Crescimento de 1% no Chile desafia choque ultraliberal de José Antonio Kast
Eleito com promessa de acelerar a economia, presidente enfrenta desemprego em alta, risco de recessão e concorrência por investimentos
A recuperação econômica prometida pelo presidente do Chile, José Antonio Kast, ainda não saiu do papel.
Pouco mais de quatro meses após assumir o governo com um discurso de redução de impostos, desregulamentação e estímulo ao investimento privado, o país enfrenta crescimento fraco, aumento do desemprego e sinais de desaceleração que colocaram a economia no centro da insatisfação dos chilenos.
Analistas consultados por bancos e instituições financeiras reduziram drasticamente suas projeções para 2026.
Se, após a eleição de Kast, parte do mercado acreditava que o Produto Interno Bruto (PIB) poderia crescer até 3% neste primeiro ano de governo, hoje a expectativa predominante gira em torno de 1%, segundo estimativas de instituições como JPMorgan e Bradesco.
A frustração econômica começa a cobrar um preço político.
Pesquisa da consultoria Cadem mostra que inflação, desemprego e baixo crescimento passaram a ser as principais razões para a desaprovação do governo, superando temas que dominaram a campanha eleitoral, como segurança pública e imigração.
A rejeição ao presidente subiu para 59%, ante 34% quando tomou posse, em março.
Economia perde força apesar do cobre em alta
O desempenho decepciona porque ocorre justamente em um cenário considerado favorável para o Chile.
Maior produtor mundial de cobre, o país se beneficia de preços internacionais próximos dos recordes históricos, o que normalmente impulsiona exportações, arrecadação e investimentos.
Mesmo assim, a atividade econômica perdeu tração.
O PIB encolheu no primeiro trimestre, a produção voltou a recuar em maio e diversos setores apresentam desempenho abaixo do esperado.
A mineração sofre com queda na qualidade do minério extraído, a indústria desacelerou, a construção civil continua fraca e o consumo perdeu força diante da alta dos combustíveis registrada após a escalada das tensões no Oriente Médio.
O mercado de trabalho também preocupa. O desemprego atingiu o maior nível em cinco anos e economistas apontam que as empresas seguem adiando contratações, enquanto cresce a informalidade.
A agenda liberal enfrenta um novo desafio
Kast venceu as eleições prometendo transformar o Chile em uma das economias mais competitivas da América Latina.
Sua principal aposta é um amplo pacote de reformas econômicas que reduz impostos corporativos de 27% para 23%, simplifica o licenciamento ambiental, cria incentivos à contratação e oferece estabilidade tributária para grandes projetos de investimento.
O projeto já foi aprovado pela Câmara e aguarda votação final no Senado.
O governo argumenta que os resultados ainda não apareceram porque parte da desaceleração foi herdada da administração do ex-presidente Gabriel Boric, além do impacto da guerra no Oriente Médio sobre os preços da energia.
Para tentar acelerar a recuperação, Kast anunciou recentemente um programa equivalente a cerca de US$ 54 milhões para subsidiar empresas e criar 50 mil empregos até outubro, além de prometer novas medidas de estímulo ao investimento nas próximas semanas.
Chile disputa capital com novos governos de direita
Além dos problemas internos, o Chile enfrenta um ambiente regional mais competitivo.
A eleição de governos liberais em países vizinhos mudou o mapa dos investimentos na América do Sul.
No Peru, a presidente eleita Keiko Fujimori prometeu desregulamentação e redução da carga tributária. Na Colômbia, o presidente eleito Abelardo de la Espriella também defende uma agenda pró-mercado.
Ao mesmo tempo, a Argentina de Javier Milei tem atraído grandes projetos nos setores de mineração, energia e infraestrutura após reduzir barreiras regulatórias e criar incentivos para investidores estrangeiros.
Mercado ainda aposta em recuperação
Apesar da deterioração dos indicadores de curto prazo, o governo sustenta que a economia começa a dar sinais de reação.
Entre abril e junho, projetos superiores a US$ 16 bilhões receberam licenças ambientais, o maior volume já aprovado em um único trimestre, segundo o governo chileno.
Além disso, a arrecadação de impostos sobre o consumo voltou a crescer em junho e a queda recente dos preços dos combustíveis alimenta a expectativa de recuperação da confiança das famílias.
Ainda assim, boa parte dos economistas acredita que uma retomada mais consistente só deverá ocorrer ao longo de 2027.
Enquanto isso, Kast enfrenta o maior teste de seu mandato: convencer um eleitorado que o escolheu para acelerar a economia de que os resultados prometidos ainda podem chegar.







