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Cuidado para não cair na ‘lista negra’ dos recrutadores

Inflar o nível de inglês, maquiar o tempo de permanência de emprego e mentir sobre formação deixam o candidato com o ‘nome sujo’ no mercado de trabalho

Por Larissa Quintino Atualizado em 10 jul 2020, 12h16 - Publicado em 10 jul 2020, 11h00

É clichê, mas vale a pena lembrar: o currículo é o cartão de visitas do candidato no mercado de trabalho. Por isso, ter uma boa apresentação pode fazer a diferença na hora de ser chamado para uma entrevista e facilitar o ingresso no mercado de trabalho. Por ser uma carta de apresentação, muitas pessoas caem na tentação de dar, digamos, uma inflada em suas experiências acadêmicas e profissionais, nível de idioma, tempo de permanência no emprego vislumbrando mais chances de ser notado pelos departamentos de RH. Mas, o que é a primeira vista inofensivo, pode fazer um mal danado a carreira, separar o trabalhador da recolocação e colocar a pecha de antiético junto ao nome do profissional, uma habilidade que não se coloca no currículo, mas persegue o candidato. Vide o caso do ex-ministro da Educação, o economista Carlos Alberto Decotelli, que nem chegou a assumir de fato a pasta. Vendido pelo governo como um profissional de currículo exemplar, o então ministro viu seus títulos serem questionados assim que foram expostos. Com um cartão de visitas manchado, não faltaram questionamentos sobre a ética e o caminho foi o desligamento do cargo que nem chegara a assumir. Honestidade e bons valores, segundo os recrutadores e como mostra o caso do ministro, valem muito mais que um currículo dos sonhos. Então, atenção para não cair na lista negra do RH.

Há recrutadoras como a Page Personnel, especializada em recrutamento para posições técnicas e de confiança, como altos executivos, que inclusive usa um dispositivo como o do SPC e do Serasa que identificam maus pagadores, neste caso, os mentirosos. Ao encontrar inconsistências que deponham contra a ética do profissional – categoria onde se encaixam as mentiras no currículo – a empresa “negativa” o nome daquele candidato em seu banco de dados. Segundo Lucas Oggiam, diretor da empresa de seleção, mentiras descobertas vão para a observação da ficha do candidato e, quando uma outra empresa procura um alguém com as características daquela pessoa que mentiu no currículo, essa observação é passada para a empresa contratante. “Essa é a pior escolha que um profissional pode fazer. Que empresa vai querer contratar um executivo de caráter duvidoso? A ética é um dos pilares principais do mercado de trabalho”, pontua. Apesar de não haver um arquivo secreto no mundo do RH com todas as mentiras já contadas pelas pessoas, Oggiam ressalta que assim como a Page Personnel, departamentos de recrutamentos de grandes empresas fazem observações sobre os candidatos. E aí que inconsistências são notadas e anotadas.

  • Por mais bem elaborada que seja, a mentira – recorrendo a outro clichê – tem perna curta. Ao pegar um currículo, o trabalho do recrutador e de bancos de de dados de currículos – em primeiro momento, é fazer o fit cultural da pessoa com a vaga. Ou seja, se ela tem as características e qualificações para ocupar aquele posto de trabalho. O segundo passo, entretanto é a checagem dos dados. Verificação de formação profissional e tempo ou descrição de determinado cargo, por exemplo, são checados com uma simples ligação a um antigo empregador ou instituição de ensino. No caso do idioma a verificação é feita no momento da entrevista. “Quando o candidato mente no nível de inglês, e diz que é fluente, ou se apropria de um projeto que não foi ele quem tocou, dificilmente consegue conversar em outro idioma ou contar o que ele fazia sem se enrolar. E é nessa fase que pegamos a maior parte das inconsistências. Além de todo o ponto negativo que a mentira trás, ela ainda é uma perda de tempo: para quem busca emprego e para quem quer contratar”, afirma Patrícia Suzuki, gerente de Gente e Gestão da Catho. No caso da Catho, que funciona como uma plataforma de conexão entre empresas e candidatos, não há uma ferramenta específica para a sinalização de inconsistências no currículo, porém mesmo as mentiras encontradas em entrevistas repercutem quando profissionais de RH buscam informações sobre o candidato. “O mundo do RH troca muitas informações. Então, uma hora ou outra, a mentira aparece”.

    Por ser um processo humano, é possível que algumas histórias bem elaboradas passem na hora da entrevista, mas empaquem e quebrem o processo de contratação na hora da efetivação do candidato na hora de entregar documentos, explica Luciana Calegari, especialista em RH do Vagas.com. Segundo ela, há até situações que o mentiroso até é contratado, utilizando de documentação falsa – como um diploma – mas em grandes empresas com políticas de compliance, é comum que profissionais que usaram de documentos falsos sejam descobertos. “Ai, além da questão ética, existe um crime. Falsificação de documentos é passível de punição e essa é uma mancha que ficará permanentemente no currículo”, afirma.

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    ‘Soft skills’

    Mais que um currículo com formação nas melhores universidades e passagens por grandes empresas, os especialistas em RH afirmam que o objetivo da busca de candidatos para preenchimento de vagas mudou: além da qualificação profissional, as empresas buscam as chamadas soft skills, e o caráter é o número um da lista de habilidades, comum para todas as vagas. “Há algumas tentações que quase todo mundo cai que é mudar a data que saiu e entrou de um emprego para outro para mostrar que não mostrar que ficou um longo período desempregado porque acredita que isso desvaloriza o currículo. Porém, é muito melhor o candidato falar a verdade, e se questionado em uma entrevista pelo tempo parado, do que ser descoberto na conversa e passar a sensação de pouco confiável”, afirma Caligari.

    Para quem está aproveitando a quarentena para fazer cursar uma série de conteúdos gratuitos e aumentar seus conhecimentos, vai um recado dos recrutadores: inclua, sim, em seu currículo aquilo que achar relevante, mas não tente colocar um curso online como uma pós graduação, porque isso pega mal. “O campo ‘cursos livres’ do currículo está ali para ser usado. É fundamental que a pessoa se atualize e mostre que está atrás de novos conhecimentos. Mas tão importante quanto isso é não querer tirar vantagem”, diz Suzuki, da Catho. Por fim, se sentir tentado a contar vantagem de uma habilidade que não necessariamente tenta, a dica é ir atrás daquela qualificação. “Mentir não é a solução e, em muitos casos, é um caminho sem volta”, finaliza Oggiam, da Page Personnel.

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