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Credores podem virar sócios da Kora após segunda reestruturação em menos de dois anos

Plano coloca até 100% das ações em um FIP, cria seis classes de cotas e oferece participação econômica a debenturistas depois de um reperfilamento de quase R$ 2 bilhões que não resolveu a dívida

Por Machado da Costa Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 16 ago 2026, 11h30
Credores podem virar sócios da Kora após segunda reestruturação em menos de dois anos Priorizar nos meus resultados Google

Há pouco mais de um ano, a Kora Saúde convenceu credores a empurrar quase R$ 2 bilhões em dívidas para 2030. O prazo não foi suficiente. Na nova tentativa de reorganizar as finanças da rede hospitalar controlada pela H.I.G., parte das obrigações poderá ser levada até 2051, outra parcela ganhará características de dívida perpétua e os próprios credores poderão terminar como sócios da companhia.

A engenharia transforma uma discussão que até agora era essencialmente sobre prazo e juros em uma negociação sobre propriedade. O plano prevê que até 100% das ações da Kora sejam colocadas dentro de um novo FIP, dividido em seis subclasses de cotas, de A a F. Parte dos créditos dos debenturistas poderá ser convertida em instrumentos patrimoniais e, posteriormente, em ações da companhia. Na prática, credores que deram mais prazo à Kora na primeira reestruturação podem agora ganhar exposição direta ao valor dos hospitais.

No centro do desenho está um investidor ainda não identificado publicamente. A documentação chama esse personagem apenas de “Debenturista Back-Stop”. Caberá a ele garantir a parcela dos R$ 200 milhões de dinheiro novo que os demais credores não quiserem colocar. Em troca, o backstop terá direito a transformar dívida antiga em dívida super sênior na proporção de um para um e poderá ainda receber outros instrumentos previstos na reestruturação. É uma posição particularmente privilegiada para quem estiver disposto a colocar dinheiro novo quando a companhia mais precisa.

O Radar Econômico encontrou nos registros públicos um possível protagonista relevante dessa negociação. Em uma fotografia de carteira disponível na CVM, o LCM Odyssey FIP, veículo ligado à Lumina Capital, aparecia com 250 mil debêntures KRSA22 — quantidade equivalente à totalidade daquela série emitida pela Kora. A Lumina já havia participado das discussões da reestruturação anterior. A gestora foi questionada pelo Radar se ainda mantém essa posição e se algum de seus veículos ocupa a função de backstop ou participará dos R$ 200 milhões de dinheiro novo, mas não respondeu até a publicação. Os documentos disponíveis não permitem afirmar que a Lumina seja o investidor responsável pelo backstop.

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A grande incógnita, porém, está do outro lado da mesa. O novo FIP passará a concentrar as ações hoje pertencentes aos atuais acionistas, entre eles a H.I.G., que controla a Kora por meio de seus veículos. Como as seis subclasses terão prioridades econômicas distintas e poderão receber também créditos convertidos, ainda não é possível saber quanto do valor econômico da companhia permanecerá com o controlador depois da operação. A H.I.G. foi procurada pelo Radar para informar sua participação futura, se continuará no controle, quais direitos políticos pretende manter e se colocará dinheiro novo. A assessoria respondeu que o fundo não comentará o assunto.

A nova tentativa de resgate ocorre pouco depois de uma solução que deveria ter dado fôlego de vários anos à Kora. No fim de 2024, a empresa reperfilou cerca de R$ 1,95 bilhão e empurrou vencimentos relevantes para 2030. Em março deste ano, já pediu aos credores 90 dias de alívio no pagamento de remuneração e recebeu apenas 30. No mês seguinte, entrou com o pedido de recuperação extrajudicial. Agora, a saída proposta combina vencimentos até 2051, instrumento perpétuo, R$ 200 milhões de capital novo e conversão de créditos em participação. Se for implementada como desenhada, a segunda reestruturação da Kora não dará apenas mais tempo à companhia: poderá redesenhar quem participa economicamente do negócio.

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