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Custo Brasil pode sufocar indústria automotiva nacional

Medidas protecionistas e incentivos do governo federal não bastam para responder à maior necessidade do setor: aumentar a competitividade

Por Da Redação 29 ago 2012, 03h36

A fabricante da automóveis Honda lançou o carro City no México com preço a partir de 16.000 dólares, o equivalente a cerca de 32.000 reais. No Brasil, o mesmo veículo não sai por menos de 25.000 dólares e pode ultrapassar os 30.000 – o modelo mais equipado tem preço de tabela em 61.860 reais. Ainda assim, brasileiros adquiriram três vezes mais Hondas no ano passado do que em 2010. Mas se os consumidores se cansarem de pagar por um carro o valor de dois, a indústria nacional pode ter sérias dificuldades para tentar baratear os automóveis.

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Em alta, o chamado custo Brasil começa a ofuscar uma década de expansão do quarto maior mercado automobilístico do mundo e ressalta a necessidade de ações de longo prazo para o aumento da competitividade. Em vez disso, as montadoras nacionais recebem apoio temporário do governo, o que pode sufocar o crescimento nos próximos anos.

Quando a indústria começou a dar sinais de desaceleração, a presidente Dilma Rousseff socorreu o setor e conteve as importações do México. As medidas representam a iniciativa mais protecionista no mercado automotivo nacional desde que ele abriu-se às importações há duas décadas, e estão modificando a indústria, nem sempre com bons resultados. A redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para automóveis nacionais impulsionou as vendas de algumas montadoras, enquanto outras congelaram seus planos de novas fábricas. Para analistas, essas políticas não resolverão o principal problema: está ficando mais difícil fabricar um carro no Brasil por um preço que os brasileiros consigam pagar.

Custo recorde – Nos últimos cinco anos, por exemplo, as vendas da montadora Renault triplicaram no país, onde a marca se aproxima da quarta posição no ranking de fabricantes de carros. Mas quando o executivo francês Olivier Murguet assumiu a presidência da companhia no Brasil este ano, foi surpreendido com custos muito acima daqueles da Renault na França. No início deste mês, Murguet disse que em breve as operações serão mais caras no Brasil do que em qualquer outro lugar do mundo.

“A nossa empresa não pode suportar aumentos de custo dessa magnitude”, afirmou. “Se a gente não tivesse feito esses investimentos, talvez agora a gente não seria tão ousado”, acrescentou. Murguet está enfrentando o famoso custo Brasil, resultante de impostos, burocracia e uma inflação teimosa que eleva os preços de todos os produtos. A rígida legislação trabalhista e um mercado de trabalho apertado levaram a uma elevação dos salários a taxas superiores à inflação nos últimos sete anos. Apenas em 2011, sindicatos de metalúrgicos negociaram um aumento de 10% no salário nominal.

Investimentos anêmicos em estradas também fizeram com que transferir carros para concessionárias seja 80% mais caro e consuma 70% mais tempo comparado às operações da Renault na Europa, segundo Murguet. Nas revendedoras, os impostos elevam em mais de 30% o preço dos coarros, quase o dobro da proporção registrada na Itália, por exemplo – e o país é o segundo mercado com mais tributos onde a Renault opera. “Aqui (no Brasil) todos os anos perdemos três a quatro pontos de competitividade. Isso não pode continuar muito tempo, porque um dia a margem termina em zero”, diz o dirigente.

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Incentivos – A presidente Dilma tentou resolver diversos problemas estruturais do Brasil reduzindo taxas de juros e incentivando o investimento privado no setor de infraestrutura. Mas quando empregos na indústria correm risco, ela enfrenta uma clara pressão da base aliada para manter os postos de trabalho e bloquear a entrada de veículos fabricados no exterior.

Temendo uma onda de cortes de postos de trabalho, a resposta do governo foi esmagar os importadores depois que as vendas de veículos novos importados cresceram 30%, para quase um em quatro carros. O Brasil elevou os impostos em 30 pontos percentuais para uma série de carros importados e, quando isso se mostrou insuficiente em maio, reduziu o IPI sobre veículos fabricados no país. A medida ajudou a conter as importações e funcionou como fagulha para as vendas de carros brasileiros, mas não resolveram um problema: o risco de demissões.

Na General Motors, que decidiu fechar uma fábrica de modelos antigos em São José dos Campos, no interior de São Paulo, e transferir a nova produção para unidades mais eficientes, a expectativa era cortar mais de 1,8 mil empregos na fábrica antiga, Mas o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos organizou um bloqueio da Via Dutra, que liga Rio de Janeiro a São Paulo, ameaçou greve e exigiu a intervenção da presidente. “Nós damos incentivos fiscais e financeiros e queremos um retorno: a manutenção do emprego”, reagiu Dilma. A GM abriu mão da decisão e aceitou manter a linha de produção da unidade.

Produtividade – O sacrifício da eficiência em nome de emprego total reflete na queda da produtividade por funcionário. Segundo a Anfavea (associação nacional dos fabricantes), o índice recuou no ano passado pela primeira vez desde 1999. Este ano, caiu mais 12% no primeiro semestre, para o menor patamar em oito anos.

A expectativa geral é de que o governo estenda a medida emergencial do IPI, que expira na próxima setxa-feira, por pelo menos mais dois meses. Ainda assim, analistas dizem que isso está apenas adiando inevitáveis cortes de postos de trabalho. “O corte do IPI é temporário. Isso é o problema”, disse o vice-presidente sênior da GM, Marcos Munhoz. “O que a gente sempre procura não é três meses nem seis meses. O que a gente procura é uma mudança estrutural.”

Enquanto isso, as barreiras comerciais afastam novas empresas. A chinesa JAC Motors, a alemã BMW e a divisão Jaguar Land Rover, da Tata Motors, suspenderam planos para inaugurar fábricas no país. “Não iremos ao Brasil para ter prejuízo”, disse o chefe de produção da BMW, Frank-Peter Arndt, durante negociações com o governo este ano. A BMW afirmou considerar a possibilidade de estabelecer uma nova fábrica no México, onde os impostos e os custos trabalhistas são significativamente menores.

Para consumidores brasileiros, o resultado é óbvio: menos competição e carros já custosos, que deverão ficar ainda mais caros devido a mais componentes fabricados no país em razão dos obstáculos às importações.

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(Com agência Reuters)

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