marcaram sua trajetória. “Você não tem futuro”, era uma das ofensas mais frequentes. Apesar das humilhações, continuou caminhando até chegar ao estado de São Paulo, em 1989.

Pouco depois, foi acolhido por uma instituição ligada aos Franciscanos e conheceu Val, que mais tarde se tornaria sua companheira e mãe de seus três filhos. Juntos, começaram a trabalhar como catadores na Vila Mariana, na capital paulista. Paralelamente, Sergio passou a participar da criação de cooperativas de reciclagem em diferentes regiões do país e colaborou no desenvolvimento do Cataki, aplicativo que conecta pessoas e empresas a catadores de materiais recicláveis.

O empreendedorismo surgiu em 2014, depois que assistiu a uma reportagem sobre empresas criadas por catadores. A ideia o inspirou a fundar a Kombosa Seletiva, negócio voltado à coleta de resíduos recicláveis e à educação ambiental. O que começou como um pequeno empreendimento cresceu rapidamente. A empresa deixou de ser um MEI para se tornar uma microempresa e, atualmente, atende mais de 25 clientes, realiza eventos corporativos, palestras e presta serviços para condomínios e restaurantes em São Paulo.

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Hoje morador da Barra Funda, Sergio diz que nunca imaginou viver em um bairro como esse. Ao olhar para trás, vê uma trajetória marcada por perdas, preconceito, depressão e dificuldades, mas também por superação. A mesma atividade que começou ainda na infância, no lixão de Canabrava, se transformou não apenas em profissão, mas também em um propósito de vida e em uma ferramenta de transformação social.

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